O lado negro dos preços baixos

Nas conversas de elevador, o tema dos baixos preços já compete com o futebol e com as condições meteorológicas.

Poupar é um orgulho. Os portugueses gastaram menos 3,4 por cento no supermercado no primeiro trimestre deste ano, comparando com os gastos do mesmo período, em 2009. Isto apesar de terem colocado nos carrinhos mais dois por cento de produtos.

Parecem boas notícias estas que a empresa de estudos de mercado Kantar Worldpanel (KWP) acaba de divulgar. Entretanto, já diz o ditado: nem tudo o que reluz é ouro. Alguma vez se questionou sobre a origem de tanta promoção?

As pechinchas devem-se ao esmagamento das margens de lucro dos fabricantes e retalhistas. Isto seria bom para as famílias. O problema é que a guerra nos bastidores está de tal ordem que as práticas nem sempre são as mais ortodoxas. Pior: começaram a virar-se contra os próprios consumidores. Só nos últimos três anos faliram 346 empresas no sector alimentar. A Alicoop pode tornar-se, já na próxima semana, a mais recente vítima. Segundo o Instituto Informador Comercial, 52 por cento destas falências aconteceram na indústria.

Em plena crise económica, os anúncios apelam à solidariedade para com as famílias portuguesas, mas os próprios protagonistas admitem riscos. “O desaparecimento de fabricantes traduz-se na perda de emprego qualificado e estável e no aumento das importações. Cabe à tutela promover os modelos de desenvolvimento sustentáveis, assentes na criação de valor local”. Quem o diz é João Paulo Girbal, ex-líder da Microsoft e actual presidente da Centromarca, associação que representa 56 fabricantes.

“No limite, se a redução for conseguida apenas com o esmagamento da margem dos fabricantes, coloca-se em risco a viabilidade das suas operações prejudicando seguramente o consumidor por desaparecimento de oferta e menor inovação. Pode criar uma situação de produto único com todos os inconvenientes que isso acarreta para o consumidor”, antevê este gestor que também investe nas áreas da aviação e lazer, energias renováveis e sustentabilidade ambiental.

Práticas lesivas em análise
A Autoridade da Concorrência (AdC) tem estado atenta. Divulga este mês as suas conclusões sobre as “Relações Comerciais entre a Grande Distribuição Agro-Alimentar e os seus Fornecedores”. Na versão preliminar desta análise existem 42 queixas sobre as “práticas lesivas” dos grandes retalhistas sobre os fabricantes. Um exemplo: “O distribuidor corta ou limita as compras durante as negociações das condições de fornecimento como forma de forçar a conclusão do acordo”.

Sempre que os preços disparam para baixo ou para cima, coloca-se a questão: haverá práticas de concorrência desleal? çcA AdC acaba de ver confirmada a coima de 1,1 milhões de euros com que puniu as manobras de concertação na panificação entre 2002 e 2005. O problema aí, foram os altos preços. Agora são os baixos que estão na mira. Massas, arroz, farinhas, cereais de pequeno-almoço, batatas pré-fritas congeladas, atum, bacalhau são alguns produtos analisados mais profundamente.

Esta semana o Eurostat divulgou um relatório onde o custo de um cabaz de compras em Portugal surge oito por cento abaixo da média europeia. O povo comenta: “Mas os ordenados são ainda mais baixos!” E é verdade. Se Portugal tem a sorte de ser o 17º país com a cesta menos cara entre 37 países europeus, já nos salários está no topo dos mais pobres da zona euro. O salário médio é de 1.190 euros brutos mensais contra, por exemplo, o alemão, de 3.410 euros e o grego, de 2.095 euros.

Independentemente disso, é verdade que os preços baixaram. Segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE), a subida dos preços oscilou entre os 0,1 por cento em Janeiro e os 0,5 por cento em Março, comparando com os meses homólogos do ano passado. No sector alimentar caíram 5,6 por cento em Janeiro e 4,4 por cento em Março.

Esta deflação, a par das constantes promoções e descontos, fez com que os preços médios nos supermercados baixassem 5,2 por cento no primeiro trimestre, segundo a KWP. A juntar à festa da poupança está ainda o chamado downtrading: a opção por artigos mais baratos que preenchem as mesmas necessidades de consumo, geralmente trocando marcas de fabricante por brancas.

Cerealis e JM na mira
A obsessão da poupança está ao rubro, mas já começou quando o Pingo Doce, há cinco anos, se posicionou como rival das insígnias mais baratas. Agora até os fabricantes alinham por baixo. A Danone, por exemplo, transformou as embalagens de Actimel em autênticos folhetos promocionais de cores garridas e palavras a condizer. “Mais barato”. “Ajuda a poupar”. Quanto? A Danone recusou prestar quaisquer explicações.

A forma de reduzir preços é uma questão que poucos gostam de detalhar. Passa, sobretudo, pelo fenómeno das marcas de distribuição. Estas já valem 33,5 por cento das vendas e são as preferidas pelos consumidores que vivem sozinhos ou em lares monoparentais. A qualidade e a proximidade das lojas deixaram de surgir nos inquéritos mais recentes. A obsessão entretanto já está a cair a vários operadores.

