«Os cereais subiram o ano passado entre e 60 e 70 por cento» e as rações para a pecuária «subiram entre 20 e 30 por cento». «Estamos a financiar a produção pecuária e está a ser muito difícil, sob pena de falirmos e de levarmos à falência de toda a fileira pecuária», explica Jaime Piçarra, secretário-geral da Associação Portuguesa dos Industriais de Alimentos Compostos para Animais (IACA).
As consequências são inevitáveis: «para compensar as perdas» acumuladas, o preço da carne deverá aumentar «entre 15 e 20 por cento» nos próximos meses.
Vida Económica – Os últimos dias trouxeram más notícias, quer para a indústria de alimentos para animais, quer para o sector pecuário, quer, ainda, para os consumidores, devido à subida em flecha do preço dos cereais e às consequências que daí advêm. O que é que está a influenciar este aumento dos preços das matérias-primas?
Jaime Piçarra – Olhe, acho que coincidiram no tempo, infelizmente, para nós, uma série de problemas. As alterações climáticas são um facto – não as podemos negar – e tem havido, em termos dos principais fornecedores mundiais, efeitos decorrentes dessas alterações climáticas. A Austrália teve dois anos seguidos de seca, o que não acontecia há 30 anos e agora estamos com problemas com as chuvas na Austrália. A União Europeia teve seca o ano passado e, portanto, não há stocks. Do lado do consumo há dois fenómenos importantíssimos. Há dois países-chave que se estão a desenvolver, que são a Índia e a China, com a melhoria, legítima, do nível de vida de muitos milhões de pessoas. A par disso há o fenómeno que é a canalização de cereais para os biocombustíveis. É verdade que a nível europeu apenas 2 por cento dos cereais vão para os biocombustíveis.
VE – Apenas dois por cento?
JP – Apenas dois por cento, sim. É por isso que a comissária da Agricultura, Mariann Fisher Boel, tem toda a razão quando diz que esse efeito não é dos biocombustíveis em termos europeus. Eu reconheço isso, mas há uma questão que é inegável: nós vivemos numa sociedade globalizada. Quem marca os preços dos cereais e do mercado, nomeadamente do milho, são os Estados Unidos. Este país adoptou estratégias em relação à produção de bioetanol a partir do milho com subsídios directos aos produtores, provavelmente para dependerem menos de fontes energéticas que lhes são hostis ou para manterem as reservas petrolíferas, não interessa. O que interessa é que tomaram essa opção e houve uma corrida à produção de milho, os preços inflacionaram e com isso arrastaram e inflacionaram também a soja, porque ao tornar-se mais apetecível a produção de milho muitos produtores adaptaram áreas de plantação de soja e, com isso, desequilibraram a oferta em termos de soja.
Depois há um fenómeno, interessante e preocupante, que é a entrada de fundos de investimento neste negócio. Os bancos portugueses estão já a oferecer fundos de investimento baseados no milho e na soja com rendimentos garantidos, o que significa que quer haja ou não mercadoria fisicamente há uma garantia de rendimento.
VE – Os bancos estão mesmo a aconselhar a aplicação de capitais nesses fundos de investimento, garantindo elevado potencial de rentabilidade.
JP – Exactamente. Isso tornou muito mais voláteis as matérias-primas de base para a alimentação. Este fenómeno de uma concorrência acentuada entre alimentação e energia, ou seja, a colocação da política energética no financiamento da política agrícola é altamente preocupante e põe em risco a segurança alimentar, no que toca ao aprovisionamento alimentar. Isto, de tal maneira que a China, por exemplo, proibiu já a plantação de milho para o bioetanol. E a África do Sul fez o mesmo. Há, aliás, uma tendência na Europa para reconhecer isso e para apostar nos biocombustíveis de segunda geração e a ONU já estabeleceu uma moratória de 5 anos para estudar a questão.
VE – E a União Europeia não toma medidas?
JP – A UE fixou uma meta de 20 por cento ao nível das energias renováveis até 2020, com consumo obrigatório de biocombustíveis até 2010. Digamos que os países, para obedecer a essa meta, podem fazê-lo de três formas: ou importam o bioetanol ou o biodiesel ou podem importar bioetanol ou importar matérias-primas para transformar a nível local. Para Portugal temos um acordo que a Galp fez o ano passado com a Petrobrás em que a opção portuguesa vai passar por importar grande parte das suas necessidades em biodiesel.
