Uvas nas vinhas à espera de quem as queira comprar

Há perto de um milhar de pequenos e médios viticultores do Douro que temem não conseguir vender as suas uvas, porque as empresas às quais habitualmente vendiam começam a optar por ser auto-suficientes na sua produção. São produtores que asseguram entre 10 e 100 pipas, em média, por ano.

As adegas cooperativas, que poderiam servir de almofada e absorver as colheitas, também estão a restringir a entrada de novos sócios – e de novas produções -, uma vez que têm problemas de escoamento e, algumas, debilidades de ordem financeira.

Depois de a Calém, no ano passado, ter restringido, em Sabrosa, a recepção das uvas de mais de meio milhar dos agricultores até então fidelizados, a Burmester adoptou o mesmo procedimento este ano.

Segundo Barros Silva, um dos atingidos por esta decisão, “perto de uma centena de agricultores tem agora de procurar um novo comprador para a colheita”. A empresa ainda propôs a hipótese de a produção dos lavradores em causa ser encaminhada para outra empresa, mas essa terá recusado, acrescentou.

O presidente da Casa do Douro, Manuel António Santos, considerou a situação “extremamente preocupante”, à qual se soma o facto de “não haver um preço indicativo de pipa que era estipulado habitualmente”. “Agora, muitos lavradores que entregam as uvas não sabem a que preço as vendem, nem quando vão receber”, acentuou. Para o dirigente, a continuar este cenário, “a miséria poderá afectar muitas famílias e a fome no Douro poderá ser uma possibilidade”.

Armando Carvalho, da Confederação Nacional da Agricultura, considera tratar-se de “um problema que se tem vindo a acentuar, desde que as grandes empresas começaram a adquirir terrenos, a fazer os seus saibramentos e comprar quotas de produção”. Relaciona o problema com o “esvaziamento institucional da Casa do Douro”, desde as alterações de ordem regulamentar criadas para a Região. Solicita a intervenção “urgente” do Governo neste assunto, sob pena de, “em breve, os lavradores terem de ficar com as uvas em casa”. Defendeu “uma evolução do próprio sector cooperativo para responder a esta situação”.

No entanto, Fernando Pinto, presidente da União das Adegas Cooperativas da Região Demarcada do Douro, avisa “Nós não podemos estar à espera de viticultores que aderiram a outras situações”. Em Sabrosa, a Adega Cooperativa está disposta a vinificar “até quando lhe for possível”.

Dificuldades agravadas nas adegas

Vários são os produtores do concelho de Ponte de Lima que se queixam do tardio pagamento pelas uvas feito pela adega cooperativa local, uma das maiores estruturas do género do país e que viu, este ano, um dos seus produtos (tinto) ser agraciado pela Comissão de Viticultura da Região dos Vinhos Verdes. Situando a origem do problema na “pouca promoção” dinamizada pela estrutura, um produtor, que preferiu o anonimato, assinalou “Estão a pagar tarde e mal, o que está a desiludir muitos produtores, que chegam a vender uvas à porta”. José Adolfo, presidente da adega limiana, argumentou que o consumo de vinho “está a diminuir, mas a produção não”, e defendeu que uma estrutura deste tipo “tem a obrigatoriedade de aceitar” todas as uvas dos associados, “o que não sucede com uma empresa”. É esse o motivo que identifica estar na origem da “dificuldade sentida por muitas adegas”.

Fonte: JN

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