Douro recebeu as grandes regiões mundiais do vinho

O futuro das Denominações Históricas no panorama vitivinícola mundial esteve em debate no Congresso Internacional sobre “As Denominações de Origem Históricas no Panorama Vitivinícola Mundial” organizado pelo Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto (IVDP) em colaboração com o Grupo de Estudos da História da Viticultura Duriense. O evento foi composto por diversas sessões temáticas, contando com a presença de investigadores, profissionais e representantes de instituições reguladoras e de promoção das principais regiões vitícolas históricas.

No Solar do Vinho do Porto, ao longo de dois dias, estiveram presentes diversas individualidades, designadamente os representantes das regiões do Jerez, Bordéus e Champagne, bem como o Director Comercial para a Europa da Palandri Wines (Austrália), o Presidente da Jacques & François Lurton e o Director do Comité Nacional das Interprofissões Vitícolas francesas, entre outros.

A organização económica da produção – que modelo associativo gerador de valor, foi a temática que pautou a discussão do primeiro dia de debate. Entre os intervenientes deste painel, Jorge Dias (IVDP), José Manuel dos Santos (UNIDOURO), António Castanho (Crédito Agrícola Consult), Ricardo Pires (Crédito Agrícola Consult), Joaquim Morais Vaz (AVEPOD) e Cristiano Van Zeller (Douro Boys). A moderação esteve sob a responsabilidade de Jorge Almeida, do IVDP.

De reter, nesta discussão, nas informações apresentadas por Jorge Almeida, a actual contextualização da Região Demarcada do Douro: uma região marcada pela diversidade e complexidade da sua estrutura fundiária, com 45000 hectares de vinha, onde 88% dos viticultores têm menos de 2 hectares, 10% têm entre 2 e 8 hectares e apenas 810 proprietários possuem mais de 8 hectares de vinha cultivada. Uma região onde a denominação Porto continua a ser o suporte económico das explorações, mas que tem vindo a sofrer degradação de preços e de valor, devido aos aumentos de área beneficiável e a quantitativos de atribuição de benefício acima das necessidades do mercado. Uma Denominação Douro em expansão, e um Vinho de Mesa, a produzir anualmente excedentes de algumas dezenas de milhares de pipas.

Significativa a diferença de valor, por litro, nos vinhos produzidos nesta região. Porto, Douro, Regional Duriense, respectivamente, 4,32 euros; 3,31 euros; 0,91 euros. Se a isto acrescentarmos o facto de poderem ser excedentários 25% dos vinhos que este ano se produziram, e tendo em conta que os custos de produção rondam os 500 euros por pipa, ficaremos com uma ideia aproximada dos problemas que a região atravessa, sobretudo no caso dos agentes produtivos e comerciais onde o IG Duriense e os excedentes de mesa têm mais peso, como é o caso das Adegas Cooperativas.

O associativismo cooperativo terá que reagir. Sujeito a uma forte pressão dos mercados e às fragilidades da sua organização social, terá que assumir uma evolução organizacional, marcada por cultura empresarial e gestão profissional.

Muito em breve, o próprio mercado seleccionará e dará continuidade a muitas destas organizações, se reestruturadas. Outras poderão acabar por desaparecer, se persistirem na manutenção de modelos de organização ultrapassados, relativamente aos quais nenhum apoio que promova uma sustentabilidade artificial pode vir a ser possível.

Bem referenciada neste painel foi a experiência individual e associada de produtores-engarrafadores independentes, organizada na AVEPOD, nos Lavradores de Feitoria e na Douro Boys. A matriz comum a esta área de negócio tem a ver com os nichos de mercado e com vinhos de qualidade alta e de topo, comercializados a preços médios-altos e altos. A ideia sublinhada por vários oradores, foi a de que existe ainda uma margem significativa de crescimento neste segmento, e que a replicação na região das experiências mais bem sucedidas, para além de constituir uma boa contribuição para a criação de valor na região, dará sustentabilidade económica a muitas explorações agrícolas, actualmente em perda contínua de rendimento.

A diversidade e a individualidade do vitivinicultor duriense são marcas da tipicidade da região, face às quais os modelos de organização associativa não podem deixar de respeitar.

Mas se na gama da qualidade e excelência, as quantidades produzidas não são uma exigência para o sucesso nos mercados, já os vinhos de gama media baixa e baixa, onde, de ano para ano, se vão acumulando excedentes, o panorama é bem diferente, e exigem um modelo de comercialização em escala.

Mas o paradigma dos vinhos do Douro é a qualidade, é a excelência.

«Não podemos competir pelo preço. Temos custos de produção muito mais elevados.

Na competição, em escala, não estamos posicionados para fazer os melhores negócios.

Um associativismo dirigido ao negócio de nicho foi reafirmado como a melhor saída para muitos vitivinicultores para a criação de valor», diz Jorge Almeida.

