Raio X aos preços dos bens alimentares

Sem surpresas, os bens alimentares de primeira necessidade, em especial os derivados dos cereais, registam aumentos muito significativos, alguns acima dos 50 por cento. Mas o pior ainda está para vir. Até que ponto a crise internacional está a afectar os bolsos dos portugueses? Sabemos que tem a resposta pronta debaixo da língua: «Muito», Mas para que consiga ser mais preciso nessa apreciação, fomos às compras a fim de percebermos a real dimensão desse «muito».

Começamos pelo supermercado e comparámos os preços a que hoje se vendem alguns bens essenciais, com o valor pedido há cerca de um ano e meio. Foi precisamente neste período que começou a desenhar-se a crise alimentar, com a escalada dos preços das matérias-primas agrícolas, nomeadamente do trigo, do arroz e do milho.

A factura está indesfarçavelmente mais pesada, com o pão, as massas, o leite e os seus derivados a pesarem cada vez mais.

Num pequeno cabaz com mais de 20 produtos – alimentares, de higiene e limpeza – detectámos uma subida média de 15,3% dos respectivos preços. O que, em 2006, nos tinha custado 35,75 euros, na semana passada, ficou por 41,75 euros. Recuamos ainda mais e fomos olhar para os preços afixados em 2001, o último ano em que o escudo circulou em Portugal. Convertido para euros, o cabaz estava a 34,48 euros.

A conclusão não deixa de ser curiosa. No período que se seguiu à introdução do euro, a sensação quase generalizada era de que a factura do supermercado tinha disparado em flecha. O que concluímos, em anos sucessivos de análise, é que pelo contrário, os preços tinham aumentado, em média, abaixo da inflação. Foi assim até 2006.

De então para cá, o panorama alterou-se radicalmente. E a aparente estagnação dos preços nos hipers deu lugar a uma subida significativa. Vejamos: em cinco anos, o nosso cabaz ficou apenas 1,27 euros mais caro, o que corresponde a um aumento de 3,7%, uma percentagem simpática para um período de meia década. Nos últimos dois anos, empurrados pela subida do preço do petróleo (que tornou mais pesados os custos de transportes, fabrico e consumo energético) e da escassez de alimentos básicos, o preço deste cabaz, disparou 4,47 euros – tratava-se de um agravamento de 15,3% -, equivalente a quatro vezes mais do que o aumento registado no período anterior.

A margem para dúvidas é muito reduzida ou mesmo inexistente: a crise é bem real e já passou para as prateleiras dos supermercados, afectando o orçamento de muitas famílias portuguesas. Mas esta não é a pior das notícias.

De acordo com Manuel Tarré, presidente da Associação Nacional dos Comerciantes e Industriais de Produtos Alimentares, «os preços de alguns bens podem não reflectir, ainda, o aumento dos custos das matérias-primas. Habitualmente, as grandes superfícies garantem o fornecimento, a preço fixo, de alguns produtos, por períodos até um ano. Findo esse prazo, os aumentos podem ser brutais.» Do lado da grande distribuição, o grupo Jerónimo Martins, que controla o Pingo Doce e o Feira Nova, garante que «tudo fará para controlar as subidas de preços», através dos seus produtos de marca própria.

Pão, Massas e Arroz
É no pão e nas massas, produtos que dependem em muito do trigo – o preço deste cereal mais que duplicou, em ano e meio -, que se registaram as maiores subidas percentuais. Vejamos o exemplo de uma embalagem de espaguete de 500 gramas que, em 2006 custava 36 cêntimos e, hoje está a ser vendido por 59 cêntimos, no mesmo espaço comercial. O aumento foi de mais de 60%, em apenas dois anos.

O pão, por sua vez, regista subidas médias superiores a 30 por cento. E só não aumentou mais porque o peso dos cereais na formação do seu preço é de apenas 22 por cento. Contudo, a factura deste bem essencial não deverá ficar muito mais pesada, pois, de acordo com Carlos Santos, presidente da Associação dos Comerciantes e Industriais de Panificação (ACIP), o preço da farinha começou, entretanto, a estabilizar. Todavia, o dirigente associativo vai adivinhando mais um aumento, ainda que ligeiro, já para Junho, mês em que muitos dos Stocks de trigo se esgotam. «Mas já não deverá ser uma subida tão acentuada como a de 2007», sublinha, quando o preço dos cereais disparou 100 por cento.

Com o arroz, a situação é diferente. Os aumentos recentes são pouco significativos, mas prepare-se, o verdadeiro impacto da crise cerealífera neste bem ainda está para chegar. No nosso cabaz de compras, o arroz apenas sofreu um aumento de 10,1% nos últimos dois anos. No entanto, Ernesto Morgado, presidente da Associação Nacional dos Industriais do arroz (ANIA), admite ser «muito provável que ocorra uma subida sugnificativa do preço, que poderá ficar entre 40% e 50%, ao longo do ano». Isto devido ao fim dos stoks, ainda indexados ao preço antigo.

