Nas escolas há máquinas de venda automática. Por poucos cêntimos e à distância de um botão estão chocolates, bolos, refrigerantes e batatas fritas. No entanto, o Ministério da Educação anuncia uma mudança na alimentação oferecida pelas escolas. Numa primeira fase excluem-se os fritos, as batatas de pacote e os rebuçados e condiciona-se a oferta de chocolates; numa segunda fase actua-se ao nível das ementas.
Esta medida, escreve Sandra Maxiniano, docente da Universidade de Amsterdão, em artigo de opinião publicado no Diário de Notícias, enquadrada na megacampanha de higiene alimentar que o Governo propôs implementar já este mês, visa combater a obesidade. É verdade que estamos em média mais gordos. Cerca de quatro milhões de portugueses têm excesso de peso e uma em cada três crianças é “gordinha”. É certo também que a obesidade, mais do que um problema de aparência, é uma ameaça para a saúde e um problema de saúde pública. A população obesa precisa, em geral, de maiores cuidados médicos, cuidados esses financiados pela sociedade. Assim, estamos perante uma externalidade (à semelhança do tabaco) que justifica a intervenção do Estado. A estes custos directos, acrescentam-se maiores taxas de absentismo dos trabalhadores obesos e uma menor produtividade dos mesmos.
Mas será que a existência desta externalidade é por si só suficiente para que se legitime a proibição de alguns alimentos nas escolas? Não será o que se come, o quanto se come e o quanto se exercita decisões do foro individual? Segundo uma visão económica simplicista estas são decisões pessoais, tomadas em consciência, tendo em vista o bem-estar de cada um.
O problema é que os modelos económicos consideram que os decisores são adultos, bem informados e com liberdade de escolha. No entanto, as crianças não são certamente o que os economistas definem como “consumidores racionais”. Em geral, e dependendo da idade, as crianças não conseguem analisar a informação disponível, nomeadamente os rótulos dos produtos alimentares, e não avaliam criticamente as consequências futuras das suas escolhas. Assim, à semelhança da proibição da venda de álcool e tabaco a menores, o Estado poderá regular a venda de determinados alimentos a crianças. Mas o que parece simples não o é.
No que respeita à alimentação tudo o que se come poderá fazer engordar dependendo das quantidades que se comem e da actividade física que se exerce. Proibir determinados alimentos quando não existe necessariamente uma relação negativa entre o seu consumo isolado e a saúde não faz sentido. E proibir nas escolas não impede que os alunos os consumam no exterior. Assim, esta proibição poderá somente resultar numa redução de receitas para as escolas sem que com isso os hábitos alimentares das crianças sejam efectivamente alterados. Talvez o melhor seria começar já pela segunda fase da megacampanha. Venham as ementas mais saudáveis.
Fonte: Anil
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