Produtores em «guerra» por causa do IVA

Os produtores estão em em «pé de guerra» com as grandes cadeias de distribuição por causa do aumento do IVA. A ANIL acusa a distribuição de abuso de posição dominante e o Governo de branquear a situação. As empresas e a indústria dizem não ter margem para absorver os custos da não subida dos preços na distribuição.

«Os distribuidores querem passar os custos do aumento do IVA ao fornecedor», destaca o secretário-geral da Associação Nacional dos Industriais de Lacticínios (ANIL), Pedro Pimentel. Este responsável vai mais longe e acusa a distribuição de «abuso de posição dominante». O «aumento de um por cento está a ser adicionado aos descontos nas compras que a distribuição faz aos fornecedores», acrescenta num tom crítico Pedro Pimentel.

«Quanto maior é a margem do produto, maior é o prejuízo dos fornecedores», disse. Pedro Pimentel acusa a distribuição de não querer «suportar a meias» os custos da manutenção dos preços. «O IVA é assumido pelos fornecedores, mas de forma unilateral», referiu ainda.

A Centromarca, Associação Portuguesa de Empresas de Produtos de Marca, pensa o mesmo. «As pessoas não precisam de fazer grandes contas quando há empresas a dizer que não vão passar o IVA para os seus produtos», afirma o presidente desta entidade, João Paulo Girbal. «O que se passa é que as empresas de distribuição tencionam passar o ónus da situação para o lado do fabricante, mesmo que não o digam», acrescenta.

João Paulo Girbal diz que a «situação não é nova, já que, no passado, foram os agricultores a suportar o aumento do IVA, através do esmagamento das margens». Só que, agora, como refere, o cenário é pior, dada a crise que atravessamos. «Há empresas que não aguentam», destaca. No futuro, este tipo de política leva ao aumento da dependência nacional face ao exterior. «Por vezes, tomam-se atitudes que, no longo prazo, têm impactos terríveis», considera João Paulo Girbal.

«As empresas em geral e a indústria, em particular, não têm margem para absorverem o aumento do IVA», referiu, por sua vez, o secretário-geral da Associação Nacional dos Industriais de Refrigerantes e Sumos de Frutos (ANIRSF), Francisco Furtado de Mendonça.

Distribuição focada na competitividade dos preços
A distribuição prefere, antes de mais nada, falar na competitividade dos preços. Todas as cadeias que contactámos, os grupos Jerónimo Martins (JM), Sonae e Auchan, destacam esta questão. Apenas o grupo JM nos remete para os produtores, para a necessidade de encontrar com eles as melhores soluções.

«O compromisso assumido pelas insígnias do grupo com os seus diversos clientes – oferecer uma gama equilibrada de produtos de qualidade a preços muito competitivos – exige uma gestão quotidiana dinâmica, assente na cooperação com os fornecedores e na negociação regular de condições comerciais em função de vários factores como a evolução dos mercados de matérias-primas ou a rotação de produtos», afirmam fontes oficiais do grupo JM.

«Os milhares de fornecedores, parceiros de negócio e prestadores de serviços do grupo Jerónimo Martins são parte essencial na construção de propostas de valor das suas insígnias», acrescentam.

Alteração das taxas de IVA não muda estratégia
A intenção da Sonae MC – o Continente, o Modelo, o Modelo Bonjour são algumas das suas marcas – é uma só: oferecer os melhores preços aos seus clientes. «A alteração das taxas de IVA em nada altera este posicionamento», explicam as fontes da empresa.

Sem falar nos fornecedores, a Sonae MC, apenas, adianta que vai «continuar a prosseguir o seu compromisso de ser o retalhista com melhores preços no cabaz mais relevante para os seus clientes».
O posicionamento do grupo Auchan é idêntico. A cadeia prefere não falar dos produtores e promete competitividade nos preços. «O grupo tem para com os seus clientes o compromisso de oferecer os preços mais baixos das regiões, onde está implementado. O aumento do IVA em nada irá afectar o compromisso que foi estabelecido», sublinham as fontes do grupo.

ANIL queixa-se da demagogia do Governo
Se as principais cadeias de distribuição «abusam da sua posição dominante», o Governo é «demagógico». Pedro Pimentel refere-se, em particular, às palavras do secretário de Estado do Comércio, Fernando Serrasqueiro, quando este diz acreditar que o aumento do IVA vai ser absorvido pelas principais cadeias de distribuição.

«Se estamos a indicar que os preços não deverão ser aumentados, então, mais valia não aumentarem o importo», afirma Pedro Pimentel. O «Estado vai adoptar a mesma atitude em relação aos bens e serviços que fornece?», questiona-se. Com esta atitude, o «Governo está a branquear» a situação. «Que haja honestidade para se dizer quem assume os custos», disse ainda.

Como até aqui, a ANIL vai continuar a dar conta das suas preocupações aos ministérios da Agricultura e Economia, aguardando com expectativa um estudo da Autoridade da Concorrência a ser lançado em breve.

A Centromarca, uma vez mais, vai optar pela mesma solução. Ou seja, por chamar a atenção do regulador e da tutela para o problema. «Queremos uma concorrência leal e intensa», referiu João Paulo Girbal. A Centromarca faz o seu papel ao chamar a atenção de todos para a importância das marcas e de como elas podem contribuir para o sucesso das nossas exportações e da economia de um modo geral.

Fonte: Anil

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