Portugal continua a desperdiçar recursos hídricos como nenhum outro país da Europa o faz, afirma o antigo eurodeputado socialista António Campos no livro “Agricultura, Alimentação e Saúde”, a lançar em breve pela editora Âncora.
Especialista em questões agrícolas e depois de dez anos de experiência como deputado no Parlamento Europeu de Estrasburgo, António Campos adverte para o agravamento de carências de água nalgumas zonas do país, se não forem tomadas medidas.
Focando o caso específico do Alentejo e Algarve, o antigo eurodeputado considera “uma irresponsabilidade política o fomento dos campos de golfe ” naquelas regiões, onde a água vai assumir uma importância decisiva.
O antigo eurodeputado socialista chama a atenção para o avanço da desertificação no sul do país, agravada pelos incêndios e pela erosão das terras arrastadas pelas chuvas.
“Em Portugal, o problema da gestão dos recursos hídricos reveste contornos escandalosos porque os cursos de água não têm nenhum tipo de manutenção, de cuidados de defesa e de ordenamento nas suas margens e a política florestal nacional é um atentado contra a água”, sustenta.
Para além de defender legislação penalizadora para os grandes gastadores de água, Campos apela ao tratamento e reaproveitamento das águas dos esgotos urbanos para a rega, reportando-se aos vários países da Europa onde se usa tal procedimento, nomeadamente nos jardins de muitas cidades, “irrigados com estas águas que voltam a ter qualidade adequada depois de tratadas”.
Agrónomo de formação, Campos acredita que “a prazo o homem seja capaz de transformar a baixo preço, a água do mar em água potável”, devendo até lá imperar a gestão sustentada deste recurso natural”.
Num outro capítulo dedicado ao “modelo alimentar dos países desenvolvidos”, o autor destaca que nesses países as “pessoas só consomem directamente 30 por cento dos cereais produzidos, destinando- se os restantes 70 por cento ao fabrico de rações para fomentar a produção intensiva de carne e leite.
Campos insurge-se contra o modelo de agricultura vigente nos países desenvolvidos, que “só promove a alimentação dos animais à base de rações”, reportando-se ao meio rural “cada vez mais abandonado” e à “matéria verde, cada vez mais destinada a ser destruída pelo fogo, quando podia ser usada na alimentação dos herbívoros, principalmente vacas, cabras e ovelhas.
“Em vez disso, o modelo vigente promove que os animais sejam alimentados a rações”, comenta, reportando-se também à fruta e às hortícolas que “nunca fizeram parte das preocupações da Política Agrícola Comum, apesar de serem alimentos básicos na dieta alimentar”, alimentos esses, “grandes fomentadores de emprego agrícola, em que a União é deficitária”.
António Campos critica também as grandes empresas do sector agro-alimentar, que “promoveram um desenvolvimento fantástico da cadeia alimentar e a concentração da comercialização em multinacionais poderosíssimas”, efectuando uma “integração vertical dos sector, principalmente nas grandes produções objecto do comércio a longa distância”, designadamente cereais, carne, oleaginosas, café, bananas e chá.
Dessas multinacionais o autor apresenta um gráfico das maiores dez multinacionais do ramo agro-alimentar com as vendas anuais, lideradas pela Cargill (EUA) com 55 mil milhões de euros, seguida da Nestlé (Suíça) e da Kraft (EUA), ambas com 42 mil milhões, da Unilever (Holanda/Reino Unido) com 32 mil milhões; depois, as norte- americanas Con Agra e a Pepsico, ambas com 30 mil milhões de euros de facturação anual.
António Campos é engenheiro técnico agrário e foi membro de vários governos do Partido Socialista, como secretário de Estado do Fomento Agrário, secretário de Estado da Estruturação Agrária e secretário de Estado Adjunto do primeiro-ministro.
O livro, que será lançado terça-feira, tem um prefácio de Mário Soares e a participação de Rui Azevedo, agrónomo e funcionário da Comissão Europeia, que ao longo de vários capítulos questiona em tom de conversa António Campos.
Fonte: Lusa
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