INE: Outono seco condiciona sementeiras e refreia expectativas geradas pela subida de preço dos cere

As previsões agrícolas do INE, em 30 de Novembro, reportam-se ao início do ano agrícola de 2007/08, marcado pelo Outono seco que tem condicionado as sementeiras, que se iniciaram em bom ritmo animadas pela elevada cotação dos cereais. Em contrapartida este quadro climatérico facilitou a colheita, secagem e armazenamento das culturas arvenses de Primavera – Verão. Nas culturas mediterrânicas, vinha e olival, registam-se quebras mas perspectivam-se produções de qualidade.

O mês de Novembro caracterizou-se pela continuação de tempo seco e ameno para a época, tendo-se verificado apenas alguma precipitação entre os dias 19 e 23, mais significativa nalguns locais devido à ocorrência de trovoadas. Depois deste curto período chuvoso, que contribuiu ainda assim para algum restabelecimento das reservas hídricas, aumentou a humidade do ar e as temperaturas baixaram para valores abaixo da normal, registando-se a formação de geadas nas terras altas e do interior.

Este quadro climatérico, fortemente marcado pela escassa precipitação e ausência de humidade dos solos, condicionou os preparativos do novo ano agrícola levando inclusivamente à interrupção de algumas sementeiras de Outono-Inverno, que se iniciaram em bom ritmo, animadas pela elevada cotação dos cereais. As searas instaladas no início de Outubro germinaram razoavelmente, ao contrário das mais tardias e das implantadas nos solos mais fracos e de encosta que apresentam um fraco aspecto vegetativo.

A reduzida precipitação também influenciou negativamente a produção de matéria verde dos prados e pastagens, sendo notório o agravamento das condições de pastoreio, especialmente dos pequenos ruminantes, o que se traduz numa redução da produtividade do leite. Desta forma o recurso a palhas, forragens e rações industriais é superior ao esperado para a época, a que se acresce o elevado preço destes suplementos alimentares, muito dependentes da cotação dos cereais.

Outono seco atrasa sementeiras e refreia expectativas geradas pela subida de preço dos cereais

A escalada da cotação mundial dos cereais, comprovada pela duplicação do preço da maior parte das espécies no último ano, é o resultado da conjugação de vários factores de ordem conjuntural e estrutural, designadamente do mau ano agrícola nos Estados Unidos da América e Canadá (os maiores exportadores mundiais), do aumento do consumo das grandes economias emergentes (China e Índia), da queda abrupta dos stocks da União Europeia (em apenas um ano passou de excedentária a deficitária) e, finalmente, da crescente promoção da utilização de biocombustíveis nos transportes (uma causa frequentemente divulgada mas talvez não a principal). Este agravamento do preço de mercado irá obviamente orientar a produção, prevendo-se assim um aumento da superfície de cereais que, no entanto, poderá não ser suficiente para responder às necessidades da União Europeia. Como reacção a esta preocupação, Bruxelas definiu dois mecanismos para promover o aumento da oferta de cereais, decretando a suspensão dos direitos de importação de grão e levantando o pousio obrigatório das superfícies cerealíferas, disponibilizando assim mais 10% de área para a produção, sem introduzir por agora novos sistemas de ajudas.

Neste contexto, e apesar dos elevados custos dos factores de produção (sementes, adubos, combustíveis e lubrificantes), a campanha cerealífera nacional de 2007/08 iniciou-se animada, com as sementeiras a decorrerem em bom ritmo até meados de Novembro. A partir dessa altura e em virtude do Outono seco e ameno que tem obrigado à realização das sementeiras no “pó” (efectuadas em condições de baixo teor de humidade no solo), as expectativas iniciais têm vindo a ser refreadas, levando ao abrandamento e, nalguns casos, mesmo à interrupção dos trabalhos. Devido ao atraso das sementeiras, como resultado da persistência de tempo seco e também da incerteza do evoluir destas mesmas condições meteorológicas, é ainda muito prematuro quantificar o aumento das superfícies de cerais para grão. Em todo o caso para a aveia, cereal cujas sementeiras se realizam mais cedo, prevê-se um aumento de área na ordem dos 15%. Os próximos dias serão decisivos, uma vez que a manterem-se as actuais condições, a superfície de cereais não aumentará conforme o esperado e as searas que ainda apresentam um aspecto vegetativo regular serão afectadas.

