Preço da comida vai continuar a aumentar

“O tempo da comida barata acabou”. A frase pertence ao presidente do maior grupo de retalho alimentar português, Alexandre Soares dos Santos, e foi dita na apresentação dos resultados de 2007 do grupo Jerónimo Martins, em finais de Fevereiro.

E diz bem da nova era que o mundo se prepara para enfrentar, em que os bens que o homem vai buscar à terra são insuficientes para alimentar a população crescente. O que tem levado a uma subida em espiral dos preços, que começa nos grandes mercados internacionais e chega às prateleiras dos supermercados.

O preço da grande maioria das matérias-primas tem subido de forma consistente desde 1999. O ano de 2007 foi dos mais violentos, com aumentos radicais em vários bens, em especial os agrícolas. Uma tendência ditada pela crescente procura, sobre tudo das populações nas economias emergentes, mas também de indústrias, como as dos combustíveis, para o fabrico de carburantes alternativos ao petróleo.

As matérias-primas agrícolas são ainda alvo da gula de investidores, que vêem nesse equilíbrio entre oferta e procura uma oportunidade de rentabilização das suas poupanças, contribuindo também para o aumento dos preços.

O trigo, por exemplo, valorizou 66 por cento em 2007 no mercado de futuros de Paris, que serve de referência a Portugal. Este ano soma mais 11,6 por cento. No produtor, em Portugal, o INE contabilizou em 33,5 por cento o aumento já verificado em 2007. Uma subida que ainda não está totalmente reflectida nos preços cobrados ao consumidor. Ainda assim, as subidas têm sido expressivas (…).

Outro preço que ainda não foi reflectivo à distribuição, mas o será nos próximos 12 meses é o do café, que deverá subir 10 por cento durante este ano, ainda assim abaixo da subida de 30 por cento que a matéria prima já valorizou.

No leite, explica Pedro Pimentel, da ANIL, a progressão nas marcas próprias da distribuição passaram já de 40/50 cêntimos no início de 2007 para 60 cêntimos por litro um ano depois. Nas marcas comerciais standard, o consumidor deverá estar a pagar mais três cêntimos, na casa dos 66/67 c
cêntimos.

Aumentos vão continuar
As grandes casas de investimentos fizeram os seus prognósticos para 2008 e a conclusão foi unânime: este será mais um ano de fortes subidas nos mercados de futuros, especialmente no reino agrícola. Segundo o Commerzbank, os preços das matérias primas agrícolas deverão subir mais dois ou três anos. “Este ciclo é muito jovem, nem sequer tem dois anos quando comparado com outros sectores, como os dos metais industriais, metais preciosos ou energia”, afirmou à Bloomberg uma especialista daquela instituição.

No curto a médio prazo, os preços até podem descer, caso uma recessão nos EUA contamine a a economia global, provocando uma diminuição no consumo. Na última semana, o conjunto das ‘commodities’ registou o pior desempenho semanal dos últimos 52 anos nos mercados internacionais. Mas os factores que sustentam a subida a longo prazo mantêm-se inalteráveis.

Pedro Queiroz, da FIPA; reconhece “muita preocupação” de todo o sector, “acima de tudo na disponibilidade” das matérias primas. Mas tem esperança que 2008 comece a aliviar a pressão sobre a indústria. Mais pessimista, Manuel Tarré, da ANCIPA; diz que os efeitos de 2007, o ‘pior’ dos últimos quinze anos, vão durar: “margens deterioradas”, insolvência e fecho de empresas.

Ainda vai pagar mais pelo seu pequeno-almoço
Não desanime, mas é possível. A questão é que alguns dos efeitos internacionais ainda não se reflectiram por completo nos preços na distribuição alimentar (…) No leite, explica Pedro Pimentel, o problema hoje já não é de escassez, como em Outubro e Novembro, mas também “a tendência não é para a estabilização”, depois de um aumento que deverá ter rondado os cinco por cento (marcas mais elevadas) e superado os 30 por cento nas marcas próprias.

A comida barata acabou
Lacticínios: “Se Portugal fosse uma ilha” explica Pedro Pimentel, a produção de leite “cru” ‘chegaria para o consumo’ no país. Mas não o é, o que quer dizer que sempre que Espanha, ‘altamente deficitária’ bate à porta de França, ‘excedentária’, e vem de mãos vazias, é o consumidor português que paga. A procura faz com que os preços subam para toda a gente e para a fileira: manteiga, queijo, iogurtes, etc (…)

Por que sobem as matérias primas agrícolas
Maior procura nos mercados emergentes: a crescente procura por parte das economias emergentes, como a China e a índia, bem como a menor oferta, têm pressionado os preços. À medida que os consumidores asiáticos vão alterando a sua dieta alimentar, consumindo mais carne, leite, óleos e gorduras, mais cereais se destinarão a alimentar cabeças de gado e porcos, ajudando às pressões sobre a oferta.
Especulação: com os menores retornos nos mercados de acções e outros activos, os investidores refugiaram-se nas ‘commodities’.
Produção de biocombustíveis: a crescente utilização de ‘commodities’ agrícolas na produção de biodiesel e de bioetanol inflaciona a menor ‘fatia’ que segue para o mercado alimentar.
Condições climatéricas: períodos de seca ou de inundações reduzem as colheitas e, consequentemente, a oferta no mercado
Aumento do custo da energia: a subida dos preços da energia afecta toda a cadeia de valor da produção alimentar, desde os fertilizantes às colheitas, passando pelo armazenamento e pela distribuição.

Disparo nos mercados dita aumentos nas prateleiras
Leite de consumo
Valorização no mercado de futuros em 2007: + 52,23% (em 2008 já cedeu 12,25% na bolsa de Chicago)
Aumento do preço no produtor em 2007: + 35/50% (intervalo dado pela ANIL para a subida junto da produção)
Inflação homóloga em Jan.2008 (INE): +14,1% (desde Out.2007 que sobe a um ritmo de dois dígitos)
Consumo por habitante em Portugal: 95 litros (a produção nacional ‘cobre’ em condições normais o consumo)
Os factores que determinam a evolução dos preços: quando se fala em cotação internacional do leite., é de leite em pó de que se fala. Portugal está, explica Pedro Pimentel, ‘salvaguardado desta realidade’, que serve somente de ‘guião’, mas isso não melhora a sua condição. No território nacional, o leite ‘cru’ seria em teoria suficiente para satisfazer as necessidades de consumo. Contudo, a procura externa acaba por, n uma determinada situação, num determinado conjunto de produtores e às vezes numa só região, condicionar toda a restante negociação no país.(…)

Fonte: Anil

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