O proprietário da quinta tratava as galinhas com antibióticos, sem suspeitar que estavam infectadas com H5N1. E escondia em casa o primeiro foco de gripe aviária do continente africano. Ontem, o anúncio da morte das 40 mil aves em Jaji, Norte da Nigéria, deixou a Organização Mundial de Saúde “muito preocupada” com o risco de epidemia. A Organização Internacional de Saúde Animal (OIE) vai mais longe teme que o vírus sofra uma mutação e se comece a transmitir entre humanos, dando origem à próxima pandemia. Em Portugal, os especialistas desdramatizam.
“Altamente patogénico”, o vírus detectado na Nigéria põe a nu as fragilidades dos sistemas veterinários de África. “As infra-estruturas de saúde animal vão confrontar-se com as suas deficiências e precisar de assistência do estrangeiro”, alertou o chefe de veterinária do fundo das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO), Joseph Domenech. Para amanhã está já marcada a partida de um grupo de veterinários da FAO e da OIE para a Nigéria.
A descoberta deste foco “não é uma surpresa” para a FAO, que tem advertido para o facto de África ser “uma região de risco”. Depois do alerta, “a transparência, as intervenções rápidas e uma colaboração estreita com a comunidade internacional são indispensáveis para impedir o pior”, diz Joseph Domenech.
Material de laboratório para os diagnósticos e equipamentos de protecção “são necessários com toda a urgência para os veterinários que estão no terreno”. É que as autoridades já decidiram abater as aves, colocar a zona do foco em quarentena e aumentar o controlo de transporte de animais no país. Jean-Luc Angot, director-geral adjunto da OIE, tem outra preocupação “Tememos que se o vírus surgir em pequenas explorações, única fonte de sobrevivência das famílias, as pessoas não declarem a doença e comam os animais.”
Menos aves e menos pessoas
Para a subdirectora-geral da Saúde, Graça Freitas, “a descoberta deste foco em África não é mais preocupante do que a epidemia na Ásia”. Isto porque “o continente africano tem um povoamento avícola e humano menos denso que o Sudeste asiático” e a propagação não será tão fácil. “Em África, as aves vivem ao ar livre e as pessoas não dormem com as galinhas, como na Ásia”, lembra. No entanto, “é evidente que as condições dos serviços de saúde africanos são diminutas”, conclui.
Graça Freitas sublinha, no entanto, que “não foi por acaso que todas as pandemias começaram na Ásia”. E explica que a mutação do vírus pode acontecer em qual-quer local, uma vez que “esse processo é completamente aleatório”.
Portugal na rota do vírus?
Contactado pelo DN, Luís Costa, da Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves, disse que “não há grande perigo de as aves migradoras trazerem o H5N1 para Portugal”. O risco é mínimo, garante, apesar de estes animais serem esperados na Europa entre Março e Abril. “Não é impossível, mas a hipótese está posta de lado”, acrescenta. É que “a transmissão do vírus não tem acontecido como se esperava”.
Fonte: DN
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