Portugal é o país dos líquidos e do morango

Visitar uma fábrica de iogurtes, sobretudo para os apreciadores de lacticínios é uma espécie de anti-climax: vêem-se tubagens, reservatórios, computadores. Só no final, quando se está a dois passos das arcas frigoríficas se vislumbra algum leite e iogurte.
É assim a fábrica da Danone de Castelo Branco, ampliada este ano e considerada uma das cinco melhores do grupo. Estava um camião acostado, a descarregar leite, quando começámos a percorrê-la. Incontáveis ramos metálicos, por cima e por baixo do chão, ligam misteriosamente a cisterna aos reservatórios onde o leite será testado, estabilizado, pasteurizado, desnatado.

Controlada por computador, esta versão ‘light’ será a base dos 90 produtos que, dias depois, sairão, embalados, do outro extremo do edifício: iogurtes líquidos e sólidos, de sabores vários, com aditivos ou não, com ou sem nata, fermentados dentro ou fora da embalagem; ou leites fermentados, nome dado ao resultado da adição de quaisquer bactérias além das duas que, juntas, dão origem a iogurte.

Entre os cais – de entrada do leite e de saída do produto final – é pouca a intervenção humana. São 120 os trabalhadores na fábrica, que transforma entre 130 e 140 milhões de litros de leite em 60 mil toneladas de iogurte e leite fermentado, por ano. Um décimo, acabará em lojas espanholas; o resto, em particular os iogurtes líquidos (uma preferência particular do gosto lusitano) não para a fronteira.

O consumo tem aumentado exponencialmente e ainda tem espaço para crescer, acredita Bruno Fromage, presidente da Danone Portugal, a líder de mercado. A Lactogal, a maior empresa de lacticínios do país e a associação do sector concordam. Pedro Pimentel, secretário geral da ANIL, invoca a “cada vez maior preocupação com a saúde” para justificar acreditar que o “mercado continuará a crescer”.

“A saúde constitui o ADN do nosso negócio”, considera Bruno Fromage. Na Lactogal, “os magros e os funcionais já pesam mais de 20 por cento” no seu negócio de iogurtes, adiantou Maria João Godinho, gestora da categoria de iogurtes da empresa. Em causa estão produtos sem lactose ou com adição de cálcio, por exemplo.

Produtos como estes, de maior valor acrescentado, passam agora tempos mais complicados, trazidos pela crise económica. A quantidade de iogurte vendido até subiu, mas não o valor. “O mercado está a crescer 7 por cento em volume e encontra-se estagnado em valor”, diz Bruno Fromage. Ou seja, os consumidores estão a comer e a beber tanto iogurte como antes, mas escolhem os mais simples e os mais baratos. Como os de marca branca: quatro em cada dez iogurtes vendidos são da marca das grandes superfícies que, todas juntas, são líderes de mercado, estima Pedro Pimentel.

Eventualmente, contudo, as vendas voltarão a crescer, acreditam as empresas. Essa expectativa justificou a expansão da fábrica de Castelo Branco da Danone. Para um leigo, só o enorme tamanho dos reservatórios onde o iogurte é fermentado deixa entrever a quantidade de produto lá fabricado. Isto para os iogurtes líquidos ou para os sólidos batidos.

Há uma terceira versão, mas só nos apercebemos dela já perto do fim da fábrica: a dos sólidos fermentados já dentro da embalagem. A maquinaria mistura tudo: o leite-base, os aromas, as bactérias… É aqui, aliás, que o visitante vê, de facto, algum leite. Depois, a linha de montagem fecha a embalagem, cola o papel onde se diz de que iogurte se trata, agrupa numa embalagem de quatro e leva até à estufa a 40º Celsius, onde se dá a fermentação. O resultado é um iogurte com a consistência de um pudim, bem diferente do batido, fermentado antes de ser injectado na embalagem.

O destino final é, depois, o mesmo: o frio, que quase suspende a fermentação e que justifica a recomendação de todos os fabricantes: deve ser consumido dentro do prazo de validade, para manter as características de sabor e textura “prometidas” pelo vendedor.

Fonte: Anil

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