No quadro da entrevista concedida pelo novo Ministro da Agricultura, Prof. Doutor António Serrano, foi abordada a temática da Soberania Alimentar. O novo responsável quer garantir existência de uma reserva alimentar no país como forma de prevenção face a catástrofes, para o que conta com o apoio do Ministério da Defesa.
Expresso (E): Há cerca de dois anos falou-se de crise alimentar e muita gente temeu que ficássemos sem alimentos. Esses receios ainda fazem sentido hoje em dia?
António Serrano (AS): Não. Houve uma altura em que era mais interessante especular em produtos alimentares, o que desequilibrou a procura a nível mundial e o sistema de formação de preços, criando uma grande bolha. Julgo que isso já passou. Hoje a Europa continua excedentária na maior parte das áreas mas na altura percebeu que o sistema internacional é frágil. A Comissão Europeia deveria estar preocupada com algum excesso de liberalismo na condução da PAC. Há outra matéria que tem a ver com a soberania alimentar. O bloqueio dos camionistas em Junho de 2008 foi paradigmático. Mostrou a nossa dependência. A sociedade percebeu aí a importância da agricultura. É uma questão de soberania nacional? É. Temos de apoiar quem quer e tem condições para produzir. O meu papel é alertar para o facto de haver áreas em que as reduções das ajudas podem acontecer e outras que temos de apoiar se quisermos que existam na produção europeia por uma questão de defesa da nossa soberania alimentar.
E: O problema de falta de capacidade de armazenamento está a ser equacionado?
AS: Já tenho uma reunião agendada sobre esse tema. É um problema que se arrasta há muito tempo, a questão do armazenamento e da constituição de reservas estratégicas. Há até uma área que passa pela articulação com o Ministério da Defesa e que pode ser melhorada, que tem a ver com a Comissão de Emergência Alimentar, na preparação de stocks de emergência em cenários de catástrofe. O país não está devidamente organizado. Com a crise dos camionistas viu-se que não tínhamos nada preparado. É preciso ensinar as pessoas a terem pequenos armazéns, a terem as despensas cheias, o que acontece em muitos países da Europa. Nós compramos para consumir na semana.
E: Acha que a agricultura é um bom negócio em Portugal? Como se evita o abandono do mundo rural?
AS: Pode ser um bom negócio. Em alguns sectores não é rentável e há outros em que há rentabilidade muito elevada. O pequeno agricultor, que está situado sobretudo no interior do país, é importantíssimo até por uma lógica de soberania. Há famílias que se organizam, na pequena agricultura, que praticamente não estão preocupadas com a venda e que estão a pensar na sua subsistência. E depois há a questão ambiental. Sem agricultores e sem gente a ocupar os territórios temos mais fogos, não contribuímos para a captura do carbono, não temos ordenamento do território. Foram anos e anos de afastamento das pessoas do sector. Estamos a trabalhar com os jovens agricultores, pedimos que se inventariassem as áreas agrícolas que estão sob o domínio do Estado.
E: Vão avançar com o arrendamento de terras aos jovens?
AS: Gostava muito de contratualizar com jovens um espaço que seja do Estado, com uma renda bonificada, com um prazo longo e opção de compra. O Estado tem muitas terras que pode disponibilizar. Quando cheguei ao ministério pedi o inventário das terras e apareceu-me um dossiê enorme. Temos de olhar para ele e ver o que está em condições de ser rapidamente disponibilizado. Gostaria que no primeiro semestre do próximo ano houvesse um bom exemplo do que poderá ser feito e que poderá ter um efeito impulsionador. E depois desafiar os privados a fazer o mesmo.
Fonte: Expresso e Anil
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