Preços baixos, excesso de oferta e crise económica

A descida do preço do leite no produtor e o excesso de oferta na Europa, factores associados à crise económica, estão a provocar dificuldades no sector europeu e algumas associações portuguesas falam mesmo em diversas situações de falência nas explorações.

Nos últimos meses, as associações representativas do sector leiteiro têm chamado a atenção do Governo e dos portugueses para as consequências da quebra do preço do leite, que passou de mais de 39 cêntimos nos primeiros meses de 2008 para os actuais 28 ou 24 cêntimos.

A revolta dos produtores cresce quando verificam que estas reduções não se reflectem no valor pago pelos consumidores já que nos super e hipermercados o preço ronda 39 cêntimos para cada litro de leite. As manifestações de agricultores sucedem-se, principalmente no Norte do país, onde se localizam muitas explorações, e as acusações ao ministro da Agricultura, Jaime Silva, também.

O mote das concentrações nacionais passa pelo pedido de ajudas, mas igualmente pela necessidade de alterar as actuais regras europeias, como a subida da quota de produção, até à liberalização prevista para 2015, ou de fiscalizar as importações de leite e os preços praticados na distribuição.

A Fenalac (federação que reúne as coperativas do sector leiteiro) através do seu secretário-geral, Fernando Cardoso, transmitiu à agência Lusa que, “com a crise, a quebra de preços e o excesso de oferta na União Europeia e em Portugal, o país passou de exportador de leite a importador”.

Da Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP), o seu vice-presidente, José Oliveira, também presidente da Leicar (Associação dos Produtores de Leite e Carne), aponta a “situação dramática” do sector agrícola português, que exige “medidas urgentes” por parte do Governo, com “mais de mil explorações leiteiras em falência”.

As críticas da Confagri (Confederação Nacional das Cooperativas Agrícolas) abrangem a acção “da Autoridade da Concorrência e da ASAE, no que se refere às anormais importações de leite, sem qualquer controlo, pelas grandes superfícies em claro boicote ao escoamento do leite da produção nacional”.

O secretário-Geral da Associação Nacional dos Industriais de Lacticínios (ANIL), Pedro Pimentel, referiu que os problemas são diferentes consoante a dimensão das explorações, mas “há dificuldades de escoamento relacionadas com a oferta ampla de matéria-prima”.

As dificuldades são “agravadas pela opção de algumas cadeias de distribuição por leite importado para as marcas próprias” e, com a entrada de produtos importados a preços baixos, a indústria enfrenta um outro problema relacionado com a rentabilidade, especificou.

O ministro da Agricultura, entretanto, afirmou que se viveu uma situação “anormal em 2008 com o aumento de 30 por cento dos preços e actualmente o mercado está a corrigir”. “Portugal já produz o suficiente para o total do consumo nacional e ainda exporta”, referiu, acrescentando que “a produção está 4,6 por cento abaixo da quota atribuída” pela UE.

Os agricultores “não compreendem porque a produção recebe 28 cêntimos o litro e os consumidores pagam 39 cêntimos em todas as superfícies comerciais”, especificou o ministro, garantindo que a ASAE está a analisar a situação.

O ministro convocou os grupos da grande distribuição para uma reunião com o objectivo de analisar a situação do leite, um tema que será debatido num conselho de ministros europeu extraordinário, a 07 de Setembro.

Segundo a ANIL, o aumento dos preços do leite iniciou-se nos primeiros meses de 2007 e atingiu um pico em Janeiro de 2008, com mais de 45 cêntimos por litro. Actualmente, o valor por litro de leite na produção ronda 25 ou 26 cêntimos. Dados disponibilizados pelo Ministério da Agricultura referem um mínimo de 27,54 cêntimos o litro em Abril de 2007, um máximo de 39,46 cêntimos em Fevereiro de 2008, valor que desceu até 28,04 cêntimos em Junho deste ano.

Portugal perdeu um terço dos produtores de leite
O número de produtores portugueses de leite caiu para um terço em dez anos, para cerca de dez mil, tendência que não foi acompanhada pela quantidade de leite produzida, uma vez que é suficiente para o consumo nacional. Dados do MADRP referem a existência de 11.400 produtores ou explorações na campanha de 2007/08, no Continente e Açores, contra 12.400 um ano antes.

