Holocausto da carpa

Uma equipa de cientista da Universidade dos Açores está a recorrer à biomanipulação para recuperar a qualidade da água na Lagoa das Furnas, em S. Miguel.

Afectada por um desenvolvimento anormal de microalgas, que torna a água turva, e que tem um culpado – o excesso de carpas – a lagoa tem sido palco de uma intervenção drástica: os cientistas estão a promover a pesca maciça daqueles peixes desde Março deste ano. E a água já começou a ficar transparente.

É sabido que elevadas densidades de carpas (Cyprinos carpio) podem ter um efeito negativo na qualidade da água, mais concretamente em lagos pouco profundos, pelo que a equipa de cientistas açorianos decidiu cortar o mal pela raiz. Desde Março, já foram pescadas cerca de três mil carpas, o que corresponde a cerca de nove toneladas de peixe.

“Os dados referentes aos últimos dez anos mostram que nesta altura do ano a água já costuma ser muito menos transparente do que está actualmente: temos uma transparência de dois metros, quando na realidade o normal é menos de um”, referiu José Manuel Azevedo, biólogo que lidera o estudo, explicando, no entanto, que ainda é cedo para assegurar o sucesso da intervenção. “Só no final do Verão poderá ser possível verificar se houve um desvio estatisticamente significativo.”

MAIS DO QUE SE PENSAVA

A razia das carpas já devia ter terminado no mês de Junho, mas como aparentemente a população daqueles peixes é maior do que se pensava, as pescas vão continuar, embora a um ritmo menor – duas vezes por semana, em vez de todos os dias. Na próxima Primavera será avaliada a necessidade de uma nova etapa de pesca intensiva.

As três mil carpas até agora pescadas correspondem a 50 por cento da estimativa inicial da população total na lagoa (dados de 2004). “Das 302 carpas marcadas nesse mesmo ano, apenas recapturámos 24”, revelou Azevedo. Se nenhuma delas tivesse morrido entretanto, ou perdido a marca, isso significa que o número total de carpas na lagoa deverá rondar as 30 mil. “Teríamos assim apanhado apenas 10 por cento das carpas da lagoa”, sublinha o cientista. “É por essa incerteza que é difícil dizer se a intervenção teve sucesso ou não.”

Igualmente responsável pela situação da Lagoa das Furnas, uma outra espécie piscícola, de menor porte, tem também sido visada pelas acções de pesca: o ruivo (Rutilus rutilus). Em comparação com as carpas, foram apanhados mais de sete mil ruivos, o que corresponde, no entanto, a apenas 470 quilos de biomassa.

“Os ruivos foram um pouco esquecidos, este ano”, afirma Azevedo. “Isto resultou de as técnicas de captura de uma e outra espécie serem diferentes. Ora as carpas eram de facto a nossa primeira prioridade, e foi nelas que nos concentrámos”, explica o especialista em biologia.

REDE GIGANTE PARA RUIVOS

A equipa encontra-se neste momento a estudar uma possível colaboração com cientistas oriundos da Finlândia. Em cima da mesa está a possibilidade de estes especialistas trazerem para a ilha de S. Miguel nos Açores equipamento pesado de pesca, especificamente dirigido a animais como os ruivos que ali existem.

“Trata-se de uma rede de arrasto com cerca de um quilómetro de comprimento, que é puxada para uma barcaça com motores eléctricos. No entanto, ainda não temos orçamento para esse tipo de material. Pode até ser necessário aranjar um financiamento específico só para esta acção.”

Entretanto, a pescaria gigante continua.

COMO E PARA QUÊ SE BIOMANIPULA?

A teoria geralmente aceite considera que os lagos de baixa profundidade podem existir num de dois estados alternativos.

Um lago saudável tem água transparente e é dominado por plantas aquáticas, com uma comunidade diversa de peixes e invertebrados; um lago perturbado apresenta água turva, sendo dominado por microalgas. A turbidez inibe o crescimento das plantas e está relacionada com uma comunidade pobre de peixes e invertebrados.

A Lagoa das Furnas apresenta-se actualmente neste segundo estado e reabilitá-la significa trazê-la de volta para o primeiro. Fazer um lago regressar ao estado saudável não é fácil e implica uma estratégia integrada, que envolva o controlo de nutrientes e uma intervenção profunda na cadeia alimentar, a que se chamou biomanipulação.

No caso das Furnas, além da pesca de carpas e ruivos, será feita ao longo de dois anos a monitorização da evolução da Lagoa do ponto de vista dos parâmetros ambientais, dos macrófitos (vegetais macroscópicos), zooplâncton (animais microscópicos em suspensão nas águas e base de muitas cadeias alimentares) e dos peixes.

Fonte: Correio da Manhã

Veja também

Consumo de café aumenta resposta ao tratamento da hepatite C

Os pacientes com hepatite C avançada e com doença hepática crónica que receberam interferão peguilado …