Cabras de raça serrana estão a ser alvo de experiência num centro no limite dos concelhos de Viseu e Vila Nova de Paiva, com o objectivo de produzirem o máximo de leite ao mais baixo custo.
No Centro Experimental de Caprinicultura, em Vale de Cavalos, vivem actualmente 70 animais (três dos quais machos) – da raça serrana, do tipo “Jarmelista” -, que a partir de hoje têm um novo capril onde ficarão instalados quando não estão a pastar.
“Procuramos transmitir conhecimentos aos produtores de modo a que cada animal seja uma fabricazinha o mais eficiente possível. Para isso, temos de trabalhar no melhoramente genético, na raça e estudo da descendência e na sanidade animal”, explicou à agência Lusa Carlos Alarcão, técnico da Direcção Regional de Agricultura da Beira Litoral (DRABL).
O centro começou a funcionar em 1997 no âmbito de uma parceria entre os serviços agrícolas e os florestais, tinha então apenas 17 animais. As fêmeas têm sido sujeitas “ao contraste leiteiro, um controlo feito para que sejam seleccionadas as filhas das melhores mães”.
“Escolhemos as filhas das melhores mães e vamos introduzindo machos melhorados para, por via da fêmea e por via do macho, termos animais cada vez mais produtivos”, explicou.
Segundo Carlos Alarcão, os resultados já são visíveis, contando que, nesse primeiro grupo, “o leite praticamente só chegava para o cabrito mamar até aos dois meses de idade” e a fileira que era explorada era a da carne, para confeccionar os tradicionais pratos de cabrito.
“Neste momento, os cabritos continuam a mamar até aos dois meses e, depois daí, as cabras já dão leite para fazermos experiências com queijo”, acrescentou.
O técnico da DRABL estima que a produção de leite tenha vindo a subir “10 a 15 por cento por ano”, um crescimento que poderia ser “muito mais rápido” se o centro conseguisse comprar um macho sem genes em comum com os ali existentes, que custa “entre 150 e 200 euros”.
Isto porque, por via do macho, o melhoramento “é mais rápido”, uma vez que “exerce a sua função em todas as fêmeas que forem cobertas”.
Actualmente, as cabras do centro têm uma produção de 80 litros por lactação, ou seja, desde o desmame do cabrito até o leite secar.
“É possível, daqui a dez anos, termos uma produção média de 150 a 180 litros por animal”, estimou.
Carlos Alarcão reconheceu à Lusa haver raças que dão mais leite do que as serranas, que poderiam ser importadas de outros países, de que é exemplo a alpina.
“Mas esses são animais que não são rústicos, estão sempre confinados debaixo de telha”, explicou.
A grande vantagem das serranas é que, como gostam de matos, podem ser autênticos “bombeiros da floresta”, comendo-os e reduzindo assim o risco de incêndio.
“Os nossos colegas dos serviços florestais perceberam isso e começámos a trabalhar em conjunto. Interessa-nos um animal que seja muito rústico e que possa produzir tanto mais quanto melhores condições lhe dermos, seja de maneio, de alojamento ou de alimentação”, frisou.
O capril hoje inaugurado tem capacidade para mais de 200 animais. Trata-se de um investimento de 57 mil euros no edifício e equipamento de ordenha, aos quais acrescem quase dez mil euros de um gerador, porque em Vale de Cavalos não há electricidade.
A inauguração serviu para mostrar o funcionamento do centro a técnicos e produtores locais, a quem os seus responsáveis querem ajudar a ter uma maior produção ao divulgar os resultados das experiências.
“Podemos dizer-lhes que se levarem animais daqui ou semelhantes e fizerem um maneio deste tipo, podem chegar a esta produção”, referiu Carlos Alarcão, acrescentando que, numa zona de poucos recursos, “o que interessa é que o leite ou a sua transformação em queijo resulte em euros”.
Segundo o técnico, estudos realizados em França demonstraram que, com um efectivo de 80 a 100 animais altamente produtivos, uma família consegue, através dos subsídios que recebe e da produção de leite, “sobretudo quando é transformado em queijo e vendido na própria quinta, criar dois filhos e pô-los a estudar na universidade”.
Carlos Alarcão lembrou afirmações do ex-presidente da câmara de Vila Nova de Paiva, que pediu ajuda ao centro porque “o queijo da Serra e o vinho do Dão acabam à porta” do concelho e “até o granito é mau”.
“O que temos aqui? As trutas, a floresta e as cabras. Podemos unir as duas últimas com bons resultados”, considerou.
Fonte: Agroportal
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