O secretário de Estado adjunto da Agricultura assegurou que a “segunda geração” de matérias-primas para produção de biocombustíveis retirará a pressão sobre os cereais da cadeia alimentar, que inflaciona o preço dos bens de consumo humano.
Luís Vieira, que presidiu à abertura do I Colóquio do Engordadores da Carne de Bovino, marcado pela preocupação com os efeitos que os elevados custos de produção estão a ter no sector, garantiu que “há uma orientação” no sentido de se trabalhar na utilização de outro tipo de matérias-primas, nomeadamente celulósicas, para a produção de biocombustíveis.
Aníbal Rodrigues da Silva, presidente da Associação Nacional de Engordadores de Bovinos (ANEB), referiu, na sessão de abertura do colóquio, a crise que o sector enfrenta, apontando, nomeadamente, o facto de o preço dos cereais para as rações animais ter duplicado devido à procura para a produção de biocombustíveis. “Para manter a actividade produtiva, os produtores são obrigados a vender a carne abaixo do preço de custo, o que, a curto prazo, conduzirá a situações dramáticas e à insolvência”, afirmou.
Reconhecendo a necessidade de “cuidados”, porque a pressão maior se está a reflectir na cadeira alimentar e na alimentação humana, com implicações nomeadamente no custo de bens essenciais como o leite e o pão, Luís Vieira frisou ser preciso procurar “outro caminho”.
O secretário de Estado prometeu ainda, para “muito curto prazo”, o novo diploma sobre o licenciamento das explorações, que prevê um período de adaptação gradual às novas regras. Apontou ainda, para Março, a abertura das candidaturas a fundos comunitários, no âmbito do Programa de Desenvolvimento Rural, prometendo que o sector, embora não tenha sido considerado estratégico, é “prioritário” e não terá falta de apoios.
Industriais de rações querem «aceleração» de alternativas aos cereais para biocombustíveis
Um responsável da Associação Portuguesa dos Industriais de Alimentos Compostos para Animais (IACA) defende uma «aceleração» da investigação que permitirá produzir biocombustíveis com matérias-primas que não concorram com a alimentação. Essa aceleração é necessária, «sob pena de se comprometer o futuro da fileira pecuária», considera Jaime Piçarra.
Este responsável considera que a tecnologia que permitirá a utilização de material lenhoso e lenho-celulósico, palhas, biomassa, resíduos, microalgas e culturas como a purgueira, para produção de biocombustíveis só deverá estar disponível «dentro de cinco a sete anos». «Há que apostar rapidamente neste caminho, acelerar a investigação, sob pena de comprometer o futuro da fileira pecuária», advertindo que «até lá, são de esperar preços de matérias-primas relativamente elevados».
Contudo, Jaime Piçarra acredita que os preços que têm vigorado ultimamente nos cereais, com fortes implicações nos custos de produção de bens alimentares, tenderão a ser «mais moderados», até porque «os preços actuais comprometem igualmente a viabilidade das unidades de biocombustíveis».
Segundo Jaime Piçarra, os preços dos cereais e oleaginosas subiram, em média, entre 60 a 70 por cento nos últimos 12 meses, enquanto o preço dos alimentos compostos cresceram cerca de 25 por cento. «Isto significa que a indústria tem incorporado essas perdas, com o aumento das necessidades de fundo de maneio e os consequentes encargos financeiros», afirma, alertando para a «descapitalização» da pecuária, «situação insustentável no curto prazo» para explorações e unidades de fabrico de alimentos compostos para animais.
Para Jaime Piçarra, o problema do impacto dos biocombustíveis «é uma séria ameaça, a par de outras», como as negociações da Organização Mundial de Comércio e a crescente abertura do mercado europeu de produtos animais aos produtos provenientes de países terceiros «que não cumprem as mesmas regras». No seu entender, os problemas que o sector actualmente atravessa são de natureza «estrutural», lembrando «o progressivo abandono» das explorações, as dificuldades de licenciamento, o impacto do desligamento das ajudas no sector do leite, problemas sanitários e crescente importação de carne e de animais vivos.
Fonte: Anil
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