Pescadores à beira da miséria

Os pescadores mais antigos não se lembram de um ano tão mau como este. E a culpa, dizem, é da seca que se tem feito sentir, porque “os peixes gostam de água doce”.

Em Caminha e Vila Nova de Cerveira, os mais de 400 homens que pescam no rio Minho e no mar não sabem como vão sobreviver, pagar as rendas e alimentar as mulheres e os filhos até ao próximo Inverno.

E o mais grave é que, só na vila de Caminha, há mais de cem famílias a viver exclusivamente da pesca. Para estas, não pára de aumentar o ‘rol do fiado’ nas mercearias e minimercados do Bairro dos Pescadores.

Estêvão Silva, presidente da Associação dos Pescadores do Rio Minho e do Mar (APRMM), disse ao Correio da Manhã que “a situação está muito complicada porque, devido à seca, o ano foi o pior de que há memória. No entanto, teria sido bem melhor se a barra fosse desassoreada como reclamamos há mais de duas décadas”.

Diz este responsável, pescador há mais de 40 anos, que o assoreamento do estuário do rio Minho “tem causado prejuízos incalculáveis aos pescadores da região e nenhum Governo se tem preocupado seriamente com isso”.

“Sabe que, o amontoar de areias na foz do rio prejudica a navegabilidade mas, sobretudo, dificulta a entrada e reprodução de várias espécies piscícolas. É o caso da lampreia, da enguia, do sável e de muitos outros peixes que gostam de águas mais profundas”, disse Estêvão Silva, sublinhando que “o ministro do Ambiente prometeu avançar com dragagens a sério no mês de Setembro. Se não o fizer, seremos muito violentos nos protestos”.

“MAIS FÁCIL COM DOIS REMOS”

A situação dos pescadores em Caminha só não é de miséria extrema porque, na maioria dos casos, enquanto o homem sai para o mar, a mulher trabalha e aufere um vencimento. Se assim não fosse, dizem os homens do mar, “havia muita gente, mas muita mesmo, a passar fome”.

“Isto com dois remos, isto é, o homem a remar no mar e a mulher a remar em terra, ainda se vai levando. As famílias que só têm o remo do mar, estão a passar um mau bocado”.

E convém sublinhar que esta é a altura pior para os pescadores do Vale do Minho. O peixe é pouco, tanto no rio como no mar. As safras de mais lucro, como a da lampreia, por exemplo, ocorrem em pleno Inverno (entre Janeiro e Abril). Ora, este ano, a chuva não caiu e a lampreia não entrou no rio.

Assim, sem os ganhos habituais, os pescadores não puderam saldar as dívidas do Verão de 2004. A esperança é de que o próximo Inverno seja excepcional e que os ganhos sejam suficientes para pagar as dívidas do ano passado e deste ano.

Outra das queixas dos pescadores prende-se com a volatilidade do preço do peixe. “Se pescarmos muito, baixa logo o preço”, diz um pescador.

LUTA POR DESASSOREAR O RIO

Estêvão Silva, de 52 anos e com mais de 40 de pesca, “porque naquele tempo começava-se a trabalhar mal acabava a 4.ª classe”, é hoje o rosto da luta dos pescadores do rio Minho e do mar. E a maior de todas as reivindicações continua a ser o desassoreamento do estuário do rio Minho.

“Isto é uma luta de décadas e nós não vamos desistir enquanto não for feito aqui um trabalho em condições, como acontece no rio Lima, onde mais de 300 famílias pescam o seu sustento sem dificuldades”, disse Estêvão Silva, lembrando que o desassoreamento tem de incidir em todo o estuário e deve estender-se “duas milhas para dentro do mar”.

DESIGUALDADE COM ESPANHÓIS

Uma das queixas permanentes dos pescadores de Caminha é a desigualdade a que estão sujeitos, em termos de legislação, em relação aos colegas espanhóis.

E uma das diferenças mais significativas prende-se com o facto de, no mesmo espaço, que é o troço internacional do rio Minho, os espanhóis poderem pescar uma pessoa em cada barco e os portugueses terem de andar dois por embarcação.

“Isto é uma enorme injustiça, porque assim eles conseguem ganhar o dobro”, diz Paulo Silva, lamentando o “desinteresse total das nossas autoridades em relação a esta matéria”. E não se pode facilitar, porque a Polícia Marítima actua com frequência e obriga ao cumprimento da lei.

PEIXE BARATO E DE QUALIDADE

O mercado do peixe de Caminha é o local de escoamento de boa parte do fruto do trabalho dos pescadores da vila. Alguns até são casados com vendedoras de peixe. Duartina Castro leva mais de 20 anos atrás da banca e diz que “o peixe do nosso rio e do nosso mar tem uma qualidade excepcional e continua bastante barato”.

Dizem as ‘peixeiras’ que o peixe é talvez o único produto que não conhece aumentos há mais de uma década, assegurando que quando a pescaria é boa, dada a quantidade, o preço até acaba por descer. “Vai dando para viver, mas não é nada fácil”, conclui Duartina Castro.

REGISTOS

LINGUADO MAIS CARO

Das mais de vinte espécies que se pescam no rio Minho e no mar ao largo de Caminha, a mais cara de todas é o linguado, que chega a custar mais de 20 euros o quilo. Um dos mais baratos é polvo, que raramente chega aos seis euros. Ao consumidor chegam muito mais caros.

LAMPREIA É ABONO

Às vezes chegam a vendê-la a 7,5 euros a unidade, quando nos restaurantes custa sempre mais de 50. No entanto, a lampreia é, por assim dizer, o abono de família dos pescadores desta região. Alguns chegam a pescar mais de 400. É também um ‘ex-líbris’.

MEIXÃO PROIBIDO

É proibido, mas altamente tentador. Esta enguia minúscula a que chamam meixão chega a render ao pescador a astronómica quantia de 450 euros o quilo. É por isso que esse é o principal alvo das acções de prevenção das autoridades policiais, que defendem a espécie.

UM RIO, DOIS PAÍSES

O rio Minho é o que conta com o maior troço internacional dos rios portugueses. São 74 quilómetros entre a ponta norte de Melgaço e a foz em Caminha. Mas passa ainda pelos concelhos de Monção, Valença e Cerveira. Dá de comer a muita gente.

Fonte: Correio da Manhã

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