Um em cada dez portugueses tem falta de nutrientes essenciais para um bom desenvolvimento físico e intelectual, afirmou hoje um especialista da Associação Portuguesa de Nutricionismo, apontando para uma investigação científica do Instituto Nacional de Saúde Ricardo Jorge.
Os dados provêm do trabalho «Insegurança alimentar e saúde em Portugal», elaborado por Sofia Guiomar, que através de questionários a nível nacional classificou as famílias em quatro categorias consoante a situação alimentar encontrada.
Os nutricionistas contactados pela Lusa afirmaram que, além da «precariedade nutricional» que afecta cerca de um milhão de portugueses, existe uma noção errada de que a alimentação saudável é geralmente associada ao desenvolvimento físico e raramente ao intelectual, sobretudo no que respeita às crianças.
Em declarações à Lusa, Vítor Dauphinet, da Associação Portuguesa de Nutricionismo, sublinhou que uma boa nutrição tem um papel preponderante no «desenvolvimento intelectual das crianças», melhorando também a performance intelectual do cérebro já formado dos adultos e «minimizando problemas de saúde mental».
Segundo o especialista, nutrientes essenciais «garantem que as crianças consigam desenvolver todo o seu potencial intelectual, e, nos adultos, melhoram a inteligência, combatem o envelhecimento, como também evitam o surgimento de doenças degenerativas».
«Nas crianças, uma boa nutrição começa antes desta nascer, com uma boa alimentação da mãe, continua na amamentação e permanece fundamental nos primeiros anos de vida para um bom desenvolvimento do cérebro», sublinha o especialista.
«Na amamentação nutrientes como o ácido fólico são essenciais; as futuras mães também devem acautelar ácidos gordos essenciais, nomeadamente ómega3 encontrados sobretudo no peixe, uma vez que estes estão profundamente relacionados com o desenvolvimento do sistema nervoso, do cérebro e de todo o sistema cognit vo da criança», acrescentou.
Para o especialista, é um grande erro desassociar o desenvolvimento físico do desenvolvimento mental, porque a saúde física esta intimamente relacionada com a mental.
«A alimentação é consensualmente reconhecida como um dos principais factores na prevenção da doença e na promoção da saúde – sendo o cérebro a base de tudo, por que razão estaria o cérebro fora da esfera de influência dos nossos hábitos alimentares?» questiona Dauphinet.
Estudos recentes conseguiram demonstrar a relação entre níveis baixos de certas vitaminas do complexo B (fundamentais para a comunicação entre as células cerebrais) com sintomas de esquizofrenia, níveis baixos de ácidos gordos essenciais (omega3) com a depressão, bem como com o síndrome de hiperactividade e com o défice de atenção.
Segundo Dauphinet, «lamentavelmente ainda existe a ideia de que estar bem nutrido tem a ver com a relação do peso e altura, mas uma boa nutrição é muito mais que manter o balanço energético».
«O foco na magreza e na obesidade é um problema grave porque a maioria das pessoas, sejam elas crianças ou adultos, não se encontram em um destes extremos evidentes – encontram-se no meio, onde problemas graves de nutrição não são evidentes», acrescentou.
Relativamente à nutrição essencial para o desenvolvimento físico e mental das crianças, Dauphinet afirma que «há uma falta de responsabilidade por parte dos pais, dos encarregados de educação, assim como das escolas e professores, uma vez que são eles os responsáveis em assegurar uma nutrição equilibrada para as crianças».
«Não é fácil atingir um bom estado nutricional – é preciso que as pessoas obtenham uma educação alimentar e que as escolas apostem e potenciem a importância de uma boa nutrição para evitar inúmeras doenças, que sem estas medidas, continuarão a provocar graves problemas de saúde publica, assim como altos custos para o Estado», referiu.
Para alertar para este tipo de questões, vários especialistas reúnem-se terça-feira no Hospital D. Estefânia, numa iniciativa denominada «Sabia que o cérebro também come?» O colóquio incide sobre matérias especializadas na área do desenvolvimento cognitivo infantil e conta com a presença de vários profissionai s nacionais das áreas de Pediatria, Psicologia e com uma especialista internacional em Nutrição.
Fonte: Diário Digital
Segurança Alimentar Desde 2004 a tratar da Segurança Alimentar em Portugal