Os suplementos alimentares podem provocar toxicidade no fígado por falta de controlo desde o fabrico até à venda e pelas diferenças metabólicas de cada indivíduo, explicou hoje o especialista português em hepatotoxicidade, Rui Santos.
O médico internista sublinhou que as regras de venda e de fiscalização dos produtos naturais são diferentes das dos medicamentos, no dia em que as autoridades de saúde suspenderam a venda do suplemento alimentar Depuralina devido a «fortes suspeitas de associação causal entre a utilização» do produto e o aparecimento de episódios tóxicos graves.
As «fortes suspeitas» de casos de alergias (choque anafiláctico) e de toxicidade do fígado devido ao consumo da depuralina surgiu após a notificação de «três casos graves de doença aguda, e após análise por especialistas da Direcção-Geral da Saúde, do Gabinete de Planeamento e Políticas do Ministério da Agricultura e do Infarmed».
«Como costumo dizer aos meus doentes, tudo faz mal. E lembro que até o ópio é um produto natural», exemplificou à Lusa o especialista, referindo que a falta de uma regulamentação idêntica para medicamentos e produtos naturais é um «problema mundial».
«Nos produtos naturais não há suficiente controlo dos seus componentes e dosagens. Nos medicamentos há vigilância permanente», acrescentou.
A falta de investigação também «não dá certezas quanto à pureza dos produtos naturais ou não contaminação por micro-organismos e químicos» e há situações em que o «armazenamento também pode não ser o mais adequado».
Alguns produtos também podem ser tóxicos por si só, como alguns tipos de cogumelos, e as diferenças genéticas de metabolismo também podem determinar problemas apenas num indivíduo. «Nem todos temos as mesmas enzimas», explicou.
Mesmo o uso de tintas e de produtos de limpeza com demasiada concentração de elementos tóxicos ou o desrespeito pelas regras de manuseamento podem provocar situações de hepatotoxicidade.
«Nas operações hepáticas que nos surgem sem razão aparente costumamos fazer um inquérito e percebemos que o consumo de produtos naturais tem aumentado», notou à Lusa.
Alguns medicamentos também se inserem na lista de perigos quando usados em doses além do recomendado, como o paracetamol.
«O paracetamol é extremamente seguro em determinadas doses, mas no Reino Unido, por exemplo, onde é vendido em boiões, a sua toma é um dos principais motivos para a falência hepática fulminante e consequente transplantação de fígado», alertou.
A falta de regulamentação legal para as duas profissões ligadas directamente aos medicamentos naturais, fitoterapeuta e naturopata, também foi criticada pelo director Instituto Hipócrates de Ensino e Ciência, incluído no grupo da Universidade Lusíada, Carlos Ventura.
«Estas são as duas profissões mais preparadas e vocacionadas para lidar com esses produtos a nível clínico. Mas tem de haver um quadro legal definido e aplicável, o que será importantíssimo a nível da saúde pública e confiança da população», argumentou o responsável à Lusa, recordando que a lei geral sobre medicinas tradicionais está publicada há cerca de quatro anos, mas que se espera a sua regulamentação.
O responsável do instituto, que já organizou nove edições do curso para técnicos de lojas de produtos naturais, referiu ainda que o facto de estes produtos serem de venda livre pode levar as pessoas a «tomar quantidades tremendas», mas o «problema da auto-medicação é global a todos os níveis em Portugal».
«Os produtos naturais só em altíssimas dosagens são tóxicos. Mas é claro que há produtos logo à partida tóxicos, como certos cogumelos», lembrou Carlos Ventura, reforçando a necessidade de se distinguirem os produtos que não são compostos totalmente por extractos de plantas.
«Há produtos que são corrigidos com outros princípios activos e que apresentam componentes químicos, mas esses já não fazem parte da fitoterapia. É verdade que existem e que estão à venda, tanto em lojas de produtos naturais, como em farmácias», notou.
Para contrariar esta situação, a mesma fonte voltou a defender a existência de uma legislação eficaz e de consultores técnicos especializados nesses produtos que aconselhem da melhor forma os utentes.
A venda do suplemento alimentar Depuralina foi hoje suspensa, na sequência da notificação de três reacções adversas graves, que podem estar associadas ao consumo do produto.
Num comunicado conjunto da Direcção-Geral da Saúde, Gabinete de Planeamento e Políticas do Ministério da Agricultura e Infarmed foi oficialmente divulgada a suspensão imediata da venda do suplemento alimentar devido a «fortes suspeitas de associação causal entre a utilização» do produto e o aparecimento de episódios tóxicos graves.
As «fortes suspeitas» de casos de reacção alérgicas e toxicidade no fígado devido ao consumo da depuralina surgiram após a notificação de «três casos graves de doença aguda, e após análise por especialistas» das três instituições.
Identificada a situação pelos dispositivos de alerta, seguindo o princípio da precaução e por razões de protecção da saúde pública, foi assim determinada a suspensão imediata da comercialização, refere o comunicado oficial.
O documento recomenda ainda que os consumidores do suplemento suspendam o seu consumo e caso apresentem qualquer alteração do seu estado de saúde, consultem de imediato um médico.
Fonte: Confragi
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