A crise dos nitrofuranos ainda é lembrada pelo sector avícola como a “pior de sempre”, embora os consumidores pouco se recordem da substância proibida que há quatro anos fez voar frangos e perus dos pratos dos portugueses.
O anúncio da detecção de uma substância proibida e potencialmente cancerígena em 43 explorações de aves em Portugal, feito em 26 de Fevereiro de 2003, levou imediatamente a uma quebra de 50 por cento na produção e na venda de aves.
Produtores, vendedores e responsáveis da restauração contactados agora pela agência Lusa referem-se a esta crise como “a pior de sempre” e consideram que a gripe das aves não tem uma influência comparável à dos nitrofuranos.
“Hoje os consumidores são menos influenciados pelos alarmismos. No caso dos nitrofuranos as quedas de consumo foram dramáticas”, recordou à Lusa Fernando Correia, que era na altura presidente da associação do sector, a ANCAVE.
Para Fernando Correia, os avicultores foram “vítimas de muitas calúnias e da falta de preparação de quem tem obrigação de testar as condições dos produtos”.
“Pagamos uma taxa para ter inspectores sanitários em permanência nas explorações. No caso dos nitrofuranos, foi o Estado que veio dizer que o mesmo produto inspeccionado por entidades oficiais não estava em condições”, indignou-se o Fernando Correia, dirigente de uma das maiores associações de criadores de aves, a Socampestre.
A título de exemplo, referiu que a sua empresa paga uma média anual superior a 70 mil euros pela inspecção sanitária oficial.
Para este avicultor, “o Estado tem de perder todas as acções” que pelo menos 15 produtores interpuseram em tribunal, reclamando 12,5 milhões de euros de indemnizações.
Considerou ainda que o ministro da Agricultura do governo social-democrata de então, Sevinate Pinto, veio colocar sob suspeição as mais de quatro mil explorações de aves existentes no país.
Fernando Correia lamentou também que esta crise “não tenha passado de uma especulação”.
“No final de tudo, um relatório do Ministério da Agricultura veio dizer que foram encontrados nitrofuranos com doses superiores a 10 microgramas por quilo em apenas cinco explorações”, relatou, lamentando ainda que “ninguém tenha sido julgado por isto”.
Contactado pela Agência Lusa, Sevinate Pinto escusou-se a fazer comentários sobre o assunto.
Por seu lado, o então presidente do Laboratório Nacional de Investigação Veterinária (LNIV), Alexandre Gallo, não tem dúvidas sobre os resultados das análises efectuadas.
“A lei dizia que não pode haver qualquer quantidade de nitrofuranos. A lei era absolutamente taxativa. Haver mais do que zero já era um ilícito”, afirmou à Lusa.
“A parte laboratorial foi toda bem feita e as análises chegaram a ser confirmadas por laboratórios no estrangeiro. Estas análises surgiram na sequência de uma determinação da Comissão Europeia para todos os estados-membros”, acrescentou.
Alexandro Gallo sublinhou não ter dúvidas quanto aos resultados encontrados nas análises e quanto ao facto de constituir “um ilícito”.
De acordo com o Relatório Final sobre os resíduos de nitrofuranos em Portugal, de Outubro de 2003, foram destruídos mais de 1,5 milhões de aves e mais de 250 toneladas de carne foram retiradas do mercado.
Em seis meses, a crise dos nitrofuranos custou ao Estado mais de 300 mil euros só em análises e recolha de amostras.
Apesar do rombo nas vendas, Fernando Correia orgulha-se de o sector ter “conseguido recuperar sozinho” e exemplifica com o facto de “em plena crise” terem começado a exportar para o centro da Europa.
“As empresas conseguiram sobreviver graças a mérito próprio, graças à organização da fileira”, sublinhou o avicultor, escusando-se a revelar se alguma empresa chegou a falir na sequência desta crise.
Também os retalhistas ainda têm presente na memória o desfalque causado pelos nitrofuranos.
“Essa crise foi bem maior do que agora com a gripe das aves.
Em relação à gripe das aves as pessoas fazem perguntas mas sabem que podem comer carne cozinhada. Com os nitrofuranos houve uma grande queda nas vendas”, disse à Lusa Marta Cardoso, responsável do talho Extracarnes, em Benfica.
Na churrasqueira Tendinha 1, o gerente ainda recorda a quebra de “mais de 50 por cento” que sentiu nas vendas “de um dia para o outro”.
O director-geral do grupo dos restaurantes Sr. Frango da Guia recordou à Lusa o “abalo forte” na sequência do anúncio de Fevereiro de 2003, mas disse que “as pessoas já esqueceram completamente” essa crise.
“O problema estava a passar-se em Portugal, ao contrário da gripe das aves, e as pessoas reagiram fortemente, abandonando o consumo de carne de aves”, lembrou.
Em Portugal produzem-se cerca de cinco milhões de aves por semana e cada habitante consome, em média por semana, meio quilo deste tipo de carne, que é a preferida dos consumidores portugueses.
Os nitrofuranos são um antibiótico que está proibido na União Europeia desde 1995 e que é por vezes usado ilegalmente para prevenir doenças e promover o crescimento dos animais.
Pode ter efeitos na saúde humana, quando existem em grandes quantidades na carne e quando o seu consumo é continuado.
Em Maio de 2003, o ministro da Agricultura dava a crise dos nitrofuranos como terminada, depois de várias análises terem dado resultados negativos.
Fonte: Agroportal
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