Queda no preço do azeite afecta olival tradicional

Em Portugal, a descida dos preços do azeite atinge, sobretudo, o olival tradicional, que tem vindo a registar quebras na produção de 50 por cento, nos últimos anos.

Nas duas zonas produtoras consideradas as mais importantes do país, nomeadamente, Trás-os-Montes e Alentejo, a situação é semelhante, com os hectares de olivais tradicionais a multiplicarem-se mas a ficarem cheios de fruto.

A principal causa é a descida do preço do azeite verificada no último mês em comparação com mesmo período no ano passado, quando «o quilo estava a 2,6 euros e agora está nos 1,8», afirma o Presidente da Federação das Cooperativas de Azeite em Portugal (Fenazeites), Aníbal Martins.

O presidente adianta que devido a esta situação a azeitona está «em média a 30 cêntimos por quilo» contra os 40 cêntimos praticados em 2008, e os 60 a 70 cêntimos pagos em 2006.

Com a recolha da azeitona a custar 20 cêntimos por quilo o agricultor não vê recompensados os custos gastos num ano inteiro apenas com o retorno de 10 cêntimos.

Segundo Patrícia Falcão, também da Fenazeites, «o preço em Portugal reflecte o de Espanha, cuja redução explica-se muito pela crise mundial reflectida nalguma retracção do consumo.

Apesar do aumento da procura que a oferta tem acompanhado, «agora as famílias estão a comprar menos e as próprias empresas», que anteriormente adquiriam para vários meses, só o fazem para o dia-a-dia, conta o presidente da federação, também produtor no Alentejo.

Este problema é uma realidade vivida especialmente no olival tradicional, que ocupa cerca de 350 mil hectares do país, com resistência das novas plantações de olival intensivo, na sua maioria espanhol, que abrangem 50 mil hectares.

A diferença de produção entre os dois tipos de olival, tradicional e intensivo, é significativa, com o primeiro a produzir 700 a 800 quilos por hectare (ha), enquanto o segundo está nos oito a dez mil quilos, também por (ha), explica a Fenazeites, acrescentando que esta discrepância verifica-se também no custo da apanha, que desde de 20 para seis cêntimos, respectivamente.

Uma hipótese para diminuir os custos é mecanizar a apanha nos velhos olivais, uma matéria sobre a qual Aníbal Martins esclarece que «não é possível porque, enquanto um olival novo tem cerca de 300 árvores por ha, num tradicional o número baixa para 70, o que faz com que haja menos concorrência ao nível do sistema radicular, tornando-se o tronco mais largo e a árvore mais alta», ou seja, «quando a máquina vibra, a árvore quase não mexe», assinalando ainda com a questão do relevo, como é o caso de Trás-os-Montes, segunda região produtora de azeite do país.

O presidente da Fenazeites considera que o futuro se apresenta pouco optimista para o olival tradicional, em particular nas zonas serranas, onde se regista um grande abandono com tendência para que se agravar».

Esta quebra não tem grande reflexos na produção de azeite, que é alimentada pelas novas culturas, tendo em conta que os 50 mil ha de olival intensivo têm um potencial produtivo superior aos 350 mil ha do tradicional.

O verdadeiro impacto do abandono do olival poderá ser ao nível social e ambiental de muitas regiões do interior, que com as políticas seguidas depois da adesão à União Europeia, viram privilegiada a pequena propriedade e aumentaram os olivais em Trás-os-Montes, em detrimento do Alentejo.

Mas, a partir do início do século, com as alterações na política agrícola, o Alentejo renovou a sua aposta e, recentemente, investidores espanhóis apostaram no olival intensivo alentejano.

Em relação à situação do tradicional e apenas perante as garantias de facilidades de escoamento dadas pela denominações de origem, que não aumentam por ai além o preço pago ao agricultor, Aníbal Martins é da opinião que «nos apoios deve-se diferenciar os dois tipos de olival», porque não se deve abandonar «tantas árvores e tantos hectares», garantindo que «isso seria um desastre social e ambiental».

O olivicultor defende que uma da soluções seria apostar nas agro-ambientais, recordando que «até há três anos» existiam «estas medidas e houve um aumento na produção e na qualidade da azeitona», mas desde que o ministro da Agricultura terminou com as mesmas «o abandono voltou», acrescenta o presidente da Fenazeites.

Fonte: Público e Confagri

Veja também

Consumo de café aumenta resposta ao tratamento da hepatite C

Os pacientes com hepatite C avançada e com doença hepática crónica que receberam interferão peguilado …