Matemática troca as volta aos vírus e às bactérias

A ciência pode ajudar a prever os caminhos de uma epidemia e mesmo a progressão de uma pandemia a partir de um ponto do globo. Os passos para andar sempre à frente dos vírus podem ser decisivos no desfecho do seucombate e tornam-se mais importantes com a ameaça de uma pandemia de gripe a bater-nos à porta. Uma equipa portuguesa de pesquisa dedica-se a isso.

A matemática, aliada à informática, pode ajudar a fazer a prevenção e o combate a doenças infecciosas. O grupo de Epidemiologia Teórica do Instituto Gulbenkian de Ciências simula a propagação de vírus e outros agentes capazes de desencadearem epidemias e mesmo pandemias. Os seus cálculos podem indicar o percurso geográfico de um vírus e o tempo que ele demorará a contagiar esta ou aquela população .

O departamento está particularmente vocacionado para estudar doenças em que há reinfecções. Por exemplo, a tuberculose, a malária e a gripe. O que há de comum entre elas é o facto de a pessoa não ficar imunizada, apesar de a contrair, ao contrário do que acontece quando se tem sarampo.

Segundo a matemática Gabriela Gomes, coordenadora deste grupo do Instituto Gulbenkian de Ciência, em Oeiras, para se fazer uma simulação da transmissão de doenças infecciosas tem de se conhecer as taxas de transmissão entre indivíduos, os padrões de contacto e a forma como um indivíduo susceptível à infecção vai lidar com esta. São tidos, portanto, em conta factores sociais, ambientais e biológicos.

A doença no terreno

É com essas variáveis que, recorrendo também a modelos matemáticos, se pode mapear o comportamento da doença no terreno. Este também pode ter características distintas por exemplo a vacina BCG (contra a tuberculose) atinge uma eficácia de 80% em algumas zonas e não tem nenhuma noutras. “A aplicação da vacinação deve ser adaptada ao contexto epidemiológico da região”, afirma Gabriela Gomes, que está agora a coordenar no IGC um trabalho sobre tuberculose,em colaboração com um grupo da Organização Mundial de Saúde (OMS). “Está em causa a eficácia dos programas de vacinação ou outras estratégias de controlo”, sublinha a mesma investigadora.

Presentemente, este grupo de pesquisa colabora também com a Direcção Geral de Saúde num estudo sobre a tuberculose em Portugal. Um outro trabalho, a começar em Novembro, dedicar-se-á à forma como a gripe se propaga entre nós. Será uma espécie de sistema de vigilância experimental, que recorrerá à internet e à colaboração da população. “Se tivermos uma pandemia de um novo sub-tipo de gripe, é necessário estarmos na posse de vários cenários de impacto”, afirma Gabriela Gomes, lembrando que o vírus da gripe evolui muito rapidamente e que quantos mais casos de gripe houver na população mais rápidamente se dão as mutações. É que o vírus “é obrigado” a mudar para voltar a infectar-nos. “E a estratégia dele é sempre infectar pessoas susceptíveis”, precisa a investigadora.

Um caso semelhante ocorre com outras doenças infecciosas, causadas por bactérias, como as pneumonias e as meningites. O grupo dedica algum do seu trabalho também a este campo. O interesse está nas muitas variações assumidas por este tipo de bactérias para cujas estirpes nem sempre existe vacina.

Futura pandemia de gripe com cenário em estudo

Quarentena+antivirais+máscaras cirúrgicas este pode vir a ser o cenário de defesa no caso de emergência de uma nova pandemia de gripe. Esta ocorrerá quando um vírus do Influenza-A (proveniente das aves) infecta a população humana pela primeira vez. “Temos então uma população ainda sem defesas”, diz Gabriela Gomes, “e podemos simular essa situação de contágio e a estratégia de controlo”.

Tudo depende do impacto calculado do vírus e sua circulação pelo mundo. O grupo de Epidemiologia Teórica do IGC, que está a colaborar neste campo com uma fundação brasileira começou agora a desenvolver modelos matemáticos e computacionais para esta doença contagiosa. Gabriela Gomes afirma que há muitos factores a ter em conta. Por exemplo, se se quiser determinar a hipotética evolução de uma gripe em Portugal deverá saber-se por que ponto do território ela entrou é que se tiver começado num grande núcleo populacional, a propagação será muito mais rápida do que se o foco partir de uma pequena localidade.

Fonte: JN

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