A subida do preço de produtos alimentares já está a ter efeitos no consumo. Os portugueses estão a comprar menos pão e leite, dois bens de primeira necessidade que registaram fortes aumentos de preço no último ano.
O leite, que aumentou 14% nos últimos 12 meses (de acordo com o Instituto Nacional de Estatística – INE), sofreu uma quebra na produção de 3,6%. “Não quer dizer que a redução no consumo seja exactamente deste valor, mas sendo um produto de pouca duração a produção acompanha as flutuações do consumo”, afirmou ao DN Fernando Cardoso, secretário-geral da Federação Nacional das Cooperativas de Produtores de Leite (Fenelac).
O responsável acrescentou que embora não tenha indicadores rigorosos, há indícios de uma “quebra ligeira” nas vendas. Actualmente o consumo per capita em Portugal ronda os 89 litros (por ano).
Apesar do aumento de preço ao consumidor final tenha sido de 14% (nas marcas de leite “comerciais”), Fernando Cardoso sustentou que o custo do leite para os produtores sofreu um agravamento 40%. “Existe um grande esmagamento das margens”, sublinhou o empresário.
Enquanto o preço do litro de leite ao consumidor subiu de 59 cêntimos para 67 cêntimos, na produção o aumento foi de 33 para 44 cêntimos.
No caso do pão, os sinais de consumo são os mesmos: quebra nas vendas. “O consumo está muito retraído, as pessoas fazem contas para comprar carcaças e não existe compra por impulso”, sustentou ao DN Carlos Alberto Santos, presidente da Associação do Comércio e da Indústria de Panificação, Pastelaria e Similares.
A tendência do preço deste produto continua a ser de alta e Carlos Santos mantém, assim, a previsão dos aumentos chegarem aos 50% este ano. “A escalada dos cereais, o aumento dos combustíveis e a subida dos juros está a aumentar muito os custos das empresas”.
No sector da carne de bovino e suíno, o cenário é diferente. O aumento do preço das rações, fruto da escalada dos preços dos cereais, não está a ser reflectido aos consumidores, o que leva a que a carne seja vendida abaixo do preço de custo. Uma situação que está a espalhar falências pelo País e a levar ao encerramento de explorações.
Aníbal Silva, presidente da Associação Nacional de Engordadores de Bovinos adiantou que “qualquer dia não há produtores de carne nacionais”, acrescentando que “o único produto que não está a reflectir a subida dos cereais é a carne”.
O responsável explicou que “há muitos produtores a venderem os seus animais por não conseguirem suportar os custos. Vão abandonar a actividade, é uma situação de desespero”. Por outro lado, como “há muita carne disponível no mercado, não é possível aumentar os preços ao consumidor”. Aníbal Silva frisou que a crise foi gerada pela União Europeia, devido sobretudo à política dos biocombustíveis. “Os cereais que deviam ser usados na alimentação estão a ser usados na energia.”
Em relação ao arroz, os consumidores já estão a sentir a subida de preço. O quilo passou de 70 cêntimos, em média, em 2007, para 80 cêntimos, este ano. Para o futuro, as perspectivas são de agravamento, podendo o quilo deste produto chegar a um euro, de acordo com a Associação Nacional dos Industriais de Arroz (ANIA).
Pior do que a subida de preço é o risco do arroz ser racionado, algo que está a acontecer na cadeia americana Sam’s Club, do gigante Wal-Mart, e nas lojas inglesas Tilda.
Em Portugal, a situação já é preocupante porque há menos arroz disponível no mercado, mas ainda não há racionamento, tal como o DN noticiou na edição de sexta-feira. Contudo, isso poderá ocorrer se a Tailândia restringir as exportações.
Portugal produz arroz tipo carolino para o mercado interno, mas tem de importar todo o arroz agulha que é consumido (80 mil toneladas/ano). O racionamento nas vendas nos Estados Unidos e em Inglaterra está a afectar sobretudo o mercado grossista, embora o secretário-geral da ANIA considere que este é um sinal de alerta muito importante.
Fonte: Diário de Notícias
Segurança Alimentar Desde 2004 a tratar da Segurança Alimentar em Portugal