Entram discretamente e identificam-se. O alvo dos dois inspectores de saúde pública é um restaurante em Cascais. Às 12h00 dão início à inspecção – numa arca frigorífica encontram carne, peixe e marisco “com um cheiro amoniacal”. Chamado ao local, o delegado de saúde confirma o mau estado de conservação da comida e ordena a sua destruição imediata – com lixívia.
Esta foi uma prática repetida, mais de 30 vezes, por brigadas da Inspecção-Geral das Actividades Económicas (IGAE), em restaurantes de todo o País, desde 1 de Junho. Só nos últimos dois dias foram apanhadas 23 toneladas de comida estragada. Há suspeitas dos restaurantes já servirem comida estragada e disfarçada com tempero.
A quase totalidade dos alimentos estragados encontrava-se num entreposto de frio na zona da Grande Lisboa. Os inspectores depararam-se com asas, pernas e coxas de peru, de fabrico nacional, fora de prazo há mais de oito meses. A carne tinha um aspecto desidratado.
Foram ainda detectadas duas toneladas de pastéis de nata com data de Maio passado.
Sob os utilizadores do entreposto pendem suspeitas de alteração das datas dos prazos de validade das embalagens. Este mesmo local já tinha sido inspeccionado há cerca de cinco anos com idênticos resultados: comida estragada e fora de prazo.
OPERAÇÃO
Em mês e meio, a Inspecção-Geral das Actividades Económicas passou a pente-fino 1049 restaurantes, pastelarias, bares, cafés e mercados municipais. O resultado é assustador: 198 processos instaurados, 33 dos quais por crime – produtos estragados e abates clandestinos.
Nos últimos dois dias, a fiscalização esteve em 193 restaurantes e armazéns nos distritos de Lisboa, Santarém, Portalegre, Beja e Faro.
O CM acompanhou ontem, na Linha do Estoril e no Algarve, a ‘Operação Praia’.
Ficámos a saber que os suaves aromas e os temperos que aguçam o paladar, afinal, também servem para disfarçar a podridão.
“Para pouparem energia, chegam à noite e desligam o frigorífico. Depois, a carne é bem temperada e são adicionados molhos para disfarçar os cheiros – se o agente económico [leia-se dono do restaurante] quiser, e não tiver escrúpulos, o cliente é facilmente enganado”, diz fonte do IGAE.
Segunda-feira de manhã, os inspectores entraram no restaurante ‘Castro’, em Cascais. Na arca frigorífica foram encontrados “carne, peixe, camarão descascado, lulas e amêijoas com um cheiro amoniacal”, revela a mesma fonte.
O procedimento foi o habitual, diz: “Contactado o procurador da República, foi autorizado o exame pericial”.
Resultado do exame: “Através de uma análise macroscópica ao estado sanitário de todos produtos armazenados no frigorífico, foram considerados ‘anormais avariados’ – sofreram alterações de frescura”, diz.
Consequências: 12 quilos em produtos destruídos com lixívia e queixa-crime no Tribunal de Cascais. Quanto ao estabelecimento, mantém-se aberto porque, apesar de tudo, “reúne condições higieno-sanitárias”.
ESCONDIDINHO APANHADO
A acção de fiscalização da IGAE, acompanhada de perto pelo CM na Linha do Estoril, começou bem cedo. Eram 10h50 quando os dois elementos da brigada entraram ontem no restaurante ‘Escondidinho’, no Monte Estoril. Passados 20 minutos os inspectores já estavam na rua.
Ao que o CM apurou, foram encontrados cerca de 15 quilos de carne e peixe desidratados e queimados pelo frio. Uma situação identificada através dos cristais de gelo e pela mudança de cor nos produtos”, segundo fonte da IGAE. Enquanto aguardavam pelo delegado de saúde que atesta o mau estado dos alimentos, os inspectores selaram os frigoríficos.
CONSELHOS
PEIXE
A guelra do peixe deve ser vermelha, não exalar cheiro, os olhos não devem estar encovados e, à pressão de um delo sobre a massa muscular, esta deve voltar à posição inicial.
CARNE
A carne deve ter, geralmente, uma coloração avermelhada – uma coloração acastanhada ou esverdeada é mau sinal. A carne não deve ter a chamada ‘morrinha superficial’ – uma viscosidade que começa a ganhar na parte superficial. Não deve ter cheiro amoniacal.
MARISCO
O estado de conservação do marisco é facilmente analisado pelo cheiro – o camarão descascado, por exemplo, se estiver fechado apanha o cheiro de outros produtos. Se não houver refrigeração, o produto acaba por sofrer alterações.
O MAU É A EXCEPÇÃO NO ALGARVE
O menu escrito exclusivamente em inglês deu origem a uma contra-ordenação, aplicada ao restaurante ‘That Shack’ , na Praia do Vale Garrão, em Loulé, onde ontem de manhã foram inspeccionados cinco estabelecimentos por uma brigada da delegação da IGAE, no Algarve. À excepção da referida infracção – punida com coimas que variam entre os 500 e os 22 500 euros –, os inspectores concluíram a operação, que se prolongou durante a tarde em Albufeira, com um “balanço positivo”, já que todos os restaurantes visados obedeciam às normas de higiene e segurança exigidas por lei. “Contrariamente ao que se verificava há duas décadas, em que sector na região apresentava falhas graves, agora o mau é a excepção”, referiu ao CM Carlos Rodrigues, delegado regional da IGAE.
Apesar da multa que lhe foi aplicada, Peter Bova, cozinheiro do ‘That Shack’ reconheceu a importância da fiscalização: “Ajuda-nos a cumprir as normas. Ganhamos nós e os clientes”, considerou.
Fonte: Correio da Manhã
Segurança Alimentar Desde 2004 a tratar da Segurança Alimentar em Portugal