Obesidade Coloca Indústria Alimentar Sob Fogo Cerrado

A nível mundial, existirão cerca de mil milhões de pessoas com excesso de peso, e destas, pelo menos 300 milhões são obesas. A Organização Mundial de Saúde, tradicionalmente preocupada com as consequências da subnutrição, começou nos últimos anos a focar a sua atenção sobre a obesidade e sobre as chamadas “doenças de civilização” – diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares, hipertensão e certos tipos de cancro.

Este é um cenário que coloca a indústria alimentar sob fogo cerrado e a obriga a mudar estratégias. Menos calorias, menos gordura, menos açúcar, e mais informação ao consumidor, são as palavras de ordem.

Definida pela OMS como a epidemia do século XXI, a obesidade já não é apenas um problema do mundo ocidental: em muitos países, coexiste com a escassez e com a subnutrição, que ainda afecta quase 864 milhões de pessoas. Ou seja, há hoje mais pessoas com excesso de peso do que vítimas de subnutrição.

Em alguns países, como a França, discute-se a possibilidade de certos alimentos terem avisos sobre o seu efeito na saúde, tal como o tabaco ou as bebidas alcoólicas. Em Portugal, metade das pessoas tem excesso de peso, 13% dos adultos são obesos, 10% das crianças também.

A Federação das Indústrias Agro-Alimentares (FIPA), representante do sector, está “empenhada em assumir parte da responsabilidade na luta contra a obesidade”, afirma a directora, Isabel Sarmento. Está a ser dado início a uma campanha de divulgação das boas práticas que considera já existirem nas empresas do sector. Aliás, a organização faz parte do Programa Nacional do Combate à Obesidade. Há também o reconhecimento de que as preocupações dos consumidores mudaram nos últimos anos e que a indústria também tem de mudar. E é neste contexto que surge a diversificação da oferta, a melhor informação aos consumidores e a preocupação com um marketing consciente.

Novas tendências
“A indústria alimentar está num processo de transição para uma oferta saudável, mas a maior parte da oferta ainda não é saudável”, afirma o gestor e criador de marcas Carlos Coelho. “No entanto há com certeza a genuína intenção de caminhar nesse sentido”, diz o especialista, que considera que a aposta numa imagem saudável é uma das actuais tendências do mercado, com propensão a tornar-se ainda mais importante.

“As gerações mais jovens estão mais pressionadas pela estética, pelo culto do corpo”, explica. E como “são os jovens que marcam as tendências”, têm um peso enorme e nenhuma marca pode ignorar isso. Por outro lado, salienta Carlos Coelho, a comida não alimenta apenas o corpo mas também a nossa identidade. E os jovens procuram um estilo de vida saudável. Logo, é importante para a indústria apresentar produtos que alimentem essa imagem.

Ao mesmo tempo, o especialista também acredita que “os jovens preocupam-se mais com as letras pequeninas, e estão mais habilitados a rejeitar as falsas ofertas”, o que obriga as empresas a inovarem realmente. Neste momento a inovação e a procura de produtos mais saudáveis andam de mãos dadas. A tendência vai da produção à promoção e até os departamentos de marketing passaram a ter nutricionistas. As empresas procuram o adoçante mais saudável, ou adicionar cada vez mais funções aos produtos.

Já a nutricionista Ada Rocha, professora na Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação, no Porto, acha que a “indústria alimentar não parece muito preocupada com a saúde do consumidor”, mas que apenas responde à pressão do mercado.

Contradições e respostas
É difícil compreender porque é que numa sociedade em que parece haver uma preocupação cada vez maior com a alimentação e com a saúde, os números da obesidade não param de crescer. Ada Rocha explica que houve um mudança no estilo de vida das pessoas, que “se mexem menos, não sobem umas escadas a pé ; têm as casas aquecidas. Tudo isto leva o organismo a gastar menos energia. Depois consomem produtos mais calóricos”.

Refe o DN que há também noções erradas sobre o que é saudável. E a publicidade não ajuda, avisa a nutricionista. “As pessoas muitas vezes são levadas a pensar que beber um sumo à refeição é a mesma coisa que comer uma peça de fruta no fim. Não é!”. “Obviamente não interessa à indústria promover produtos naturais mas sim processados. Não há anúncios à fruta”, conclui.

Por outro lado, o consumidor procura alimentos saudáveis mas geralmente não está disposto a mudar os sabores a que está habituado, explica a nutricionista. Quando há uns anos se começou a falar sobre o excesso de sal no pão e alguns padeiros optaram por usar menos, as pessoas passaram a comprar noutros sítios, conta a professora. “Enquanto os pacotes de açúcar passaram de 10/12 gramas para 6/8 e ninguém se queixou, porque foi uma coisa gradual”.

A solução passa por fazer mudanças graduais, num “compromisso que tem de ser assumido por toda a indústria” para resultar, afirma Ada Rocha, que salienta o papel que a FIPA tem e pode ter neste processo. Todos concordam que a mudança passa também por informar o consumidor, que deve ser responsabilizado pelas suas escolhas.

Fonte: Anil

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