Médicos à toa com a gripe das aves

Médicos de todo o País, reunidos ontem no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, assumiram não saber o que fazer diante da suspeita de um caso de gripe das aves em seres humanos. Para tranquilizá-los, a subdirectora-geral de Saúde, Graças Freitas, afirmou que as medidas para lidar com a eventualidade já foram definidas, mas ainda não comunicadas a quem terá de executá-las. “Para evitar o alarme”, explicou.

O ambiente no anfiteatro da Faculdade de Medicina de Lisboa – onde ontem se reuniram os especialistas nacionais em saúde humana e animal, na linha da frente em situação de infecção – era de ansiedade. José Luís Ducla, professor auxiliar da Clínica Universitária de Medicina I, exprimiu a inquietação da classe ao reconhecer que aquilo “que os médicos estão preparados para fazer é muito pouco”.

Os clínicos não sabem, nomeadamente, “como confirmar o vírus, quais os procedimentos para o isolamento de um infectado ou qual a calendarização para a toma do oseltamivir”, o único medicamento que demonstrou eficácia contra o H5N1, a estirpe mais perigosa do vírus, responsável pela morte de 86 pessoas na Ásia e na Turquia.

BASTONÁRIO NÃO VÊ PROBLEMAS

Por outro lado, os médicos mostraram-se interessados em conhecer o que está previsto para enfrentar a instabilidade social associada ao nível de absentismo, cerca de 30 por cento em caso de pandemia. “Quem substituirá o padeiro doente ou passará a enterrar os mortos na incapacidade do agente funerário?”, questionou Germano do Carmo, do Serviço de Doenças Infecciosas do HSM, que, há cerca de três anos, numa reunião de especialistas em Malta, verificou terem já os médicos holandeses resposta para perguntas do género.

A preocupação é evidente, mas o bastonário da Ordem dos Médicos tem outra visão. “Os médicos não estão preocupados, têm excelente formação e sabem como tratar um doente com síndroma respiratória aguda. O melhor é não ter pânico com o que não existe.”

Graças Freitas, subdirectora-geral de Saúde, garantiu que “está tudo feito, só que ainda não foi libertado”. Na Faculdade de Medicina do HSM, confrontada com a inquietação dos médicos, a mesma responsável disse que, perante uma suspeita, a informação seria “automaticamente disponibilizada”. Mas lá foi explicando qualquer coisa: o isolamento do paciente é menos exigente do que o requerido para a síndroma respiratória aguda, bastando instalá-lo, sozinho, num quarto com casa de banho. O doente deverá usar uma máscara cirúrgica e o médico uma máscara C2, mais sofisticada.

Embora tentando não comprometer a Direcção-Geral de Saúde (DGS), Germano do Carmo reconheceu que “em alguns aspectos haveria vantagem em sabermos o que está previsto”. Questionado sobre o que faria se, tal como sucedeu recentemente na Bélgica, um indivíduo oriundo da Turquia se apresentasse no HSM com sintomas de gripe das aves, o especialista disse que seria necessário contactar a DGS.

Graças Freitas sublinhou a estratégia da DGS de divulgar o material já preparado “em função do que for acontecendo”, supostamente para “evitar alarme”. Segundo afirmou, “a partir de agora será dado ênfase à comunicação com a classe médica e com os enfermeiros em reuniões em várias regiões do País”.

EMPRESAS PREPARAM-SE PARA SURTO

As empresas começam, embora timidamente, a preparar-se para um surto de gripe das aves, que, em situação de pandemia, provocará elevado nível de absentismo laboral, na ordem dos 30 por cento.

A Portugal Telecom tem vários planos de contingência (que por razões de segurança não revela), com o objectivo de garantir a segurança das comunicações. A PT fez saber que está em contacto permanente com a Protecção Civil e acompanha o evoluir da situação.

Quanto à EDP, garante que, caso se justifique, tomará as medidas adequadas para proteger os seus trabalhadores. Mas o surto também é entendido como oportunidade de negócio. A SONAE está aposta em melhorar a distribuição domiciliária de compras, para que as pessoas não tenham de ir aos supermercados.

INQUIETAÇÕES DOS PERITOS

“O que os médicos estão preparados para fazer é muito pouco. O que fará a classe médica perante a primeira suspeita [de gripe em seres humanos]? Como é que se confirma o vírus? Quais são os mecanismos para o isolamento? Qual a calendarização para a toma do oseltamivir? Quanto tempo devemos esperar que a pandemia dure?”

José Luís Ducla, prof. Cat. da Faculdade de Medicina de Lisboa

“Os planos de contingência são mais actualizados” [a propósito do que sucede na Holanda].

