A obesidade é uma «epidemia global» que pode destruir os sistemas de saúde pública, defendeu um especialista espanhol no âmbito das Conferências sobre «Novas Patologias», que decorrem em Lisboa.
Professor de Medicina da Faculdade de Santiago de Compostela (Espanha), Felipe Casanueva afirmou durante a conferência «Obesidade:
O Grande Desafio» que esta condição «afecta cerca de mil milhões de pessoas em todo o mundo e representa um dos mais graves problemas de saúde pública».
A obesidade «tem finalmente de ser percebida como um problema gravíssimo, que num futuro próximo pode vir a destruir o sistema de saúde pública», sublinhou.
Segundo o especialista, o aumento drástico da obesidade na população mundial, especialmente em jovens e crianças, «deve-se as mudanças sócio-económicas» registadas nas últimas décadas.
«O aumento da obesidade resulta de uma redução dramática na actividade física, da ingestão exagerada de alimentos e bebidas altamente energéticos», ou seja, «de mudanças nos comportamentos alimentares e estilos de vida», afirmou o especialista espanhol.
Segundo o investigador, «o fenómeno – generalizado na Europa e no mundo – tende a agravar-se», sendo que em Espanha mais de metade da população (cerca de 53% das pessoas) «sofre de excesso de peso».
«A obesidade deve ser considerada uma epidemia global», frisou Filipe Casanueva, acrescentando que «dados recentes demonstram que na maioria dos estados norte-americanos, uma em cada quatro pessoas sofre de obesidade».
Na Europa, acrescentou, «morrem semanalmente cerca de 1.000 pessoas devido a doenças ligadas à obesidade».
«A obesidade não é simplesmente um problema cosmético, é um risco grave para a saúde, porque se encontra claramente associada a doenças cardiovasculares, à diabetes, à hipertensão, a doenças pulmonares e cancerígenas», frisou.
Este problema é, segundo Casanueva, agravado através dos «resultados desanimadores das terapêuticas» destinadas aos obesos e à «deficiência dos medicamentos».
«Para mais de 90% das pessoas com obesidade, o exercício físico, as dietas, as mudanças nos hábitos de vida e os medicamentos existentes não são eficazes» disse.
«Tudo isto demonstra o pouco conhecimento que temos acerca dos mecanismos complexos que controlam a ingestão de alimentos no organismo», afirmou o espanhol.
Para este especialista, «a única forma» de controlar a futura epidemia da obesidade «passa por compreender os mecanismos básicos que regulam a ingestão de alimentos» no organismo, nomeadamente através do desenvolvimento de substâncias que controlem a hormona que estimula o apetite.
Também o investigador George Chrousos, presidente do Departamento de Pediatria de Atenas, na Grécia, defendeu que há novas patologias que não podem ser ignoradas, como é o caso da obesidade, mas também do stress.
«O progresso das últimas décadas levou a modificações sociais e à emergência de hábitos de consumo individuais», um novo contexto que deu origem a (estas duas – obesidade e stress) novas patologias, «que não podem continuar a ser ignoradas», disse.
Para George Chrousos, investigador na área do stress, esta patologia – tal como a obesidade – «constituirá num futuro próximo um dos maiores problemas de saúde pública».
«Actualmente vivemos em cidades onde estamos expostos a ambientes cada vez mais complicados, comemos comida pré-confeccionada e temos estilos e hábitos de vida pouco saudáveis», recordou o especialista grego.
«Tudo isto pode levar a que os nossos mecanismos de defesa não respondam de forma eficaz, aumentando a possibilidade de doenças», acrescentou.
Segundo Chrousos, a vida existe através da «manutenção de uma complexa dinâmica de equilíbrio», que constantemente «é desafiada e posta à prova por forças exteriores adversas».
Embora o organismo tenha capacidade de restabelecer o equilíbrio, «através de um complexo sistema situado no sistema nervoso central e na periferia», quando a exposição ao stress é muito elevada ou contínua «pode criar-se uma ruptura».
Os «factores causadores de stress», segundo George Chrousos, podem ser os mais variados, como «os problemas diários, as transições de vida – como a menopausa ou a puberdade – ou ameaças súbitas».
Ao ser activado, o sistema que o corpo humano tem para restabelecer o equilíbrio provoca «mudanças comportamentais e físicas de adaptação» no organismo.
Estas mudanças melhoram as hipóteses de sobrevivência do indivíduo, uma vez que aumentam a sua vigilância e capacidade de atenção« mas, ao mesmo tempo, a adaptação ao stress »inibe funções essenciais«, como as digestivas, o crescimento, a reprodução e o sistema imunitário.
O stress também tem uma consequência mais «visível»: torna as pessoas mais irritáveis.
O especialista afirmou que se as alterações adaptativas do organismo se tornarem «excessivas, prolongadas ou desajustadas» (resposta inapropriada aos factores stressantes), estas podem contribuir para o «desenvolvimento de doenças e desordens metabólicas, auto-imunes e psicológicas».
Segundo George Chrousos, o stress também limita a resposta inflamatória do organismo, «o que pode provocar uma resistência a insulina, a hipercoagulação do sangue, hipertensão, diabetes e osteoporose».
«Todas estas alterações do sistema imunitário e do metabolismo, causadas pelo stress, aumentam a mortalidade, relacionada com doenças cardiovasculares, cancerígenas ou provocadas por infecção», concluiu.
Fonte: Diário Digital
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