Houve 221 processos de vendas com prejuízo, nos últimos cinco anos, abertos na AdC. Desses 53 por cento resultaram em coimas, a esmagadora maioria no sector alimentar. A Autoridade de Segurança alimentar e Económica, por sua vez, avançou com 1181 contraordenações sobre promoções, reduções e saldos.

A venda com prejuízo é a ferramenta de eleição na prática de dumping, fenómeno que consiste em vender abaixo do preço de mercado para aumentar a quota e reforçar ainda mais o poder negocial. As autoridades estão atentas a todos os sinais. Muitos deles estão patentes no relatório da consultora Roland Berger.

Entre os cinco maiores retalhistas, a Jerónimo Martins (JM), que controla o Pingo Doce e o Feira Nova, foi claramente quem mais aumentou as vendas, entre 2003 e 2007, segundo a análise da consultora. Facturou mais 13,3 por cento. O cenário seria de louvar, não fosse este detalhe: a rentabilidade das vendas, em 2007, está no vermelho (-1,2 por cento).

Do lado dos fabricantes, a Cerealis (massas Milaneza e Nacional) é quem mais chama as atenções. É o mais rentável de todos, à excepção da Tabaqueira. Atingiu os 12,7 por cento em 2007. Em vendas, foi a segunda que mais cresceu em cinco anos (15,2 por cento), a seguir aos vinhos Sogrape (26,4 por cento).

A maioria das queixas vai contra os retalhistas. Todavia, a rentabilidade das vendas dos grandes produtores está acima das dos retalhistas, na análise da Roland Berger. São 10,7 por cento contra 1,7 por cento.

Deslealdade ou livre concorrência
A complexa teia envolve também grossistas como a Recheio, da JM, e a Makro, que há um ano criou, com a Auchan, a central Intercompra, para reforçarem poderes. Os mais pequenos juntaram-se, há décadas, na Uniarme, donde há cinco anos debandaram vários associados (agora na Euromadi) em divergência com a JM, que ali entrou à medida que adquiriu algumas associadas.

“Os grandes grupos ganham vantagem com a concentração, pois atingem uma escala esmagadora a todos os níveis – publicidade, gestão de marcas próprias e peso sobre a indústria -, o que se traduz numa pressão sobre os preços, a que a indústria cede por necessidade absoluta”, acusa Manuel Nunes, fundador dos armazéns com o seu nome, responsável pelo franchising dos supermercados Supersol, e fundador da Uniarme.

Questionadas sobre alegadas práticas anticoncorrênciais, os retalhistas são unânimes: “Agimos em conformidade com a lei”. A JM responde: “O grupo presta sempre total colaboração às autoridades e nunca comenta estas matérias fora dos fóruns próprios”.

Para uns há concorrência desleal e falta de regulação e fiscalização. Para outros, o que penaliza os pequenos retalhistas é a sua própria inércia. José António Rousseau, autor de livros sobre distribuição, professor e director-geral da Associação Portuguesa das Empresas de Distribuição (APED), lembra que os mais pequenos foram protegidos desde cedo. As restrições aos licenciamentos comerciais começaram “quando havia apenas cinco hipermercados no país”.

A concentração do retalho alimentar á de 64 por cento. Subiu 4 pontos, há três anos, quando a JM comprou a Plus e a Sonae a Carrefour. Está no 11º lugar, acima de Espanha, Reino Unido, Holanda e Itália, na Europa a 15 países. É excessivo? “Temos nove grandes grupos em Portugal!”, exclama José António Rousseau. “Estamos até ligeiramente abaixo da média europeia”. A leitura é inversa na Confederação do Comércio e Serviços de Portugal. João Vieira Lopes, presidente desta confederação e da Euromadi, afirma: “A concentração é demasiada, sim. Mais ainda, se lhe indexarmos os níveis de poder de compra”.

IVA: Imposto Vagamente Assegurado
As novas taxas do imposto sobre o valor acrescentado (IVA) entraram em vigor no passado dia um, reflectindo o aumento determinado pelo Governo de um ponto percentual. Lidl, intermarché, Aldi e E.Leclerc alardeiam que assimilam este extra. As líderes prometem fazer o melhor possível.

“Sentimos como o nosso dever procurar, tanto quanto possível, amortecer o impacto deste aumento dos impostos nos orçamentos das famílias”, diz fonte oficial da Jerónimo Martins, que controla a Pingo Doce. A Modelo Continente promete “prosseguir o seu compromisso de ser o retalhista com melhores preços no cabaz mais relevante para os seus clientes” e a Auchan garante que “qualquer que seja a variação de preço, essa será sempre menor numa loja da Auchan, para que possa ter os preços mais baixos”.

Salientam os seus “processos de monitorização diários do mercado”, quais as estações televisivas em contraprogramação ao minuto. E a Auchan diz que “quando o IVA passou de 19 para 21 por cento foi a cadeia que melhores preços proporcionou aos clientes”. Menos assertivas são as respostas sobre as insígnias não-alimentares da Sonae, como a Worten. Garante-se “a continuação das políticas de preços”.

Fonte: Anil

Veja também

Consumo de café aumenta resposta ao tratamento da hepatite C

Os pacientes com hepatite C avançada e com doença hepática crónica que receberam interferão peguilado …