A publicidade que vemos na televisão e nas revistas não é a única estratégia das empresas do sector alimentar para darem a conhecer os seus produtos. À semelhança de outros países, também em Portugal há delegados de informação alimentar que contactam profissionais de saúde para lhes apresentar os supostos benefícios dos produtos.
A Danone é uma das empresas que o faz. Segundo afirmam por e-mail responsáveis da empresa, o recurso a delegados, “prática comum na indústria alimentar”, existe “em Portugal desde 2005”. Trata-se de uma estratégia que visa “responder às solicitações dos próprios profissionais de saúde, que sentiram necessidade de esclarecimentos adicionais sobre esta matéria, muitas vezes questionados pelos próprios consumidores”, adiantam. Apesar de ter estes profissionais ao seu serviço, a Danone em Portugal não permitiu – “por questões de política interna” – que um deles fosse entrevistado.
Contactado, o bastonário da Ordem dos Médicos, Pedro Nunes, diz, porém, nunca ter ouvido falar de delegados de informação alimentar. Embora admita que possam existir e contactar com médicos de família ou, então, com outros profissionais de saúde, como nutricionistas e dietistas, Pedro Nunes garante desconhecer “completamente” essas abordagens. “Por isso, não vou comentar”, disse.
Abordagem residual
Também o presidente da Associação Portuguesa de Direito do Consumo (APDC), Mário Frota, acredita que esta realidade não seja ainda tão expressiva em Portugal como noutros países: “Em Portugal, a haver uma tal abordagem, será, em nosso entender, ainda residual”, afirma, prevendo, porém, que, como a União Europeia (UE) está a aumentar a exigência das regras que permitem às empresas anunciarem benefícios para a saúde do consumidor, essas estratégias [de recorrer a delegados de informação alimentar] sejam cada vez mais adoptadas “declarada ou sub-repticiamente”.
A Danone garante, no entanto, que o recurso a delegados de informação alimentar não surgiu devido às novas regras da UE, sendo mesmo uma estratégia anterior. O objectivo é, esclarece, “partilhar os detalhes dos estudos científicos” que sustentam os benefícios dos produtos com profissionais de saúde. Trata-se de “linguagem científica muito específica” que “não é possível facultar em suportes publicitários”, acrescenta.
Aconselhar utentes
Ainda que algumas empresas não adoptem esta terminologia, um delegado de informação alimentar é, no fundo, um representante da marca que, tal como os delegados de informação médica, contacta com profissionais de saúde para lhes mostrar estudos e convencê-los dos benefícios daqueles produtos para a saúde. O objectivo é que os aconselhem aos utentes.
A empresa Unilever Jerónimo Martins (ULJM), por exemplo, diz não ter delegados de informação alimentar, mas antes “técnicos preparados para contactar e prestar esclarecimentos” a “consumidores, clientes, nutricionistas, profissionais de saúde”. No caso destes últimos, “a ULJM tem comunicado ao longo dos anos através de congressos e simpósios onde está presente para dar a conhecer as características e benefícios dos seus produtos. Esta presença é efectuada através de comunicações ou da distribuição de informação, como folhetos ou brochuras”, explicam por e-mail responsáveis da empresa.
Entre os congressos nos quais a ULJM esteve presente contam-se os da Associação Portuguesa dos Nutricionistas, Sociedade Portuguesa de Ciências da Nutrição e Alimentação (SPCNA), Sociedade Portuguesa de Cardiologia, Sociedade Portuguesa de Arterosclerose e Fundação Portuguesa de Cardiologia. Um dos produtos emblemáticos da empresa é, aliás, a gama Becel Pro.activ, que, garantem os responsáveis, tem “benefícios funcionais reconhecidos” pela Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos, contribuindo para “baixar o colesterol”.
Interesses multinacionais
Para Vítor Hugo Teixeira, nutricionista, professor da Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto e membro da direcção da SPCNA, é importante que o profissional de saúde se assegure de que a informação que os delegados transmitem “é verdadeira”. “Acho muito bem que existam delegados, podem ser importantes na divulgação dos estudos mais actuais, mas os profissionais de saúde têm de ter uma atitude crítica diante do que lhes é apresentado”, diz.
Também Mário Frota, da APDC, entende que o importante é que “os médicos observem o seu código deontológico, saibam da exactidão das propriedades dos alimentos, não ignorem os pareceres científicos de autoridades de reconhecida probidade e competência e não se limitem a ser o eco dos interesses das multinacionais”.
Fonte: Anil
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