Colheita de milho decorre em boas condições e regista aumentos de produção

A colheita das culturas arvenses de regadio encontra-se, à excepção de algumas variedades de milho de ciclo longo semeadas tardiamente, praticamente concluída. O tempo seco e quente facilitou a secagem e armazenagem da produção, que registou um aumento de 10%, face a 2006.

Geada provoca quebras na produção de kiwi

Ao contrário do inicialmente previsto, a produção de kiwi deverá registar uma quebra de 10%. De facto, a escassa precipitação e as temperaturas elevadas para a época determinaram, de um modo geral, a redução do peso e do calibre dos frutos. Nos pomares, cuja colheita se realizou mais tardiamente, a geada agravou a situação causando quebras não previstas.

Menos castanha mas de qualidade

Nos soutos ocorreram condições climatéricas adversas em todo o ciclo vegetativo, inicialmente o frio e a chuva de Maio afectaram a polinização e a floração, posteriormente os ventos fortes de Agosto derrubaram alguns castanheiros e, finalmente, a reduzida precipitação outonal reteve a castanha dentro dos ouriços, atrasando e dificultando a colheita. Desta forma a produção de castanha, uma das principais exportações agrícolas nacionais, deverá registar uma quebra da ordem dos 35%. No entanto e apesar da retenção da castanha no ouriço retirar algum brilho e peso ao fruto, a qualidade é boa o que, aliado à menor oferta, tem determinado um aumento do preço.

A menor produção e a qualidade dos vinhos de 2007 não resolvem os problemas estruturais do sector

A produção de vinho registou uma quebra de 20%, o que levou a que muitas adegas funcionassem muito abaixo das respectivas capacidades. Apesar da quebra de produção e dos problemas sanitários que ensombraram o ano vitícola, existem boas expectativas quanto à qualidade dos vinhos, que apresentam, de um modo geral, boa acidez, estrutura e aroma agradável. Para a obtenção destas características foi determinante o tempo seco durante as vindimas, factor crítico de qualidade dos vinhos, mas também o Inverno chuvoso, que ao restabelecer as reservas de água do solo promoveu o crescimento da videira e o aumento da área foliar, facilitando desta forma o pleno uso da luminosidade do Verão e a maturação equilibrada das uvas.

Com excepção dos vinhos alentejanos que têm vindo a conquistar novos mercados externos, as perspectivas de comercialização dos vinhos não são as melhores. A menor oferta e a qualidade da produção de 2007 são insuficientes para ultrapassar as dificuldades estruturais do sector, designadamente a diminuição do consumo, o excesso de oferta, a produção ainda significativa de vinho de menor qualidade e a difícil situação económica de muitas adegas cooperativas.

A reforma da Organização Comum do Mercado (OCM) do vinho que se encontra na fase final de aprovação, pretende contribuir para a resolução destes problemas, através do estabelecimento de regras para a diminuição da oferta, disponibilizando incentivos ao arranque em situações que o justifiquem (vinhas envelhecidas ou implantadas em áreas desfavoráveis para a produção de vinho de qualidade e quando o potencial de produção é excessivo face ao consumo) e também de medidas endereçadas à reestruturação da vinha no sentido de melhorar a qualidade da produção, sem reflexos no aumento da oferta.

Quebra de produção no olival

A colheita da azeitona, cuja quebra deverá rondar os 25%, tem decorrido em boas condições, encontrando-se os lagares em plena laboração. De um modo geral a azeitona, apesar de alguma desidratação, apresenta boas condições sanitárias, perspectivando-se um azeite de qualidade e com boas fundas (azeite obtido por quintal de azeitona).

O Programa de Desenvolvimento Regional (PDR) 2007/2013, cujo processo formal de aprovação acabou de ser concluído, reconhece o interesse económico, social e ambiental do olival, considerando-o como uma das fileiras prioritárias. Neste sentido foram estabelecidos apoios para novas plantações e modernização do olival, bem como para a transformação e promoção do azeite, com objectivo de aumentar fortemente a oferta, suprindo assim as necessidades do consumo interno, satisfeitas actualmente com 50% de importações.

Climatologia em Novembro de 2007

Segundo o Instituto de Meteorologia, o conteúdo de água no solo no final do mês de Novembro apresentava valores bastante inferiores aos normais para a época.

A percentagem de água armazenada nas principais albufeiras a norte do rio Tejo era de 45%, sendo de 76% em igual data do ano passado.

Fonte: Agroportal

Veja também

Consumo de café aumenta resposta ao tratamento da hepatite C

Os pacientes com hepatite C avançada e com doença hepática crónica que receberam interferão peguilado …