Mau tempo de Abril destruiu 80% da cereja transmontana

“Este ano, nem cereja há para os bichinhos”. A ironia de Manuel Carneiro, 73 anos, produtor de Sambade, Alfândega da Fé, espelha o desespero de quem tem pela frente um péssimo ano de colheita a produção de cereja no concelho que mais produz em Trás-os-Montes vai ter uma quebra de 80%. A culpa atribui-se às más condições climatéricas verificadas na fase da floração, no início de Abril, que não permitiram que o fruto vingasse.

“Para a prova sempre dará”, torna Manuel Carneiro, enquanto procura por entre as folhas de uma cerejeira os poucos “bagos” que conseguiram vingar. Teresa Morais, outra produtora local, já está a contar com “um ano miserável”. Lembra a grande expectativa que criou quando começou a ver as cerejeiras carregadas de flores e a tristeza quando começaram a cair. “Acho que foi uma geada que deitou tudo a perder”, queixa-se.

E tanto deitou a perder que há produtores que ponderam deixar ficar na árvore as cerejas que sobram. “É que nem dá para a apanha”, explica José Januário, um dos maiores produtores do concelho, apresentando números Um homem ganha 35 euros por dia; a mulher 30. “Depois, há que transportar a cereja e vendê-la. Feitas as contas, pouco compensa”.

À memória assomam-lhe os tempos em que a mão-de-obra custava 15 euros por dia e o quilo da cereja era vendido a 2,5 euros. Hoje, quando a despacha a dois euros “já é um bom preço”, pois normalmente até ronda só 1,5 euros. Pior que isso é quando vende o fruto para a indústria através da cooperativa agrícola local. “Pagaram-me há dias a colheita do ano passado 40 cêntimos o quilo”. Se tivesse sabido o preço antes “não a apanhava”.

Januário realça este cenário porque a sua produção vai baixar, este ano, das habituais cinco toneladas para “uns 500 quilos”. O que lhe vale é que cultiva amêndoa, azeite, castanha e batata, caso contrário “bem morria à fome”. Manuel Carneiro até dá graças por não ter de viver da cereja. “Mesmo assim, é uma perda grande e abala as contas do agricultor”, acrescenta Carolino Pimentel. E também é mau para quem anda à jorna, que deixa de ter onde ganhar algum dinheiro.

Quem se tenta governar com a cereja é a cooperativa agrícola de Alfândega da Fé. Mas não vai ser o caso este ano. “Estávamos a contar com 100 toneladas, mas devemos ficar pelas 20, na melhor das hipóteses”, lamenta João Vítor, director da instituição que mais cereja produz no concelho.

A cooperativa não fez seguro de colheita, pelo que a alternativa é assumir os prejuízos. João Vítor justifica a falta de seguro com o alto preço dos prémios a pagar. “Não compensa fazê-los”, sustenta, embora admita que este ano, em particular, “até teria sido benéfico subscrevê-lo”.

À baixa produção corresponde a “menor dificuldade para a vender”. Talvez haja até problemas para atender todos os compromissos. Só na Feira da Cereja e Produtos Biológicos, que se realiza em Alfândega, em Junho, a cooperativa costuma vender oito ou nove toneladas. O que quer dizer que pouco fruto lhe sobra.

O cenário poderá alterar-se dentro de três a quatro anos, quando os cerejais reconvertidos começarem a produzir em pleno. João Vítor estima que a produção em anos normais possa aumentar para 200 toneladas.

Entretanto, a Câmara Municipal de Alfândega já prometeu que, mesmo que a cooperativa não tenha cereja suficiente para a vender na feira, outros produtores serão contactados para que o fruto não esgote.

Grande colheita em Resende

Enquanto que, em Alfândega da Fé, se fazem contas à vida, em Resende, zona do Douro Sul de forte produção, não falta cereja. É o que assegura o presidente do Município, António Borges, que promete para o início de Junho uma feira forte onde não vai faltar o fruto.

António Borges admite que as primeiras colheitas se “ressentiram das variações climáticas”, mas sustenta que ainda é cedo para avaliar prejuízos, até porque neste concelho colhem-se 2,5 a três mil toneladas por ano, com campanhas que vão desde o final de Abril até meados de Julho.

Fonte: Jornal de Notícias

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