Uma ida ao supemercado sai hoje mais barata que há um ano. Acredita? Decerto que não. Os dados do INE mostram que os preços caíram 1,6 por cento, em Outubro. É o oitavo mês seguido de quebra. Para confirmar estes valores, compramos precisamente o mesmo que em Maio de 2008. Poupámos 3,42 euros.
A frieza dos números tem, por vezes, a vantagem de relativizar as nossas sensações, fazendo-nos descer à terra. Quem mantém o seu emprego tem mais dinheiro disponível do que há um ano. É um dado irrefutável. Os preços estão a descer. Em Outubro de 2009, a taxa de inflação registou uma queda de 1,6 por cento, segundo os dados do INE.
Um dos sectores em que os preços mais têm caído é o alimentar. Olhando para os dados do INE, verifica-se uma descida de preços em praticamente todas as classes de produtos alimentares, desde as frutas até aos cereais, passando pelas carnes e pelos óleos alimentares. Em alguns casos, superiores a 10 por cento, como no peixe e nos produtos hortícolas.
O leite é um dos produtos que têm registado consecutivas quebras de preço, ao longo dos últimos meses. O consumo de leite mantém-se estável. No entanto, o leite e derivados estão cada vez mais baratos. Porquê? Pedro Pimentel, secretário-geral da ANIL, explica que hoje, é possível encontrar preços abaixo dos praticados em 1992. «Existe um conjunto enorme de razões para isso, mas a causa principal é a evolução da distribuição. Num bem essencial como este, muitos consumidores fazem a opção de compra baseada no preço e escolhem o produto mais barato, que, no caso da grande distribuição, é a marca branca. As outras são obrigadas a baixar as margens para se aproximarem desta concorrência», resume Pedro Pimentel.
E este exemplo assenta como uma luva no caso de um dos produtos que temos no nosso cabaz. Um litro de leite Mimosa custava, há ano e meio, 0,76 euros. Hoje, está a 0,49 euros, mais barato que… em 2001, ainda antes da entrada em vigor das notas e moedas de euro, quando ficava por 0,59 euros (ou, na época, 118 escudos).
Mas, se depois de todas estas explicações, o leitor continua céptico, mostramo-lhes os resultados de um estudo de mercado, divulgado esta semana, que confirma tudo quanto já dissemos. TNS Worldpanel é o nome do documento, no qual se conclui que os portugueses gastaram menos 3 por cento nas suas compras, nos primeiros oito meses do ano. Precisamente o mesmo período em que o INE registou variações negativas da taxa de inflação. E Paulo Caldeira, um dos responsáveis pelo estudo, explica que este valor tem em conta não só a redução dos preços como também as opções de compra, mais dirigidas para produtos mais baratos.
O mesmo trabalho mostra, também, que a crise provocou outras alterações nos hábitos de consumo. As compras são, agora, bem mais organizadas: os consumidores vão menos vezes às grandes superfícies – nos primeiros oito meses do ano, os centros comerciais registaram uma descida de 5,72 por cento das visitas -, gastam mais 4 por cento que no ano passado, mas trazem mais 6 por cento de volume de produtos. No entanto, diz Paulo Caldeira, «a percepção e o pessimismo do consumidor fazem que tenha a ideia de que os preços estão a aumentar».
Pedro Pimentel dá um exemplo para explicar este fenómeno. O leite é um dos produtos em que, podendo até perder dinheiro, as cadeias de distribuição estabelecem os «preços-isco» que servem de chamariz para atrair clientes. «Quando um hipermercado vende por 0,39 euros um litro de leite de marca branca e inunda os media de publicidade desse produto, o consumidor fica com a percepção de que esse é o preço justo de um litro de leite, achando que quem pede mais está a roubar», explica o secretário-geral da ANIL.
Fonte: Anil
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