Crise alimentar: Especialistas defendem política europeia de stocks para segurança

A recente crise mundial de subida dos preços dos alimentos evidenciou ser necessário que a União Europeia (UE) tenha uma política de stocks para poder enfrentar um novo aumento dos preços dos cereais, afirmaram hoje especialistas reunidos em Lisboa.

“O aumento dos preços das matérias-primas [trigo, milho, centeio e arroz], que registaram máximos históricos nos primeiros meses de 2008, provou que a UE deve ter uma política agrícola de stocks para segurança alimentar, que permita atenuar um novo ciclo de alta de preços destes bens agrícolas”, disse o antigo ministro da Agricultura, Armando Sevinate Pinto.

Por outro lado, o director para a área Internacional do grupo Nestlé, Herbert Oberhaensli, defendeu ser urgente ter “uma visão global” da crise alimentar, para que possa ser “entendida e enfrentada” de novo pelo mundo.

Herbert Oberhaensli, que como Sevinate Pinto também falava na conferência “A Crise Mundial dos Alimentos”, organizada pela Associação Comercial de Lisboa, insistiu ainda na ideia de que a recente crise alimentar no mundo deve actualmente ser analisada numa perspectiva de longo prazo, onde a questão da escassez de água se vai colocar num futuro próximo.

“Um terço da população mundial [que trabalha na agricultura] será afectada pela carência de água já em 20025”, calculou Herbert Oberhaensli.

A generalidade dos especialistas admitiu que a crise alimentar resultou da rigidez da oferta e do aumento da procura de cereais, nomeadamente devido ao aumento do consumo da China e Índia, manifestando-se de acordo quanto à quebra da produtividade agrícola.

Sevinate Pinto não descartou os factores climatéricos como um dos factores na origem da recente crise alimentar, forçada igualmente pela redução das colheitas cerealíferas nos principais países produtores mundiais.

“As perturbações de preços das matérias agrícolas sempre existiram e por razões climáticas e rigidez da procura”, defendeu Sevinate Pinto, coordenador da AGROGES, empresa de consultoria do sector agrícola.

Para este agrónomo, a subida dos preços “é uma evidência. Fala-se muito nisso, mas esquece-se a questão dos custos que estão a afectar os agricultores, como nunca”.

“É impressionante. Os adubos continuaram a subir 50 por cento, bem como os combustíveis, mais de 70 por cento, enquanto os preços dos cereais no mercado internacional estão agora a descer”, salientou.

Sevinate Pinto destacou que verdadeiramente novo “é a mundialização e integração” do sistema agro-alimentar no comércio global e nas suas organizações internacionais, o que veio trazer novos problemas e grandes mudanças.

“A agricultura requer estabilidade e os preços na produção são incompatíveis com as cotações das matérias-primas atingidas nos mercados internacionais, prejudicando e acabando com produtores agrícolas”, salientou.

Actualmente há 850 milhões de pessoas com fome no mundo – metade agricultores – e a crise alimentar acrescentou mais 80 milhões, o que “é impensável no século XXI”, lamentou.

“Mais de 100 milhões de pessoas voltaram à linha da pobreza extrema, vivendo com um dólar por dia”, salientou.

Os especialistas manifestaram-se preocupados com a especulação nos mercados internacionais, e disseram que os países menos desenvolvidos, mas com maior área de solo arável e água, caso do Brasil, e de alguns em África tornaram-se mais proteccionista no que respeita à produção de bens agrícolas, sobretudo cereais.

Consideraram também que os Estados Unidos, ao permitirem produzir grandes quantidades de milho para produção de etanol, acentuaram a crise alimentar, sobretudo nos países mais pobres.

Por sua vez, Pedro Sampaio Nunes, um dos responsáveis da GeenCyber, consultora do sector energético, considerou que a agricultura no mundo e o seu crescimento não são incompatíveis com a produção de biocombustíveis, afirmando que a soja, rica em proteínas, poderá simultaneamente ser consumida pelas populações.

“A controvérsia entre alimentação e biocombustíveis não faz sentido”, esclareceu.

Segundo o antigo secretário de Estado da Inovação, já foi atingido o patamar a partir do qual não é possível produzir mais petróleo barato.

“Daí que sejam competitivos os biocombustíveis como fonte energética alternativa ao petróleo. Há ainda terra arável suficiente no mundo para produzir, nomeadamente soja e cana-de-açúcar e os agricultores podem beneficiar com isso”, sublinhou.

Fonte: Agroportal

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