O fim do pousio nos campos de cereais, proposto pela Comissão Europeia na estratégia contra o aumento dos bens alimentares, terá pouco impacto junto dos agricultores alentejanos, que o têm de manter para evitar o “esgotamento” das terras.
“É uma medida mais política do que prática e temos que continuar a fazer pousio, senão esgotamos e cansamos as terras”, garantiu hoje à agência Lusa José Eduardo Gonçalves, que possui cerca de 400 hectares de cereais na zona de Campo Maior (Portalegre).
Também José Miguel Ribeiro, produtor de cereais em cerca de 120 hectares na zona de Beringel, concelho de Beja, afiançou à Lusa que “só os agricultores com terras boas” se poderão dar a esse “luxo”.
“Quem tem terras boas, como as que existem à volta de Beja, é que pode semear a área toda de cereais. Sabe que, depois, vai colher. Mas são uma minoria e quem tem parcelas de terra mais marginais acaba por ter de as deixar descansar um ano em pousio”, argumentou.
A Comissão Europeia propôs terça-feira para discussão em Conselho Europeu, em Junho, uma estratégia contra o aumento dos bens alimentares que inclui o fim do pousio nos campos de cereais, para aumentar as áreas semeadas, e o aumento progressivo das quotas de produção de leite.
Bernardo Albino, presidente da Associação Nacional de Produtores de Cereais (ANPOC), afirmou à Lusa que o fim do pousio poderá ter impacto “noutros países da União Europeia (UE)”, mas “não em Portugal”.
“Em Portugal, não é determinante e há outras medidas mais importantes, mas, para isso, o país tem que definir uma estratégia para o sector e dar sinais claros de que quer ter um razoável auto-aprovisionamento”, defendeu.
Bernardo Albino, que produz cerca de 400 hectares de cereais no Alentejo, no concelho de Monforte, lembrou que, este ano, a título excepcional, a UE já tinha retirado o pousio obrigatório, sem grande aumento da área semeada.
“Em toda a UE, a área em pousio rondava os dez por cento e, com a suspensão do ‘set aside’ [pousio], a área semeada só aumentou cinco por cento, sobretudo em países com melhores condições para cereais do que Portugal e, especificamente, do que o Alentejo, em que dependemos muito do S. Pedro e temos alguns anos maus”, disse.
Segundo dados do presidente da ANPOC, o Alentejo possuía, em 2005, perto de 180 mil hectares de cereais, ou seja, “metade da área nacional” com tais culturas.
Da área de cereais no Alentejo, frisou também José Eduardo Gonçalves, “80 a 85 por cento” é de sequeiro e apenas os restantes “15 a 20 por cento” de regadio, o que obriga a uma rotação de culturas em que o pousio não pode ficar fora da equação.
“Não posso fazer cereais em cima de cereais, num ciclo de cinco anos. Tem que haver rotação das terras, com outras culturas e deixando em pousio uma parcela, pelo menos um ano”, sublinhou, dando o seu exemplo, em que, de 500 hectares para cereais, planta em 400, entre trigo mole (para pão) e duro (massas), cevada dística (cerveja), milho, triticale e aveia (rações).
Com o fim do pousio obrigatório, a “única vantagem” será para a pecuária”, assegurou, explicando que, ao contrário do que acontecia até agora, o gado poderá pastar nas terras em “set aside”.
“Hoje em dia, quem faz cereais tem de os fazer tecnicamente bem, com pousio, e com muitos cuidados para ter qualidade e não ter prejuízos, tal é o aumento dos custos com gasóleo, adubos e pesticidas, acima dos 60 por cento e, em alguns casos, de cem por cento”, apontou.
Garantindo que os produtores de cereais “estão condenados a não ficar ricos”, porque os custos de produção “subiram muito mais” do que os preços a que os agricultores vendem esses produtos, Bernardo Albino defendeu que o sector deve ser estratégico para o Governo, tal como a vinha, o olival, a floresta e as frutas e legumes.
“Um país que tenha como estratégia alimentar a sua população, tem que incluir os cereais nas fileiras prioritárias, o que não aconteceu em Portugal. A noção de estratégico do ministério da Agricultura é diferente da que têm os agricultores”, argumentou.
Já José Eduardo Gonçalves repetiu esta posição, sustentando que, para o aumento da área de cereais, o ministro da Agricultura, Jaime Silva, deve “dar provas de que o sector é importante” e adoptar “medidas agro-ambientais que, verdadeiramente, incentivem a produção e apostar na modernização e capacitação das empresas”.
“Para incentivar as pessoas a produzir mais cereais, os preços, que já estão a descer e não deram margens de lucro aos agricultores portugueses, têm que ser mais estáveis e devem-se planear melhor as áreas semeadas, porque muitos dos novos olivais ocuparam, em vez de terras mais ruins, boas terras que, antes, tinham culturas cerealíferas”, acrescentou José Miguel Ribeiro.
Fonte: Agroportal
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