Grandes superfícies não sobem os preços

Os portugueses acordaram hoje a ganhar menos, por força do aumento dos descontos para o IRS, e sujeitos a pagar mais, devido à subida do IVA. Mas, no que toca a este último, os efeitos não são generalizados, com vários sectores do comércio e serviços, sobretudo os grandes distribuidores e a hotelaria, a pouparem – pelo menos para já – os bolsos dos clientes.

Uma medida que terá muito pouco a ver com o apelo nesse sentido feito ontem pelo ministro da Economia, Vieira da Silva. Os motivos mais apontados para não aumentar são sobretudo o receio da perda de clientela e de que a concorrência opte por manter os preços.

Várias das grandes superfícies já vinham anunciando há alguns dias essa decisão. Lidl, Intermarché e E.Leclerc prometeram que a subida de um por cento não se ia notar nas etiquetas. Pingo Doce, Modelo e Continente prometeram manter preços “competitivos”.

A Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição (APED), que agrega as empresas desta área, não quis pronunciar-se sobre esta matéria, alegando que as estratégias seguidas pelos seus associados foram muito variadas. O certo é que uma ronda feita em vários super e hipermercados, do segmento de desconto aos destinados às famílias mais abonadas, confirmou que os preços de um cabaz de produtos básicos não mudaram desde quarta-feira.

Neste caso, dúvida prende-se com quem paga, afinal a diferença. A Centromarca, representante de mais de 800 marcas, veio ontem esclarecer que “são os fornecedores” – ou seja: os fabricantes e os agricultores – que vão suportar a diferença.

Para muitas empresas, desde as gasolineiras a retalhistas, esta margem de manobra não existe. Mas, ainda assim, há alguns sectores, sobretudo na área da hotelaria, para os quais assumir as despesas do IVA é preferível ao risco de perder mais clientes.

José Manuel Esteves, secretário-geral da Associação da Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal (AHRESP) confirma que “Infelizmente, serão as empresas [do sector] a assumir o aumento”. E explica o “infelizmente”: “Seria muito bom sinal que os nossos clientes pudessem pagar essa diferença. A verdade é que o nosso cliente tem hoje menos poder de compra, e obviamente, tem de ser a empresa a absorver o IVA, senão arrisca-se a não fazer negócio”.

Para o economista João César das Neves, “ainda é cedo” para afirmar que algum comércio vai assumir o aumento do IVA, embora seja “previsível” que tal aconteça pelo receio da reacção do consumidor. Do que o economista tem dúvidas é que isso seja benéfico: “Muitas empresas vão repercutir isso nos lucros e nos salários”, explica.

César das Neves duvida que a subida do IVA seja benéfica para as contas públicas, que deveriam estar a concentrar-se “na redução da despesa”. Mas considera que, em certa medida, a decisão é “justa”, porque “até agora, quem tem sentido mais a crise são as empresas e os desempregados. Quem tem trabalho seguro, até ganhou com ela”, defende.

Já Mário Frota, da Associação Portuguesa de Direito do Consumo (APDC), discorda que os consumidores estejam a ser beneficiados nos preços. “Não sentimos isso”, diz. “Hoje em dia vou a um restaurante, peço uma posta de bacalhau, e pago 15 euros”. E mesmo em relação às promoções das grandes superfícies revela dúvidas: “Mais cedo ou mais tarde” a factura vai mesmo parar aos consumidores, avisa. “A nossa experiência diz-nos que por vezes essas promoções são ilusórias”.

Fonte: Anil

Veja também

Consumo de café aumenta resposta ao tratamento da hepatite C

Os pacientes com hepatite C avançada e com doença hepática crónica que receberam interferão peguilado …