Germano do Carmo, Serviço de Doenças Infecciosas do Hospital de Santa Maria

“Os médicos estão muito mal preparados relativamente à gripe, considerada uma doença menor, uma entidade de segundo plano. Actualmente estão a mudar-se os currículos nas faculdades de Medicina para lidar com a gripe.”

Germano do Carmo, HSM

“De alguma maneira, os médicos estão preparados, devido à experiência da SARS [Síndroma Respiratória Aguda].”

Rui Proença, ex-director do Serviço de Doenças Infecciosas dos Hospitais Civis de Lisboa

“Houve uma falha terapêutica do Tamiflu na Turquia. Ter ou não ter o Tamiflu não vai fazer diferença por aí além.”

Agostinho Marques, director do Serviço de Pneumologia do Hospital de S. João

“O porco alberga o vírus da gripe aviária e o da gripe humana [por isso, admite-se que possa ‘fabricar’ o vírus capaz de transmitir-se entre seres humanos]. Em Portugal, circulam, todas as semanas, entre 20 a 30 mil animais.”

Perestrelo Vieira, Direcção-Geral de Veterinária

“Na Holanda e na Itália foram mobilizadas mais energias para o sector animal.”

António Menezes, Ordem dos Médicos Veterinários

EUA TESTAM VACINA CONTRA H5N1 EM HUMANOS

Os Estados Unidos estão a testar uma vacina em humanos contra o H5N1, a estirpe mais perigosa da gripe das aves, afirmou ontem, em Lisboa, Dan Rutz, do Centre for Disease Control (Centro para o Controlo de Doenças), organismo do Governo federal norte-americano.

O veredicto final sobre a eficácia da vacina ainda não foi declarado, mas sabe-se que para obter qualquer efeito é preciso administrá-la em doses em média três vezes superiores à da vacina da gripe sazonal.

“Calculamos que vinte milhões de doses servirão para vacinar apenas cinco milhões de pessoas”, disse Rutz, convidado nas Quintas Jornadas de Actualização em Doenças Infectocontagiosas, organizadas pelo Hospital Curry Cabral, considerada a unidade de referência para a gripe das aves no Sul do País.

Tudo indica que o H5N1 não será o vírus responsável pela pandemia. Os investigadores sustentam que terá de sofrer mutações ou recombinar-se com o vírus da gripe humana para ser capaz de transmitir-se entre seres humanos. Os norte-americanos acreditam, contudo, que obtida a vacina contra o H5N1 será mais rápido produzir a adequada ao vírus que aí vem, ‘filho’ daquele. “Queremos queimar etapas”, disse Dan Rutz, ciente de que, declarada a pandemia, não haverá maneira de vacinar toda a gente. “Estamos a preparar as pessoas, a dizer-lhes que lavem as mãos, que evitem o contacto, a dizer-lhes que poderão usar máscaras”, embora não existam certezas sobre a eficácia das máscaras.

Segundo o mesmo especialista, o Centre for Diesease Control tem como certo que “já ocorreu transmissão entre seres humanos”, na Tailândia, de uma criança para a mãe, que manteve contacto muito estreito com o filho doente.

Mesmo assim, acredita-se que o vírus ainda não mudou; a transmissão terá ocorrido numa circunstância de grande intimidade física e a pandemia supõe um vírus capaz de transmitir-se facilmente entre seres humanos.

PORTUGAL TEM VACINA EM 2008

Em 2008 Portugal passará a ter uma unidade própria de produção de vacinas antigripais, tornando-se no décimo País do mundo capaz de o fazer. No caso de se verificar, entretanto, uma pandemia de gripe das aves, a produção de vacinas para combatê-la pode avançar já no próximo ano. A fábrica, a instalar em Condeixa, terá capacidade para produzir três milhões de doses em apenas 12 semanas.

INDEMNIZAÇÕES PARA AVICULTORES

O bastonário da Ordem dos Médicos Veterinários apelou ontem aos poderes públicos para que tornem clara a disponibilidade para indemnizar os proprietários de explorações avícolas afectadas pela gripe das aves. António Menezes sublinhou ser esta a maneira mais eficaz de evitar a ocultação de focos de infecção.

Não dar conta da existência de animais doentes e suspeitos de terem contraído a doença, temendo o abate maciço, é suficiente para “dar tempo ao vírus para infectar todos os outros”, referiu o bastonário, considerando que “Portugal está a seguir as normas comunitárias” relativas à saúde animal.

Fonte: Correio da Manhã

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