Milho: Produtores podem aumentar produção, mas querem condições do Governo

Os produtores portugueses de milho podem aumentar a produção para até 900 mil toneladas anuais para fornecer duas fábricas de bioetanol, mas só se o Governo proporcionar condições competitivas e o preço for justo.

Em declarações à agência Lusa, o presidente da Associação Nacional dos Produtores de Milho e Sorgo (ANPROMIS), Luís Vasconcellos e Souza, explicou que este sector pode contribuir para o objectivo avançado pelo primeiro-ministro de apostar forte nos biocombustíveis, com os gastos nos transportes neste área a atingirem 10 por cento do total em 2010.

Para Vasconcellos e Souza, a produção de bioetanol a partir do milho, já muito avançada nos EUA, ganha cada vez mais relevância a nível internacional e Portugal “tem capacidade para produzir” as quantidades necessárias para o desenvolvimento desta fileira.

Com uma produção média de 700 mil toneladas por ano, os produtores só necessitam de ter um preço de compra do milho “correcta” e que o Governo, através do ministro da Agricultura, crie condições de competitividade nomeadamente face a Espanha.

Quanto ao primeiro ponto, o preço do milho no mercado internacional tem estado a subir e desde Setembro de 2006 já ganhou 62 por cento.

Esta evolução está relacionada com o facto de os EUA terem anunciado que deixavam de produzir para o mercado internacional já que estão a apostar forte na produção de bioetanol, que pode ser integrado na gasolina ou servir de combustível a automóveis cujos motores estejam adaptados.

“O uso de milho para bioetanol é cada vez mais falado em vários países, contribuindo também para a subida do preço”, acrescentou.

Por outro lado, a nível de União Europeia, a situação de desajustamento do mercado devido às altas ajudas à produção e transporte de milho a dois novos Estados membros, principalmente a Hungria, foi ultrapassada e a situação está voltar ao normal, também em termos de preços e de apoios.

Em sentido contrário, a desfavor dos produtores está a evolução do dólar que “puxou” o valor do milho para baixo.

Mas, a parte mais complicada parece vir do Ministério da Agricultura, com o presidente da ANPROMIS a tecer duras críticas ao ministro, acusando-o de “não ter a noção do mundo rural e falar numa perspectiva numérica da vida”.

“O ministro faz propostas para acabar com a agricultura portuguesa e [a nível europeu] segue posições de países como o Reino Unido, que nada tem a ver com Portugal”, defendeu Vasconcellos e Souza.

Para os produtores de milho, um factor decisivo é a ajuda aos custos com energia, através da “electricidade verde”, que pagava 60 por cento do total, e fazia com que os gastos em factores de produção pudessem estar mais perto dos concorrentes espanhóis “muito apoiados pelos governos autónomos”, frisou o responsável.

Este apoio foi suspenso pelo ministro da Agricultura, Desenvolvimento Rural e Pescas, Jaime Silva, com a justificação de que existia uma utilização incorrecta da electricidade verde, nomeadamente para o abastecimento de piscinas.

“O ministro desacredita o sector ao dizer que a electricidade era má utilizada e, ao mesmo tempo, faz com que o custo por hectare de área cultivada suba 15 contos [cerca de 75 euros]”, acusa Vasconcellos e Souza.

Com uma produtividade mais alta que Espanha, a produção de milho em Portugal enfrenta outros constrangimentos, além da electricidade verde, como as ineficiências resultantes da pequena dimensão da maioria das propriedades e do mercado, e os custos mais elevados dos factores de produção, como as sementes.

“É uma questão política”, faz questão de salientar o presidente da ANPROMIS.

Para produzir bioetanol, o grão de milho é moído, é retirado o amido e este é transformado e rectificado de modo a tornar-se combustível.

O “resto” do grão de milho, essencialmente composto por fibras, pode ser aproveitado para alimento dos animais.

Os motores dos automóveis actuais permitem uma integração de 10 a 15 por cento de bioetanol, mas há estudos para motores que podem funcionar com 85 a 100 por cento de bioetanol.

Uma informação da ANPROMIS refere que recentemente a Agência Portuguesa de Investimento (API) classificou como Projectos de Interesse Nacional (PIN) dois processos relativos à produção de bioetanol, o que “muito satisfez” os produtores de milho.

Hoje, o presidente da associação salienta que existe capacidade de produzir em Portugal 800 a 900 mil toneladas de milho, respondendo às necessidades de abastecimento de duas fábricas, com 600 mil toneladas, sendo o restante destinado ao mercado.

Vasconcellos e Souza reconhece que nas regiões de regadio é “mais fácil o desenvolvimento”, em outras zonas os agricultores acabam por abandonar esta cultura.

Além do apoio ao milho, o responsável defende que deveria de existir uma ajuda diferenciada às fábricas de bioetanol, concretizando a aposta do governo nos biocombustíveis, através de isenção de imposto, por exemplo.

“As fábricas devem usar milho português, caso contrário mais vale instalá-las no país de origem da matéria-prima”, realçou.

A ANPROMIS vai realizar o seu V Congresso Nacional do Milho, hoje a amanhã, em Lisboa e traz a Portugal o antigo campeão mundial de F1, Alain Proust para falar acerca do tema “produção de bioetanol numa estratégia europeia de abastecimento energético”.

Fonte: Agroportal

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