O cerrado, considerado a savana brasileira, é o segundo maior bioma do Brasil, estimando-se que vivam ali 10 mil espécies de vegetais e 1.500 espécies animais, e também o segundo maior conjunto animal do planeta. O cerrado estende-se por uma área de mais de dois milhões de quilómetros quadrados e está presente em 10 estados no centro do Brasil.
Este ambiente de biodiversidade riquíssima é aparentemente inóspito e improdutivo, já que durante seis meses do ano, entre Maio e Setembro, não cai uma gota de chuva, e mesmo quando chove, o solo é imprestável para a agricultura: ácido, cheio de alumínio tóxico e pobre em quase todos os nutrientes essenciais.
Só mesmo um louco – ou um conjunto de investigadores destemidos – poderia admitir que tal ambiente poderia dar origem a uma das regiões mais férteis da agricultura mundial. Mas aconteceu. Foi obra da Embrapa. Trinta anos atrás, a recém-criada Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária lançou a sua maior “aventura” científica: pegou numa planta de origem chinesa, típica de climas temperados, e fez dela a rainha da agricultura tropical.
A soja, que até os anos 70 só podia ser plantada para sul do Estado do Paraná, onde o clima era mais parecido com o da China, virou-se para o norte e tomou conta do cerrado. Invadiu o Estado do Mato Grosso do Sul, avançou pelas bordas do Sudeste, conquistou Goiás, criou raízes em Mato Grosso, subiu pelo Tocantins, embrenhou-se no Maranhão e foi bater à porta da Amazónia. “Hoje temos tecnologia para cultivar soja em qualquer lugar do País, em qualquer época do ano”, diz o investigador Plínio Souza, da Embrapa Cerrados, um dos principais responsáveis pela invenção da soja tropical. “É uma tecnologia 100% brasileira.
“Em pouco mais de três décadas, a oleaginosa chinesa transformou-se no maior produto do agronegócio brasileiro. Em 2007, a indústria da soja movimentou € 15,694 biliões em grãos, máquinas, sementes, fertilizantes, pesticidas, logística, mão-de-obra, refinação de óleo, produção de ração animal e outros componentes da cadeia produtiva. Isso equivale a 6,4% do PIB agrícola e 1,6% do PIB total do Brasil. Os cálculos foram feitos pela Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove), a pedido do Estado. Só as exportações do complexo soja (grão, farelo e óleo) renderam € 9,956 biliões no ano passado, e a expectativa é que passem dos € 12,160 biliões em 2008.
Atrás da soja no cerrado vieram o milho, o feijão, o arroz, as máquinas, os fertilizantes, as estradas, a construção civil e os vilarejos transformados em metrópoles da noite para o dia com a riqueza do agronegócio. “Falar de soja é falar de muita coisa. Os benefícios sociais e económicos, directos e indirectos, são enormes”, diz o ex-presidente da Embrapa, Silvio Crestana.
De mera periferia agrícola, o cerrado virou o celeiro de quase metade dos alimentos brasileiros. Hoje, 40% dos 200 milhões de hectares do bioma estão ocupados com 61 milhões de hectares de pastagens e 17,5 milhões de hectares de plantações. Segundo cálculos da Embrapa e da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), é desse território que saem 47% dos grãos (soja, milho, arroz, feijão, sorgo e algodão caroço), 40% da carne bovina e 36% do leite produzidos no País. “A incorporação do cerrado à agricultura foi a maior conquista do Brasil”, afirma José Garcia Gasques, coordenador-geral de Planeamento Estratégico do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.
A soja que brota hoje no cerrado é muito diferente da que foi levada da China para os Estados Unidos, 200 anos atrás, e de lá trazida para o Brasil, no fim do século 19 – sempre restrita a regiões de clima temperado, próximo ou acima dos 30 graus de latitude. O pacote completo de conversão tecnológica inclui sementes, solo, microrganismos fixadores de azoto e práticas adequadas. Mas a diferença crucial está mesmo no DNA da planta, que os cientistas brasileiros retemperaram para adaptá-la ao cardápio climático tropical.
Curiosamente, a principal adaptação que os investigadores tiveram de fazer não foi para altas temperaturas nem para escassez de água, mas para o chamado fotoperíodo – o tempo de luz ao qual a planta precisa ficar exposta para se desenvolver.
A soja é uma leguminosa que gosta de dias longos, com mais de 12 horas de radiação solar. Nas regiões temperadas de alta latitude, onde ela se originou, isso é fácil: no verão, por causa da inclinação da Terra, os dias passam facilmente das14 horas de luz. Já nas regiões tropicais, próximas ao Equador, como é o caso do cerrado, os dias e as noites são menores e mais constantes. Na altura do paralelo 16, onde fica Brasília, o fotoperíodo máximo no verão é de 13 horas e meia. E para uma planta, meia hora a mais ou a menos de luz por dia faz muita diferença.
Em condições de menor período de luz, a soja floresce precocemente e pára de crescer. Sem o melhoramento genético feito pela Embrapa, a soja plantada no cerrado floresceria mais cedo e não cresceria mais do que 30 centímetros, o que seria impraticável do ponto de vista económico. A investigação permitiu retardar a floração e, com isso, aumentar a chamada fase vegetativa (ou pré-reprodutiva) da planta de 30 dias para 45 dias, anulando o efeito do fotoperíodo sobre a floração. “É como se a gente retardasse o início da puberdade na espécie humana para termos indivíduos maiores”, compara Souza.
Fonte: Agroportal
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