VE – Parece-lhe que essa é a estratégia correcta?
JP – Do ponto de vista de quem tem de utilizar matérias-primas para alimentar os animais para depois fazer face ao aprovisionamento de carne, a estratégia mais correcta seria não utilizar matérias-primas como o milho para os biocombustíveis, mas sim investir rapidamente em matérias-primas de segunda geração que não concorram com a alimentação animal. A única segurança que podemos ter neste momento é que nunca iremos ter matérias-primas ao preço que tínhamos aqui há dois anos. O milho à volta de 150 euros a tonelada, como tínhamos em Junho de 2006, julgo que nunca mais vamos ter. E não podemos ter o milho, como hoje temos, a 250 euros. Isto é insustentável para a nossa indústria e inviabiliza também qualquer indústria de bioetanol. A matéria-prima será sempre determinante, quer na produção de rações, quer na produção de bioetanol. A taxa de câmbio é importante e o preço do petróleo também e com preços desta ordem o biodiesel só é competitivo se tiver isenções fiscais muito fortes. Ora, eu não sei se o contribuinte estará disposto a pagar em política energética aquilo que deixou de pagar através da política agrícola.
VE – Que consequências é que este aumento do preço dos cereais está a ter na indústria dos alimentos para animais?
JP – Gostaria de introduzir uma questão que me parece importante que são os OGM [organismos geneticamente modificados], que são hoje uma realidade. O que se nota é que o mundo está a caminhar para um crescimento desses eventos e a União Europeia tem de arranjar mecanismos de tolerância em relação aos mesmos. Estamos à espera de dois novos eventos [variedades] de milho nos Estados Unidos e na Argentina e em 2009 de uma nova soja. Mas se essas espécies não forem aprovadas na União Europeia é o colapso total.
VE – Se a União Europeia tivesse já neste momento uma maior tolerância em relação aos OGM, certamente não estaríamos a viver os constrangimentos em termos de abastecimento de aumento do preço dos cereais?
JP – Sim, sim. Eu não tenho dúvidas de que, se a Europa abrisse o mercado a esses eventos, que estão autorizados, a tensão no mercado baixaria. A consequência óbvia de tudo isto – é caricato mas é verdade -, é que, se não caminharmos nesse sentido, vamos ter de importar produtos animais (leite, carne e ovos) de países onde os animais são alimentados cada vez com mais OGM. É importante que os decisores políticos reflictam nisto, assim como os próprios consumidores.
VE – E que consequências práticas é que esta euforia de preços está a ter para já?
JP – Os cereais subiram o ano passado na ordem dos 60 a 70 por cento. Nós comprávamos soja, por exemplo, em Janeiro de 2007, a 246 euros por tonelada e neste momento está a 405 euros. As rações para a pecuária subiram entre 25 e 30 por cento e isto é insustentável. Estamos a financiar a produção pecuária e está a ser muito difícil, sob pena de falirmos e de levarmos à falência de toda a fileira pecuária.
VE – Esta situação já está a ter reflexos na pecuária? Há explorações em risco de falir?
JP – Sim, já há explorações a fechar. Fala-se em quebras na ordem dos 20 por cento das explorações. Penso, aliás, que vai haver uma reestruturação do sector pecuário. O sector dos suínos está a ser o mais afectado, porque está a haver um aumento dos preços à produção. O caso da suinicultura é muito disperso e a tendência é para um aumento dos custos e para uma descida dos preços. A questão é quem é que vai fechar. Serão os mais pequenos, certamente. Uns vão encerrar mesmo e outros serão adquiridos por outras empresas. Vai acontecer com a pecuária aquilo que aconteceu há uns anos com o sector agrícola, com uma integração em termos de fileira.
VE – E que reflexos é que esta situação pode ter no preço final da carne?
JP – As margens dos produtores estão a diminuir e cremos que nos próximos tempos esta situação vai ter efeitos ao nível dos preços ao consumidor e vai haver aumento, até para compensar as quebras, entre os 15 e os 20 por cento. Será um aumento nos próximos meses, ao longo deste ano, seguramente, que os consumidores vão sentir. É que, antes de Maio ou Junho, não há perspectivas de descida dos preços dos cereais.
Fonte: Anil
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