Uma nova estirpe do vírus da gripe das aves – o H5N1 – vai aparecer e provocar uma epidemia à escala mundial. As autoridades de saúde internacionais não duvidam disso, só não sabem a data exacta em que vai ocorrer, mas dizem que é provável a partir de 2006. Portugal e Espanha preparam-se para o perigo.
A ameaça de uma epidemia em todo o mundo (pandemia) está a preocupar as autoridades de saúde. Graça Freitas, responsável pelo Departamento das Doenças Infecciosas da Direcção-Geral de Saúde (DGS), explica ao CM as razões do alerta.
“Uma nova mutação de um vírus é muito eficaz na sua transmissão, que é feita de uma forma rápida. O problema com o vírus da gripe das aves é que passou a barreira animal e infectou os humanos que tiveram contacto com esses animais”, disse.
VÍTIMAS MORTAIS
Este vírus surgiu em 1997 e, desde então, sofreu mutações. O pior é que a nova estirpe, mais agressiva, já fez vítimas entre pessoas que não tiveram qualquer contacto com as aves. As autoridades de saúde falam em casos pontuais: 18 vítimas mortais, desde 1997, todas elas viviam em vários países do Sudeste asiático.
O vírus está, por enquanto, localizado naquela região da Ásia, mas pode espalhar-se pelo resto do mundo de um momento para o outro – e é esse o grande perigo.
Graça Freitas lembra que houve três pandemias da gripe no século passado: em 1918 (em plena Primeira Grande Guerra), que fez milhões de vítimas e atingiu gravemente Portugal; em 1957; e em 1968.
“Houve três pandemias no século XX e neste também vai ocorrer e, por isso, os países estão a preparar-se e a tomar medidas para enfrentarem a epidemia”, disse Graça Freitas ao CM, sublinhando que este vírus da gripe das aves já se revelou perigoso e “não é como o vírus da gripe normal, o influenza”.
Perante a probabilidade da ameaça da pandemia da gripe, Portugal tem uma vantagem em relação aos restantes países. Segundo o presidente da Associação dos Médicos de Saúde Pública, Mário Jorge, “o nosso País está no extremo ocidental da Europa e só será atingido depois dos outros, possibilitando que entretanto a nova estirpe seja identificada e produzida uma nova vacina.” Mário Jorge defende que Portugal deve providenciar uma reserva estratégica de antivirais e deve haver uma remodelação da gestão hospitalar para evitar rupturas das urgências hospitalares”.
PAÍSES IBÉRICOS PREVINEM-SE
Portugal e Espanha juntam-se para preparar respostas de combate a esta ameaça e apresentam os respectivos Planos de Contingência para a Eventual Pandemia da Gripe alternadamente. Os espanhóis fazem-no em Madrid, na terça-feira, e Portugal, através da Direcção-Geral de Saúde (DGS) apresenta o plano dois dias depois (quinta-feira), em Coimbra, onde são aguardados cerca de duas centenas de especialistas.
Graça Freitas, da DGS, não quis pormenorizar ao CM as medidas que vão ser anunciadas neste encontro ibérico da saúde, apenas referiu que vão ser debatidos “o estado do vírus, as vacinas e os anti-retrovirais”.
A especialista em doenças infecciosas referiu que Portugal dispõe de um plano que está em vigor desde 1997, altura em que surgiu o surto do vírus da gripe das aves em Hong Kong, mas que foi alvo de remodelações, seguindo as orientações da Organização Mundial de Saúde (OMS). Os especialistas presentes são de diversas áreas, designadamente saúde pública, pneumologia e clínica geral.
“FRONTEIRAS SERÃO FECHADAS”
Luís Pisco, Ass. Médicos de Clínica Geral:
Correio da Manhã – Portugal deve estar preocupado perante esta ameaça?
Luís Pisco – É uma ameaça real, uma situação perigosa e, por isso, deve estar preparado para a enfrentar.
O País está preparado?
– Portugal não reage à parte dos restantes países e das autoridade de saúde mundiais. Existem mecanismos de alerta que serão cumpridos a nível internacional.
Quais são?
– Sei que uma das medidas de saúde a tomar é fechar as fronteiras para impedir a circulação das pessoas e a propagação do vírus.
E em que momento seria adequado tomar essa decisão?
– Logo aos primeiros sintomas. Não temos muitos meios para lidar com o problema e esperamos que não venha a acontecer.
BLOCO DE NOTAS
VACINAS
Não existe qualquer vacina que previna a infecção provocada pelo vírus da gripe das aves. A produção de uma vacina só é possível depois de a doença se é manifestar na pessoa. Os vírus têm uma capacidade muito grande para alterar a sua composição genética e antigénica. Os laboratórios farmacêuticos que produzem as vacinas da gripe do vírus influenza estão concentrados na Holanda e França e serão estas unidades que irão produzir a vacina contra o H5N1.
INDÚSTRIA ATENTA
A indústria farmacêutica está a modificar os padrões de fabrico e a criar uma metodologia que permita acelerar as linhas de produção assim que seja identificado o novo vírus, levando a uma corrida contra o tempo entre os novos casos de contágio e a produção da vacina.
VÍTIMAS ASIÁTICAS
O surto de gripe das aves atingiu até 2004 dez países asiáticos, mas só causou mortes humanas confirmadas no Vietname (onze) e na Tailândia (cinco).
REMODELAÇÃO
A probabilidade de Portugal ser afectado por este vírus da gripe leva o especialista em saúde pública Mário Jorge a defender uma remodelação das unidades de saúde que permitam ter uma capacidade de resposta. Diminuir os internamentos programados nos hospitais e dotar as Urgências com mais meios são algumas medidas.
Fonte: Correio da Manhã
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