«A minha empresa está a comprar o arroz a mil dólares a tonelada, quando, há um ano, a mesma quantidade me custava pouco mais de 350 dólares», esclarece. Com uma escalada tão louca, já são poucos os produtores que se arriscam a fazer contratos de longo prazo, temendo perder lucros potenciais. «Até Setembro do ano passado, conseguia fazer contratos a preço fixo a um ano. Agora é difícil fazê-los a um mês», sublinha Ernesto Morgado. Até ao final do Verão, momento das próximas colheitas de arroz, os preços continuarão a subir.

Portugal importa metade do arroz que consome, mas tal não tem a ver apenas com a escassez da oferta nacional da oferta nacional. Verificou-se, nos últimos dois anos, uma clara alteração nos hábitos de consumo. Os portugueses passaram a preferir o arroz agulha ao «nosso» carolino. «As pessoas sabem cada vez menos cozinhar e, por isso, procuram mais o agulha, que é um arroz mais resistente. Se houvesse uma campanha de sensibilização para a opção pelo carolino, conseguíamos reduzir a dependência do exterior», comenta Ernesto Morgado.

Leite Derramado
Regressamos ao cabaz VISÃO. Verificamos que o leite e os seus derivados estão entre as categorias de produtos mais afectadas. Nada que se pareça com os derivados do trigo, mas, ainda assim, com subidas entre 20% e 30 por cento – outro bem essencial que pesa cada vez mais nas carteiras dos portugueses. Mas a situação poderá também inverter-se a médio prazo, pois a Comissão Europeia decidiu aumentar as quotas leiteira em 2 por cento. «Em Portugal, esta medida representa a possibilidade de se produzirem mais 39 mil toneladas de leite, mas para os grandes produtores, como a França e a Alemanha, significa um adicional de 600 mil toneladas, o que aumentará o risco de Portugal ser inundado com leite vindos de fora a preços baixos», diz Pedro Pimentel, secretário-geral da Associação Nacional de Industriais de Lacticínios.

A reacção em cadeia não se fica, todavia, por aqui. Recuemos um degrau, neste processo produtivo. Chegamos aos animais. É deles que vêm o leite e a carne que comemos. E eles também precisam de comer para nos fornecerem alimento. E aqui a crise cerealífera volta a deixar a sua marca. A alimentação, feita à base de rações constituídas, essencialmente, por cereais, representa 60% a 70% dos custos de produção de um animal para consumo. A carne ainda não sofreu grandes aumentos – em alguns casos, registaram-se mesmo ligeiras descidas -, mas, tal como sucede no arroz, é inevitável que tal venha a acontecer em breve.

«Existe um excesso de produção animal, que provocou uma quebra do preço da carne. Os produtores europeus chegam a perder 30 a 35 euros por cada animal abatido», diz Jaime Piçarra, secretário-geral da Associação dos Industriais de Alimentação Animal (AIAA). Perante tal perda de receitas, muitos produtores deixaram de conseguir pagar aos fornecedores de rações. «São 350 milhões de euros de possíveis incobráveis, só em Portugal», revela Jaime Piçarra

Para fazer face às variações do preço da alimentação animal, a carne deveria aumentar entre 15% a 20%, mas perante o excesso de produção, os preços poderão manter-se por mais algum tempo. Boas notícias para os consumidores, péssimas para os produtores.

Teoria do Caos
Contas feitas, o melhor é preparar-se para gastar muito mais com os bens essenciais, nos próximos tempos. Segundo as contas da empresa de estudos de mercado TNS, as famílias portuguesas gastarão, em média, em 2008, mais 620 euros em alimentação. Tudo por causa da conjugação de uma série de factores aparentemente inócuos, quando isolados. Acontece que, em conjunto, como se verificou, deram origem a um turbilhão global que continua a provocar muitos estragos. A história é simples e resume-se em poucas linhas.

O milagre económico chinês e indiano levou a um maior consumo energético e a uma maior procura de alimentos pela cada vez mais abastada população daqueles dois países. O maior consumo energético fez disparar o preço do crude e o Ocidente refugiou-se no biodiesel para atenuar a factura do petróleo, passando a usar cereais para produzir energias alternativas. E como existiam cada vez mais bocas para alimentar no mundo…. os preços destas matérias primas também dispararam. Mas há mais.

Com o maior consumo de petróleo nos países emergentes, e não só, crescem as emissões poluentes para a atmosfera, que levam a maiores desequilíbrios climáticos, os quais complicam as produções agrícolas, como aconteceu no ano passado com as colheitas de trigo na Austrália, um dos maiores produtores do globo. É a teoria do caos – aquela que diz que o bater de asas de uma borboleta na América do sul pode provocar uma tempestade no outro lado do mundo – no seu expoente máximo.

Fonte: Anil

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