Portugal cada vez mais dependente

É uma inevitabilidade. Por mais que tal custe a admitir, Portugal jamais será autossuficente em produtos alimentares. No caso dos cereais a gravidade é de tal ordem que, este ano, a nossa dependência face ao exterior deverá andar na casa dos 80%. Em 2009 não foi tão mau, mas igualmente preocupante: da ordem dos 75%.

A quebra na produção no ano passado já foi de 40% face a 2008. Ou seja, temos vindo a piorar de ano para ano. Na campanha que se aproxima agora do fim, o principal fator inibidor foi o excesso de chuva, visto que em certas zonas do Alentejo chuveu o dobro do que é normal e isso acabou por atrasar ou mesmo arrasar algumas sementeiras. “Tal como se diz no Alentejo, ‘este ano a fome vem de barco’, precisamente devido às chuvas intensas que marcaram todo o inverno e não só”, nota Bernardo Albino, presidente da Associação Nacional de Produtores de Cereais (ANPOC).

“Ou há uma inversão na atitude dos agricultores e na política para o sector, ou dentro de cinco/dez anos isto acaba”, afirma, com a revolta estampada no rosto.

Balança agrícola desequilibrada
Porque é que tem de ser assim? “Andámos anos a fio a desincentivar o investimento na agricultura em geral e nos cereais em particular, porque dominava a ideia de que podíamos comprar tudo ao exterior. É verdade, assim como também é o desequilíbrio na balança comercial dos produtos agrícolas, que ronda os três mil milhões de euros anuais”, sublinha António Serrano, ministro da Agricultura.

Isto podia ser evitado ou atenuado? “Podia, se não se tivesse dito tantas vezes que a aposta de Portugal devia ser nos serviços e na indústria (que também está em queda). E, afinal, agora concluímos que a agricultura é fundamental. Nenhum país pode passar sem agricultura”, nota o ministro. A verdade é que muita gente abandonou o sector, que cada vez tem menos jovens e que cada vez atrai menos investimento. “Mas queremos inverter esta situação, só que estamos a partir de um ponto muito negativo”, acrescenta o ministro.

O Expresso desafiou-o a confrontar os produtores de cereais no meio de uma seara de trigo-duro, para ouvir da boca deles os problemas que afetam o sector. Como a agenda do ministro não nos permitiu ir assistir às ceifas no Alentejo, marcámos encontro na Quinta do Zé Pinto, em Campolide, quase no meio de Lisboa, ao meio-dia da passada terça-feira.

“Para se ter uma ideia do alheamento que há face aos cereais e à agricultura em geral, basta dizer que recebemos aqui crianças de escolas, mesmo do meio rural, que pensam que os cereais se fazem numa fábrica”, sublinha o presidente da ANPOC.

“Temos andado todos muito distraídos disto. Mas é urgente convencer os portugueses de que temos de apoiar os produtos nacionais e a nossa agricultura, nomeadamente nos produtos menos competitivos, como é o caso dos cereais. Até por uma questão de soberania e segurança alimentar, diminuindo o grau de dependência do exterior”. António Serrano está convencido de que isto é mesmo uma questão cultural que urge alterar, para bem do próprio país.

Céu geralmente nublado
O céu, praticamente coberto de nuvens, parecia ensombrar o tema da conversa, pois quase só se falava de coisas negativas. Havia uma pergunta que se impunha: mas, afinal, produzir cereais é um bom negócio? Bernardo Albino fala de uma certa dose de paixão e de algum amor ao ofício, “mas, atenção: os bons negócios são os que remuneram o investimento. Somos patriotas mas não investimos apenas por amor à pátria”. E acrescenta que nesta, como noutras áreas, os bons negócios têm de ser vistos num prazo dilatado. “Este ano, por exemplo, é fatal, tanto em termos de qualidade como de quantidades, mas já houve outros bons, como o de 2008”.

Numa onda mais optimista, Bernardo Albino — que insiste em dizer que não quer subsídios do Governo, apenas a definição de uma estratégia clara para o sector — garante que Portugal pode perfeitamente, com o regadio de Alqueva, duplicar a produção actual de cereais. Ou seja, reduzir a dependência do exterior dos atuais 80% para 50%. “É viável, exige algum investimento em investigação e em tecnologia, mas estamos dispostos a isso. Temos é de ter um ministro que nos diga se isto é estratégico para o país ou não, e se está disposto a criar um clima propício ao investimento. Porque durante os últimos anos, com Jaime Silva, tivemos apenas oposição”, dispara Bernardo Albino.

O destinatário esfrega alguns grãos de trigo-duro que tem numa das mãos e responde de imediato: “Para nós, este é um sector estratégico. Temos de apoiar todos os bons projectos, é para isso que cá estamos. Assim haja quem queira investir”.

Fonte: Anil

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