Portugal sem unidades de produção de bioetanol?

Milho mais caro que nunca e países sem cereais para matar a fome às suas populações podem travar projectos industriais à escala europeia. Já se defende o fim dos biocombustíveis. As quatro unidades de produção de bioetanol a partir de cereais em Portugal poderão não chegar a iniciar a sua actividade.

A convicção é de Jaime Silva, ministro da Agricultura, do Desenvolvimento Rural e das Pescas, que invoca não apenas os elevados preços a que chegaram alguns cereais (com destaque para o milho, que passou de 120 euros por tonelada para 260 euros nos últimos dois anos), mas acima de tudo porque é preciso não esquecer que “há problemas sérios com a alimentação humana em alguns países, e isso não pode ser ignorado”. Naturalmente, ainda segundo o ministro, a última palavra caberá sempre aos investidores, “mas penso que já perceberam que esta não é a altura ideal para avançar com os seus projectos”.

Jaime Silva questiona mesmo se a nível europeu devem ser mantidas as metas de incorporação de biocombustíveis, que apontavam para 10% em 2020. Explica que na produção de biodiesel pode não haver problemas, pois depende da soja e do girassol, que há em abundância, mas, “no etanol, a questão é problemática a nível europeu e pode mesmo parar”.

Dá como exemplo Espanha, que tem uma fábrica em dificuldades e outra acabada de construir mas parada. Fala do recuo da Alemanha e do desinteresse da Itália – e também dos países do Norte da Europa – pelo assunto. “Exceptuando a França, que é excedentária em cereais, mais nenhum Estado tem condições para produzir etanol. Mesmo que se registasse uma forte aposta na cultura de milho transgénico, que tem níveis elevados de produtividade”, sublinha.

A contestação à produção de combustíveis a partir de bens alimentares tem vindo a subir de tom a nível global, com os representantes do Banco Mundial, do Fundo Monetário Internacional (FMI) e da ONU a apelarem veementemente aos governos do mundo desenvolvido para colocarem um ponto final nesta opção energética.

15,7 mil milhões de euros em 2007
A revista ‘Time’ da semana passada dedicava a capa ao assunto, assim como o jornal britânico ‘The Independent’ do dia 15 de Abril, entre outras publicações mundiais de referência, que ao longo dos últimos meses têm questionado insistentemente a razoabilidade desta escolha.

Mas a verdade é que, segundo um estudo publicado em Março pela consultora Clean Edge Inc, em 2007 o mundo investiu 15,7 mil milhões de euros na produção de biocombustíveis, e a estimativa desta empresa para 2017 é para que os investimentos nos biocarburantes ascendam aos 51 mil milhões de euros.

Além dos números, há relatos quase diários de insurreições populares em vários países devido à falta de alimentos. “Muitos desses países têm sobrevivido fundamentalmente na base da ajuda alimentar da União Europeia (UE) e dos Estados Unidos da América. E não creio que a UE queira abandonar essa política de apoio”, diz o ministro da Agricultura. “Penso que, temporariamente, a UE não poderá reforçar o apoio à produção de biocombustíveis”, acrescenta.

Jaime Silva reforça a ideia de que o Governo português, no quadro da UE, não deixará de ser sensível em apoiar a Comissão Europeia na sua política externa e nas suas obrigações num quadro mundial: “Portugal não pode ignorar, por exemplo, que estamos a falar de um problema que afecta muitos países, como Moçambique, Angola ou Guiné”.

Isto quer dizer, segundo o governante, que mesmo que em Portugal se consiga manter a meta dos 10% de incorporação de biocombustíveis em 2020 – por via do investimento no biodiesel -, a nível europeu tem de haver outra flexibilidade na análise do problema, para que não se deixem alguns países africanos em situações embaraçantes.

Etanol traz problemas éticos e morais
Fundamentalmente, para o ministro da Agricultura, tem de se fazer uma distinção clara entre o que são cereais indispensáveis para a alimentação humana, como os que se usam na produção do pão, e os restantes. Os que dão origem ao biodiesel (principalmente soja, girassol e óleo de palma), reforça o ministro, não trazem problemas às populações, mas “na lógica do etanol pode dizer-se que há um problema ético e moral”, que poderá obrigar a UE a repensar a meta dos 10%. O responsável pela pasta da Agricultura considera que a UE devia dar a cada Estado-membro a possibilidade de rever as suas próprias metas para os biocarburantes.

Quanto à escalada de preços nos cereais, estima que não aconteceu tanto pela utilização que a Europa fez deles para produzir etanol mas antes porque houve uma forte descida na produção – pela primeira vez depois da Segunda Guerra Mundial, a Europa foi deficitária em cereais – e, por outro lado, porque se deu um enorme aumento no consumo a nível mundial.

No entanto, o que baralhou por completo a equação foi o aumento do consumo de milho por parte dos EUA – o principal exportador mundial – para os biocombustíveis.

Fonte: Anil

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