Portugal vai viver novo ano de seca

“Nestas férias, não deixe a água a correr…” A mensagem, assinada pela “Comissão da Seca 2005” e repetida em pleno Janeiro de 2006 na gravação de espera no atendimento telefónico do Instituto da Água, parece estranha. Pelos vistos, não se trata de distracção dos serviços técnicos. “O INAG ainda não declarou que a seca 2005 acabou”, assinala o presidente do instituto, Orlando Borges. Hoje, o ministro do Ambiente apresenta o balanço da seca em 2005.

Os últimos dados sobre a percentagem de território atingido pela seca não deixam dúvidas em 31 de Dezembro – pleno Inverno – 83% do continente estavam atingidos por seca fraca e 1% em seca moderada. E 2006 pode limitar-se a prolongá-la.

O INAG – e com ele as comissões da Seca e de Gestão de Bacias, entre outros organismos – “assume já que o ano vai ser seco” e está “a trabalhar nos cenários mais pessimistas e ainda não pararam de fazer relatórios”, assegura Orlando Borges. Os níveis das albufeiras não deixam descansar.

Fazer reservas

O último relatório da seca (31 de Dezembro) deixa claro que a generalidade das entidades responsáveis por abastecimento público com problemas de disponibilidade nas origens mantém medidas de contenção de consumos (campanhas de sensibilização, redução de pressão na rede, cortes esporádicos, entre outros), procurando reservar “os volumes de água necessários para garantir o abastecimento até ao final de 2006”.

O cenário não é famoso. Das 57 albufeiras monitorizadas pelo INAG, sete estavam acima de 80% do seu volume útil, mas 16 estavam abaixo dos 40%. De um modo geral, os níveis de armazenamento em Dezembro eram inferiores às médias do mesmo mês no período 1990/2000. Só o Tejo é excepção.

A situação é particularmente grave no Nordeste transmontano, onde concelhos como Carrazeda de Ansiães, Vila Flor, Moncorvo e Alfândega da Fé dispõem de água apenas até ao final de Fevereiro, receia o presidente do INAG, embora as entidades locais trabalhem em soluções (ver página seguinte).

Embora haja quem prefira dar até Abril uma oportunidade ao clima, Fevereiro é o mês decisivo, pois o que acontecer até lá, tanto em termos de precipitação como de temperatura, é que vai determinar a necessidade de medidas excepcionais e até as indicações a dar aos agricultores sobre a oportunidade – ou a possibilidade – de fazerem determinadas culturas.

Receia-se o prolongamento das condições adversas de 2005, que o Instituto de Meteorologia já disse ter sido o ano com o valor mais baixo de precipitação desde 1931 e com a seca mais grave dos últimos 60 anos.

De facto, durante sete meses consecutivos, a maior parte do território encontrou-se nas situações de seca severa ou extrema (infografia), que atingiram durante dez a onze meses zonas no litoral Norte e da região Centro e parte do Alentejo.

Estratégia de formiga

Com uma variação temporal e espacial nas precipitações (a precipitação média anual no Minho é de três mil milímetros e de 400 mm no Alentejo, havendo anos muito secos e anos muito húmidos), o que fazer? “Como a formiga reservas de água no Inverno e nos anos húmidos, para usar em anos secos”, receita Teresa Leitão, presidente da Associação Portuguesa de Recursos Hídricos.

Mas, avisa, “se é necessário fazer mais barragens – avaliando bem os seus impactos económicos, sociais e ambientais -, também é importante usar melhor a água”. Trata-se de melhorar a eficiência em usos como a agricultura, que responde por 87% dos 7,5 quilómetros cúbicos de água que se consome por ano, sendo também responsável pelo desperdício de 2,7 Km3.

Em termos globais, a agricultura gasta de forma a ter proveito 58% da água que consome, um nível de eficiência semelhante ao desempenho global dos sistemas urbanos, que, nalguns casos, chegam a ter perdas de 40 e 50%. Por sua vez, a indústria apresenta uma eficiência de 71%.

Somadas, as perdas de água – o “recurso invisível”, nas palavras de Orlando Borges – são um peso importante, assinala Teresa Leitão, sublinhando que o seu valor equivale a 1,65% do Produto Interno Bruto (ver números).

O Programa Nacional para o uso Eficiente da Água aponta o aumento da eficiência, nos próximos dez anos, para os 66% na agricultura, 80% no consumo urbano e 84% na indústria.

Fonte: JN

Veja também

Consumo de café aumenta resposta ao tratamento da hepatite C

Os pacientes com hepatite C avançada e com doença hepática crónica que receberam interferão peguilado …