Mais 16 milhões em IVA com leite achocolatado

Mafalda Pires sai muitas vezes do supermercado com uma palete de leite achocolatado – a única forma que encontrou de fazer os três filhos, com 3, 5 e 8 anos, beber este alimento essencial. Com o aumento do IVA de 6 para 23 por cento previsto na proposta de Orçamento do Estado do Governo vai passar a pagar mais alguns cêntimos por cada pacote.

E como no total os portugueses consomem cerca de 75 milhões de litros de leite achocolatado por ano – ou seja, aproximadamente 375 milhões de pacotes – o Estado vai arrecadar mais 16 milhões só com este alimento se a sua proposta passar.

Dinheiro que vai sair dos bolsos de famílias como as de Mafalda, que critica a ideia de que o leite com chocolate não faz parte do “cabaz essencial”. “Para os meus filhos beberem leite tenho de o disfarçar. Em casa, bebem iogurtes ou leite branco com cereais”, explica. Mas para a escola ou quando precisam de uma solução rápida a opção é pelo leite achocolatado. “De manhã vou começar a fazer a pergunta se preferem branco ou tinto. Porque é ridículo o vinho não aumentar e o leite com chocolate passar para os 23%”, brinca.

Alexandra Bento, presidente da direcção da Associação Portuguesa dos Nutricionistas (APN), também vê com grande preocupação o aumento do IVA sobre alguns alimentos. O leite com chocolate é um deles. “Como nutricionista, o leite branco é sempre preferível, mas eu dizer isso não faz com que as pessoas o bebam. E como alternativa é sempre mais saudável que um refrigerante. Aliás, em muitas escolas o leite que dão às crianças é achocolatado”, lembra.

Para Pedro Pimentel, secretário-geral da Associação Nacional dos Industriais dos Lacticínios (ANIL), a alteração da taxa de IVA no leite achocolatado – e noutros produtos lácteos , aproveita para acrescentar – vai afectar toda a indústria, dos produtores aos distribuidores. “É um produto massificado. São produzidos 65 milhões de litros por ano em Portugal, vendidos 75 milhões. Destes quase 40% são de marca branca. Só isso mostra bem como esta medida vai afectar muitas famílias.” Em Espanha a taxa para estes produtos aumentou recentemente, mas de 3 para 4%.

O argumento de que não se trata de um produto do cabaz básico porque o leite branco é mais saudável não convence Alexandra Bento. A nutricionista explica que o problema dos leites achocolatados não é a adição de cacau, “que do ponto de vista nutricional é interessante”, mas a quantidade exagerada de açúcar que às vezes contêm – 22 g por pacote, em mé- dia, segundo um estudo de 2006 da Deco/Proteste.

“Os pais devem estar atentos e comparar os rótulos. Mas isso resolve-se pressionando a indústria a mudar”, aconselha. Lamenta ainda o aumento do IVA nos sumos de fruta, ” importantes nas lancheiras das crianças”. “É importante pensar no que é que tem lugar no cabaz essencial por- que não podemos limitar as escolhas a pão, leite branco e fruta”, diz.

Fonte: Anil

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