Com a instabilidade social a ressurgir no Globo, políticos e empresários discutem em Davos como evitar a subida de preços dos alimentos
Com a confiança dos empresários em alta e as maiores economias do planeta a darem sinais de retoma, as preocupações dos líderes políticos e empresariais mundiais está já a centrar-se no regresso da crise do mercado das matérias-primas.
Ontem, em Davos, no segundo dia do encontro organizado pelo Fórum Económico Mundial, quase todos estiveram de acordo relativamente aos riscos que o mundo enfrenta devido à escalada dos preços dos alimentos que tem vindo a registar-se nos últimos meses. Não se chegou a consenso, contudo, no que diz respeito à solução ideal para fazer face ao problema.
Os maiores avisos vieram dos países emergentes e em vias de desenvolvimento, aqueles onde já se sente um regresso ao clima de instabilidade social verificado em 2008, o ano em que os preços dos alimentos atingiram os seus máximos históricos. Agora, disse ontem em Davos o Presidente da Indonésia, Susilo Yudhoyono, estamos a entrar novamente numa situação em que “a próxima guerra económica ou conflito podem ser por causa da corrida por recursos escassos, se não conseguirmos resolver este problema depressa”
Nicolas Sarkozy, que ontem, com uma série de intervenções arrojadas, conseguiu ser mais uma vez uma das estrelas da edição de Davos, repetiu a ideia que tinha apresentado no início da semana, apelando a uma regulação mais forte que evite a especulação e a volatilidade nos mercados de matérias-primas. “Deixemos aqueles que compram grandes quantidades de matérias-primas comprometer-se com um depósito de parte do dinheiro usado nessas matérias-primas”, sugeriu o Presidente francês, que irá liderar os trabalhos do G20 durante este ano.
No entanto, algumas vozes em Davos, especialmente do meio empresarial, defenderam que não são os movimentos especulativos que explicam a totalidade da subida de preços e pediram para que não houvesse excessos de regulação. O presidente do maior grupo alimentar do mundo, a Nestlé, disse que grande parte da responsabilidade pela actual crise está no incentivo à utilização dos biocombustíveis. “Exite uma solução muito simples: não à troca de alimentos por combustíveis”, disse Peter Braback.
Do lado do Banco Mundial, Ngozi Okonjo-Iwela também fez um aviso contra a aposta excessiva na regulação, preferindo que se faça um investimento forte na agricultura em África. E Pascal Lamy, da Organização Mundial do Comércio, defendeu que uma abertura dos mercados dos países desenvolvidos aos produtos dos países mais pobres também poderia ajudar.
Jean-Claude Trichet, do BCE, também participou no debate, não para sugerir uma solução para o problema, mas para avisar que o banco central terá de actuar (previsivelmente com subidas de taxas) para evitar que o aumento dos preços dos alimentos crie uma espiral inflacionista na Europa.
Promessa de defesa do euro
Mas, ontem, não foi só do risco de uma crise alimentar que se falou. O euro e os problemas dos países periféricos em financiar-se também dominaram os debates. Sarkozy, mais uma vez, tentou assumir a liderança, garantido que, se depender dele, a zona euro vai ultrapassar os problemas. “A sr.ª Merkel e eu não iremos nunca – ouçam bem, nunca – deixar o euro cair”, afirmou na sua intervenção na sessão plenária do segundo dia do evento.
Ainda assim, vários economistas presentes em Davos, antes e depois desta promessa de Sarkozy, traçaram cenários de sérias dificuldades para a moeda única e os seus membros. O investidor internacional George Soros disse que uma reestruturação da dívida soberana irlandesa, da Grécia e, “provavelmente”, de Portugal dificilmente pode ser adiada.
Fonte: Público
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