DOURO Espanhóis já controlam 5%

Os estrangeiros controlam, neste momento, 20% da produção própria da Região Demarcada do Douro – referência avançada ao JN pelo Instituto dos Vinhos do Douro e Porto (IVDP). Trata-se de um movimento que tem vindo a crescer ao longo dos últimos 10-15 anos, com destaque para os espanhóis, que já representam 5% da produção (7500 pipas/ano), com tendência para aumentar, devido ao investimento que estão a fazer, sobretudo na restruturação da vinha para vinhos de mesa.

Na actualidade, a produção no Douro é dominada por três grupos Sogrape (capital português), Symington (inglês e português) e Gran Cruz (franceses), não havendo entre os estrangeiros o predomínio de nenhuma nacionalidade.

Uma das provas mais fortes do interesse dos nossos vizinhos pelo Douro ficou patente quando, ainda há semanas, a Burmester e a Gilbert’s foram compradas pelos espanhóis da Caixa Nova ao grupo Amorim. Essas empresas juntam-se, assim, à Calém e à Quinta de Ventozelo como exemplos da mudança de titularidade a favor de “nuestros hermanos”.

As quintas de S. Cibrão e Arnozelo, no Douro Superior, também foram adquiridas por empresas espanholas, e sabe-se que a Caixa Nova continua a sondar novos investimentos.

Jorge Monteiro, presidente do IVDP, desdramatiza “O Douro sempre foi uma região internacionalizada devido ao vinho do Porto”. Recorda que, historicamente, quando os ingleses chegaram ao Porto, eram compradores e vendedores de vinho, e só mais tarde começaram a investir em quintas e propriedades. Vê o interesse dos espanhóis como a continuação de uma tradição: “O que está a mudar é a nacionalidade dos investidores. Agora são os espanhóis”.

O presidente do IVDP defende que se os estrangeiros investem na região é porque “acreditam nas suas várias valências”. E questiona qual o Douro que tem futuro o da micropropriedade, dos pequenos e médios lavradores, ou o Douro das grandes quintas e dos grandes investidores, que não só apostam no vinho como no turismo?

Conclui que, no quadro global de uma Europa em desenvolvimento, o Douro tende a ser uma região cada vez mais internacionalizada. Mas sublinha “O importante é que estes investidores não sejam meros adquirentes da propriedade e não retirarem o que de melhor tem o Douro para se irem embora”.

Jorge Monteiro reconhece que “pode haver alguma perda de identidade”, embora entenda que possa ser compensada com um ganho assente numa grande capacidade empreendedora dos estrangeiros.

“O Douro tem carências de empreendedores. Neste cenário, em breve, o Douro terá menos viticultores de subsistência, ou seja, menos pequenos lavradores tradicionais, singrando, por outro lado, os vitivinicultores de índole empresarial”, antevê.

Face ao investimento espanhol crescente, há agentes no Douro que procuram organizar-se por si, mantendo a produção própria e as suas vinhas. É o caso de certos produtores-engarrafadores (ver página ao lado).

Alertas

Mas nem todos encaram com serenidade a “invasão” espanhola, que até é vista com acentuada preocupação, nomeadamente, pelo presidente da Associação dos Viticultores Engarrafadores dos Vinhos do Porto e Douro (Avepod), Luís Roseira. “Vejo com muito receio esta situação. Lamento que o IVDP não tivesse dito rigorosamente nada sobre a matéria que está a transformar o nosso Douro num autêntico Duero. Estamos em risco de a marca Douro passar para os espanhóis”, adverte.

O decano dos dirigentes durienses considera que “é tanto mais grave quando se sabe que a criação de uma empresa comercial espanhola, depois de ter comprado a Calém e a Burmester, constitui a maior asfixia da região do Douro”, pois “o sector está a ser dominado por este grupo”. Luís Roseira faz comparações históricas e defende “Esta invasão espanhola é a segunda depois dos Filipes, e com exército, que tem por objectivo dominar uma região tão importante como a nossa”.

Fonte: JN

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