A prática é proibida, mas continua a ser usada para disfarçar problemas de sanidade e subir o preço do leite. Saúde pública não está em causa, mas afecta a imagem do sector. Chamam-se máquinas clarificadoras, servem para retirar as células somáticas que aferem a sanidade animal de uma exploração e a qualidade do leite e custam entre 8500 (2ª mão) e 15 mil euros (novas).
O seu uso pela produção é proibido, mas há produtores em São Miguel que as continuam a usar, ‘falseando’ desta forma a qualidade do seu leite e prejudicando a imagem de um sector que projecta no exterior a ideia de que a qualidade do leite açoriano resulta da criação das vacas em pastagens e de um registo sanitário quase ‘imaculado’.
Não está em causa a saúde pública, até porque as máquinas servem para melhorar a qualidade do leite, mas sim uma ‘fraude’ económica que prejudica em primeira instância a indústria, que paga o leite mais caro ao produtor, quando a sua qualidade original era inferior.
Contudo, é todo o sector da produção de leite que acaba por sair prejudicado, pois não se resolvem os problemas de sanidade animal, dá-se uma imagem de desonestidade comercial, podem-se entregar prémios de qualidade do leite a produtores que realmente não a têm e até, no longo prazo, prejudica-se a capacidade de produção de uma exploração, uma vez que as infecções que dão origem às células somáticas no leite acabam por fazer baixar a produção.
As células somáticas são células de defesa das vacas que passam do sangue para o leite quando as glândulas mamárias ficam infectadas, originando mastites. As células somáticas podem gerar reduções de produção ou de gordura no leite e alteram também níveis de proteína e lactose. O controlo das células somáticas no leite é também essencial para aferir do estado de sanidade de uma exploração.
As máquinas clarificadoras retiram as células somáticas do leite e melhoram a sua qualidade, mas devido ao seu custo elevado só podem ser usadas por produtores com grandes explorações, que desta forma contrariam o baixo preço do leite praticado pelas fábricas, mas também evitam o trabalho acrescido e a formação necessária para manter uma exploração com altos níveis sanitários.
Segundo foi apurado, não se poupa dinheiro com a utilização das máquinas clarificadoras, poupa-se sim no trabalho e na formação necessárias para um maneio sanitário de qualidade. Em São Miguel, não haverá mais de duas dezenas de máquinas clarificadoras, cuja venda é livre, num universo de cerca de 1500 produtores, pelo que se trata de um fenómeno reduzido que quem está no sector conhece, mas que nunca terá sido até agora fiscalizado convenientemente, contando um pouco com a ‘complacência’ dos vários intervenientes envolvidos no sector do leite.
O presidente da Associação Agrícola de São Miguel (AASM), Jorge Rita, admitiu ter conhecimento do uso destas máquinas, mas lembrou que esta é uma “situação que já deveria estar resolvida” porque o assunto foi debatido e clarificado há uns anos atrás numa reunião da comissão técnica de acompanhamento da qualidade do leite. Na altura, havia situações que eram do conhecimento público que foram resolvidas pelos serviços oficiais, segundo Jorge Rita, embora admita “não saber se todas as máquinas foram efectivamente retiradas das explorações”.
Para o presidente da AASM, a situação é clara: “este é um problema que tem de ser resolvido directamente na sanidade das vacas e não na clarificação do leite em máquinas” e manifestou o empenho da associação em sensibilizar a lavoura para esta questão, lamentando que haja produtores a recorrer a este mecanismo ilegal “porque a indústria paga pouco pelo leite”.
Só um caso foi denunciado até agora
O leite que é vendido à indústria deve ser tal qual é extraído da vaca, pelo que o uso de máquinas clarificadoras é proibido. Mas a fiscalização não é fácil. No terreno está a Secretaria Regional da Agricultura e Florestas, cujos serviços de classificação do leite não têm competência para instruir processos, cabendo essa responsabilidade à Inspecção Regional das Actividades Económicas (IRAE).
Contudo, a IRAE não manda inspectores às explorações agrícolas, só podendo avançar com processos se os serviços agrários levantarem o auto. E até agora nenhum caso foi denunciado em São Miguel, havendo apenas um processo na Terceira. O produtor vai proximamente a tribunal, podendo ser punido com uma multa e, no limite, com pena de prisão.
Fonte: Anil
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