Este segmento tem ainda uma significativa margem de expansão.

Como sobreviver no mercado mundial foi outro dos assuntos que esteve na mesa do congresso. A moderação da responsabilidade de George Sandeman (Vice-Presidente do Conselho Interprofissional IVDP) para um painel internacional: Rupert Bull – Director Comercial para a Europa da Palandri Wines (Austrália); François Lurton – Presidente da Jacques & François Lurton ; Jorge Pascual – Presidente do Conselho Regulador de Jerez; Roland Feredj – Director-geral do Comité Interprofissional dos Vinhos de Bordéus.

George Sandeman apresentou seis passos para assegurar a sustentação do negócio no mercado mundial: produzir o que se vende (Escutar o consumidor, Consistência na qualidade, Factor “Sabor”); rotulagem clara e facilmente compreendida pelo consumidor; educação do consumidor (Marketing baseado no carácter único do “terroir”, da tipicidade e do estilo do vinho); vender com confiança (Orgulho no que vendemos, Acreditar no produto); ganhar dinheiro e trabalhar em equipa.

No segundo dia do congresso, a reforma da OCM e os acordos bilaterais, chamaram ao debate moderado por Jorge Monteiro, Presidente do Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto, Alexandra Catalão (Comissão Europeia – Direcção Geral da Agricultura), António Fernandez-Matos (Comissão Europeia – Direcção Geral do Comércio), Jérôme Agostini (Centro Nacional das Interprofissões Vitícolas Francesas), Charles Goemaere (Jurista do Comité Interprofissional dos Vinhos de Champagne), Jorge Pascual (Presidente do Conselho Regulador de Jerez), Roland Feredj (Director-geral do Comité Interprofissional dos Vinhos de Bordéus) e Alberto Ribeiro de Almeida (Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto).

As conclusões deste painel dividem-se em duas:

a) A reforma da Organização Comum do Mercado Vitivinícola (OCM).

Obteve-se um quadro rigoroso da situação actual do comércio europeu e mundial dos vinhos, bem como da proposta da Comissão Europeia. A agressividade comercial do “Novo Mundo” e a liberalização do mercado foi especialmente salientado.

No plano do potencial de produção defendeu-se a manutenção do regime dos direitos de plantação e no que respeita aos mecanismos de mercado defendeu-se a manutenção dos apoios ao álcool de boca pelos efeitos positivos que pode ter na protecção do ambiente

No que concerne às organizações interprofissionais salientou-se a necessidade de incrementar o seu papel e os mecanismos de regulação da oferta e da procura (uma regulação colectiva através de autoridades regionais) de modo a assegurar a estabilidade do mercado.

A qualidade e a identidade dos vinhos com denominação de origem deve ser preservada através de mecanismos de controlo e de protecção de modo a garantir a sua competitividade.

A disciplina do sector vitivinícola não pode ser desenquadrada dos objectivos do desenvolvimento rural e da protecção do meio ambiente constantes da Política Agrícola Comum.

No que respeita à tutela das denominações de origem e das indicações geográficas foi consensual a necessidade da futura OCM se preocupar, em especial, em proteger o prestígio e a grande reputação de que gozam alguns daqueles direitos de propriedade industrial.

A proposta da Comissão Europeia – tal como agora apresentada – demonstrando um pendor liberalista, esvazia o sentido de alguns acordos bilaterais (nomeadamente com os EUA) na medida em que já efectua as concessões que deveriam ser negociadas na segunda fase daquele acordo bilateral.

b) Os acordos bilaterais.

Os acordos bilaterais relativos ao comércio de vinho têm incluído disposições sobre a protecção das denominações de origem e indicações geográficas. Estamos perante um instrumento essencial para colmatar as insuficiências dos acordos multilaterais, como sejam a Convenção da União de Paris, o acordo de Lisboa de 1958 sobre a protecção das denominações de origem e o seu registo internacional, o acordo de Madrid de 1891 sobre a repressão das falsas e falaciosas indicações de proveniência e o acordo TRIPs concluído no quadro da Organização Mundial do Comércio (OMC). Sublinhou-se, em especial, as vantagens e as insuficiências deste acordo TRIPs na protecção das indicações geográficas, bem como a necessidade de ser estabelecido um registo multilateral no âmbito da OMC. No plano do direito comunitário – e no que respeita às denominações de origem vinícolas – acentuou-se a necessidade de uma protecção eficaz no domínio da reforma da OCM. Por fim, centrou-se a análise no acordo bilateral concluído recentemente entre a União Europeia e os EUA sobre o comércio de vinho e em que as denominações de origem europeias não obtiveram a protecção merecida. Este acordo tem sido objecto de diversas críticas e não pode servir de modelo para o futuro.

Fonte: Agroportal

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