Começa no próximo domingo, sob o quadro da seca extrema, a época de caça às aves migratórias. Embora a falta de chuva tenha prejudicado a reprodução das espécies cinegéticas, os responsáveis pelas coutadas tomaram medidas – implantação de bebedouros artificiais, por exemplo – no sentido de minimizar-lhe o efeito. Mas, em alguns casos, nada podia ser feito: as perdizes, espécie sedentária, nem sequer chocaram os ovos.
Caçada entre dois de Outubro e 31 de Dezembro, a perdiz-vermelha, emblemática de Portugal, põe os ovos no solo, mas é necessária alguma humidade para que os perdigotos lhes rebentem a casca.
Sentindo a secura do terreno, a grande maioria das perdizes pôs ovos mas não chegou a chocá-los. O sucesso da reprodução é estimado em menos de 10 por cento em relação ao habitual. “É o pior ano das últimas duas décadas”, avalia Jacinto Amaro, dirigente da Fencaça (Federação Nacional das Zonas de Caça Associativa).
ROLAS A CAMINHO
Rola, pato, galeirão, galinha-d’água e pombos (bravo, torcaz e da rocha) são as aves que, a partir de domingo, estarão na mira dos caçadores. Neste caso não houve alteração relativamente ao calendário do ano passado. Em 2004 a época de caça à rola já começou mais tarde, de modo a salvaguardar o período de reprodução.
Este ano as alterações ao calendário, relacionadas com a seca, prendem-se com a antecipação da caça ao coelho, que começa um mês mais cedo, a quatro de Setembro, e termina também um mês mais cedo, a 30 de Novembro.
Segundo afirma Jacinto Amaro, nas coutadas não devem faltar rolas: “Os nossos colegas espanhóis, que têm postos de contagem em Gibraltar, dizem-nos que as rolas estão a voar em grande quantidade para a Península Ibérica.” Mas são bastante menos do que eram há 20 anos.
Essa redução progressiva deve-se ao desenvolvimento da agricultura , nomeadamente das culturas cerealíferas, em Marrocos, enquanto, em Portugal, são cada vez mais os campos abandonados. Em Marrocos as rolas encontram alimento disponível e muitas não sentem necessidade de atravessar o estreito de Gibraltar.
ECOLOGISTAS DEFENDEM PROIBIÇÃO
A Liga para a Protecção da Natureza (LPN) defende a proibição da caça nas zonas não abrangidas por um regime de activo de gestão cinegética (regime livre), nomeadamente no Algarve, Alentejo e Ribatejo, junto a albufeiras, linhas de água, charcas e outros locais onde se prevê grande afluência de animais em busca de água. A LPN teme que, nestas circunstâncias, a caça se torne “um exercício fácil de tiro ao alvo por parte de alguns caçadores”.
Os ambientalistas consideram ainda “incompreensível” ter-se alterado a data de início da caça de algumas espécies, “mantendo-se, de uma forma geral, o mesmo número de dias de caça e permitindo-se caçar as mesmas espécies cinegéticas e o mesmo número de efectivos”.
Eduardo Biscaia, presidente da Federação Nacional de Caçadores e Proprietários (FNCP), que representa o regime livre, defendeu, antes de se conhecer a alteração ao calendário cinegético, que a caça fosse permitida apenas depois do Verão, o que mereceu viva repulsa de quem mata no regime ordenado. Contudo, no entender daquele dirigente, a seca, o colapso da produção agrícola e a falta de água em albufeiras, rios e ribeiros seriam argumentos suficientes para que a caça tivesse início apenas em Outubro.
Se dentro das coutadas, apesar dos esforços de quem os caça, os animais são em menor número, é de supor que nos terrenos do regime livre, sem água nem alimento, sejam ainda mais escassos.
Fonte: Correio da Manhã
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