Sector cervejeiro dá sinais de crise e afecta marcas nacionais

As vendas desceram 2,6 por cento e o preço das matérias-primas subiu em flecha. Após dois anos de intensa inovação, há produtos em risco

Tudo que sobe volta a cair. Neste caso, a queda tem como protagonista a indústria nacional de cervejas. No último ano, o volume de vendas desceu 2,6 por cento e o preço da cevada, principal matéria-prima, subiu 80 por cento. Resultado: expectativas falhadas, produtos suspendidos e reestruturações forçadas. Após dois anos a todo o gás, avizinha-se um período difícil para as cervejeiras.

A Unicer, dona da Super Bock e líder em Portugal, foi a que mais longe ficou das previsões para 2007. António Pires de Lima, presidente da empresa nortenha, tinha estimado um crescimento de dez por cento nas vendas e de 200 por cento nos lucros. Ficou-se por uma facturação de 475,2 milhões de euros, mais cinco por cento do que no ano anterior, e por um resultado líquido de 27,4 milhões de euros, apenas 124 por cento acima do registado em 2006.

Alberto da Ponte, administrador da Central de Cervejas, segunda posicionada, falhou por 1,2 por cento. Tinha previsto facturar 292 milhões de euros no ano passado, mas o volume de negócios da empresa que detém a marca Sagres ficou três milhões abaixo das expectativas.

As justificações dos gestores convergem num mesmo sentido: o Verão atípico. Pires de Lima definiu-o como “terrível” por ter sido “o menos quente dos últimos 20 anos e o mais chuvoso deste século”. E Alberto da Ponte responsabilizou-o por travar, em 15 por cento, as vendas, somando a esta variável “o decréscimo nos mercados externos”, já que, em termos nacionais, a empresa registou uma subida, em valor, de 9,2 por cento.

Os operadores mais pequenos, a Cereuro, empresa do grupo Sumol que produz a Tagus, e a Drink In, actual dona da cerveja Cintra, são, de acordo com dados Nielsen, os mais prejudicados. O primeiro desceu 6,7 por cento em volume, embora registe um crescimento de 7,4 por cento em valor. E o segundo obteve resultados negativos nos dois indicadores: menos 2,3 por cento por cento em volume e menos 15,2 por cento em valor.

Problemas e soluções
Há dois anos, era de crescimento e de inovação que se falava e não havia lugar para a palavra crise. Só em 2006, Unicer e Central de Cervejas lançaram nove produtos novos. 2007 foi um ano mais calmo, com um total de seis lançamentos. Os dados Nielsen de 2008 mostram, agora, que nem todos foram uma boa aposta.
É o caso da Sagres Chopp, produto com menos teor de álcool lançado em Fevereiro de 2006, com uma expectativa de 11 milhões de litros de vendas e de 2,4 por cento de quota de mercado. A sua produção foi travada em Maio de 2007, altura em que a quota se situava em 0,1 por cento. A Super Bock Tango, posta à venda pela Unicer em Março de 2006, também corre esse risco. Pires de Lima avançou ao PÚBLICO que “será descontinuada, se não tiver melhor performance”. Mas os exemplos não ficam por aqui (ver caixa “Produtos sob pressão”).

Apesar da quebra em volume, o mercado registou um crescimento de 1,7 por cento em valor, dado o aumento de preços efectuado pelos operadores, pressionados pelos custos com a aquisição de matérias-primas. Alberto da Ponte acredita que “ainda há espaço para subir”.

Além da actualização do preçário, os operadores têm nas exportações uma saída preciosa para a saturação do mercado nacional. Angola, país onde Unicer e Central de Cervejas querem instalar produção local, é a solução prioritária, mas as intenções já têm mais de dois anos e obrigam ao regime de parceria.

Por isso, as duas empresas têm apostado no emagrecimento de estruturas. Pires de Lima reduziu o número de colaboradores para um terço, eliminando custos fixos anuais de 10,3 milhões de euros, alienou o negócio da restauração e fechou uma fábrica em Loulé. Alberto da Ponte admite que “tem reduzido a força de trabalho temporário” e pretende rentabilizar a empresa ao transferir a produção da Água do Luso para a fábrica da Água do Cruzeiro.

Fonte: Público

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