Para a actual campanha, ainda não está disponível informação oficial, mas a FENALAC (federação que reúne as cooperativas do sector) avançou uma estimativa que aponta para cerca de 10 mil produtores, o que reflecte uma quebra de mais de mil num ano. No entanto, esta descida «não foi das mais acentuadas pois há 10 anos tinhamos 30 mil produtores», salientou o secretário-geral da Fenalac, Fernando Cardoso.

Nos Açores, onde o conjunto do sector representa 11 por cento do Produto Interno Bruto (PIB), as estimativas oficiais referem 3.600 produtores e uma produção de 550 mil toneladas por ano. A produção de leite «está estável nas 1.900 mil toneladas, a cinco por cento de atingir a quota atribuída» a Portugal.

Segundo Fernando Cardoso, os últimos dados disponíveis sobre a produção de leite, de Junho, revelam uma quebra de 0,4 por cento relativamente à campanha anterior. O ministro da Agricultura, Jaime Silva, disse que «Portugal já produz o suficiente para [responder] ao total do consumo e ainda exporta, nomeadamente para Espanha».

A crise provocada pela queda dos preços no produtor e pelo excesso de oferta na Europa está trazer problemas a muitos produtores e unidades industriais. O presidente da Leicar (Associação de Produtores de Leite e Carne), José Oliveira, disse que os agricultores «atravessam a mais grave crise que há memória, com mais de 1.000 explorações leiteiras em situação de falência». «Há ainda, neste momento, três mil agricultores em pré-falência», num universo de cerca de «sete mil que existem em Portugal continental», defendeu.

Da parte da transformação, o secretário-geral da ANIL (Associação Nacional dos Industriais dos Lacticínios), Pedro Pimentel, referiu à Lusa que são 50 a 60 as unidades com dimensão industrial, «num sector muito heterogéneo e, portanto, com problemas diferentes», consequência da dificuldade de escoamento. «Algumas empresas pequenas estão a trabalhar a 15 ou 20 por cento da sua capacidade» e correm «risco de fechar por inexistência de mercado», enquanto aquelas de maior dimensão «estão a acumular stocks», disse Pedro Pimentel.

Leite ‘derramado’ entre produtores e Governo
O leite azedou de vez. Governo e produtores não se entendem quanto à política para o sector. Ao longo da semana, as hostilidades e a guerra de palavras entre as duas partes foram num crescendo, até que na quinta-feira, durante uma manifestação na Póvoa de Varzim, os produtores de leite exigiram a demissão de Jaime Silva, ministro da Agricultura, que reagiu dizendo que não está “agarrado” ao lugar.

Tudo começou ainda no final da semana passada quando, em entrevista ao “Jornal de Negócios”, Jaime Silva dizia taxativamente que “três mil produtores de leite vão desaparecer a curto prazo”. Estas palavras caíram como gasolina sobre a fogueira que já estava acesa e ia aquecendo os ânimos exaltados dos produtores de leite, que há algum tempo vêm acusando o ministro de ignorar o sector.

Segundo a Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP), há, de facto, “mais de mil explorações leiteiras em situação de falência”. Mas, de acordo com um dirigente desta confederação, “o ministro nunca pode dizer que três mil produtores estão condenados a fechar. Deve, isso sim, fazer tudo para que isso não aconteça”.

Jaime Silva tentou reunir na quarta-feira com o sector, mas acabou por ter à mesa apenas a Associação de Jovens Agricultores do Distrito do Porto (AJADP). A Federação Nacional das Cooperativas de Leite em Portugal (Fenalac) e a Associação de Produtores de Leite e Carne (Leicar) recusaram o convite por considerarem pouco digna a forma como foram contactadas. E não quiseram ser “coniventes com uma encenação mediática sem qualquer impacto na melhoria da situação dos produtores de leite”.

Já a Associação Nacional dos Industriais de Lacticínios (ANIL), cujos associados transformam mais de noventa por cento do leite produzido em Portugal, não foi convidada, tal como a Confederação Nacional das Cooperativas Agrícolas (Confagri).

Fonte: Anil

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