Metade do peixe é destruído na lota

Todos os dias toneladas de peixe fresco descarregadas na lota têm de ser destruídas. Segundo apurou o Correio da Manhã junto de responsáveis da Docapesca (empresa responsável pela gestão da maior parte das lotas do País), cerca de 50 por cento do pescado descarregado em lota tem que ser destruído.

Os motivos que levam a essa destruição são os mais variados; desde a fraca qualidade do pescado, com peixes sem valor comercial, até à detecção pela inspecção sanitária de tumores, bactérias oportunistas e excesso de carga parasitária que fazem com que o pescado seja classificado como “sem condições para consumo humano”.

José Pedro Barreiros, professor da Universidade dos Açores e especialista em Biologia Marinha, afirmou ao CM que “a carga parasitária não é, em si, uma doença, mas pode enfraquecer o organismo do peixe”. Aquele especialista diz mesmo que “os parasitas que se encontram em grande número nos peixes marinhos costumam morrer quando o animal é retirado da água salgada”.

A Inspecção Higio-Sanitária (que possui cerca de 50 veterinários em permanência junto das lotas) selecciona o pescado sem condições para consumo humano, que passa a ser classificado como subproduto e é destruído através do processo de incineração.

No caso de Matosinhos, por exemplo, e em virtude da sua grande dimensão, a armazenagem do peixe rejeitado é feita em contentores refrigerados, sendo a sua recolha diária. O contrato para escoamento dos subprodutos de pescado faz parte de um outro mais abrangente, celebrado com uma empresa que se dedica à recolha de todos os tipos de resíduos, que os entrega, para reciclagem, a outras empresas de cada uma das especialidades. No caso dos subprodutos de pescado, estes são entregues a uma empresa que procede à sua farinação e incineração.

No caso dos restantes portos concessionados pela Docapesca, existem contentores frigoríficos que funcionam a uma temperatura de 18 graus centígrados negativos, nos quais se procede à armazenagem dos subprodutos.

A armazenagem a uma temperatura que permite manter os subprodutos congelados justifica-se porque, sendo a quantidade produzida diariamente pequena, a sua recolha ocorre semanalmente ou quando se justificar.

Para os portos de mais pequenas dimensões foram adquiridas arcas frigoríficas para armazenar os subprodutos.

RISCO MAIOR NO TAMBORIL E NO SARGO

Os peixes que se movem menos são os mais atreitos a grandes cargas parasitárias, adiantou ao CM José Pedro Barreiros. O professor na Universidade dos Açores apontou como exemplo o tamboril, como uma das espécies de peixes que tem mais cargas parasitárias.

Também o sargo pode apresentar vários parasitas, que produzem um branqueamento das escamas e contribuem para a falta de qualidade da carne. Outro dos sinais de problemas nos peixes, embora sem consequências para a saúde pública, é a chamada “opacidade do globo ocular”, que pode significar uma falta de qualidade da carne, em virtude do estado de debilidade do animal.

“Quem compra para venda ou revenda faz logo uma primeira triagem da qualidade do pescado”, refere João Pedro Barreiros.

MAIS CONTROLO SANITÁRIO

Uma inspecção realizada pela Comissão Europeia em 2006 concluiu que não existem garantias de que o peixe fresco que entra em Portugal seja controlado ao nível sanitário. Os responsáveis da União Europeia analisaram 11 portos de desembarque de peixe fresco.

Este documento mereceu uma violenta reacção do Ministério da Agricultura que contestou as suas conclusões e prometeu reforçar a vigilância em portos e entrepostos comerciais e aduaneiros e elaborar um novo manual de procedimentos.

DADOS RELATIVOS À INSPECÇÃO HIGIO-SANITÁRIA EM ALGUMAS LOTAS

Lotas / Inspectores sanitários / Auxiliares de inspecção sanitária / Peixe rejeitado em 2005 (em kg) / Peixe rejeitado em 2006 (em kg)

Viana do Castelo / 2 / 2 / 274 / 633

Póvoa do Varzim / 2 / 1 / 402 / 662

Matosinhos / 4 / 4 5.156 / 4.608

Aveiro / 3 / 4 / 2.707 / 1.794

Figueira da Foz / 3 / 3 / 4.410 / 4.001

Lagos / 1 / 1 / 73 / 200

Portimão / 3 / 3 / 1.692 / 686

Olhão / 3 / 2 / 5.987 / 1.204

TOTAL / 21 / 20 / 20.015 / 13.588

25 MILHÕES DE EUROS EM 2 MESES

O valor do pescado descarregado nas principais lotas portuguesas totalizou 25,5 milhões de euros de Janeiro a Fevereiro de 2007. Foram 12,4 milhões de toneladas de pescado descarregadas nas 19 lotas geridas pela Docapesca.

PREÇO DO PESCADO NAS PRINCIPAIS LOTAS DO PÁIS (EUROS POR QUILO)

Viana do Castelo / Póvoa de Varzim / Matosinhos / Aveiro / Figueira da Foz / Peniche / Sesimbra / Portimão

Carapau / 2,74 / 0,91 / 0,65 / 1,54 / 1,72 / 0,96 / 1,04 / 0,87

Goraz / 6,15 / 11,92 / 7,51 / 11,40 / 4,40 / 9,96 / 10,63 / 9,16

Polvo / 4,48 / 3,96 / 4,70 / 4,33 / 4,56 / 4,80 / 5,26 / 4,79

Tamboril / 6,62 / 5,66 / 5,84 / 5,22 / 6,21 / 7,65 / 9,38 / –

Besugo / 6,42 / 3,34 / 4,17 / 4,41 / 3,98 / 4,75 / 5,45 / 5,05

Dourada / – / – / 12,95 / 11,34 / 10,43 / 16,72 / 10,85 / 6,10

Fonte: Correio da Manhã

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