FIPA: Sector agro-alimentar precisa de concentrações para ganhar espaço a nível internacional

O sector agro-industrial modernizou-se mas não deu o salto para os grandes mercados internacionais, e para ganhar poder de intervenção nos mesmos as concentrações são fundamentais, afirma o presidente da Federação das Indústrias Portuguesas Agro-alimentares, Jorge Henriques.

O presidente da FIPA diz que não fala em fusões e aquisições «que estão quase totalmente de parte neste contexto de crise», mas de concentrações «para ultrapassar este período difícil», referindo o exemplo da junção da Compal com a Sumol, que agora são só uma entidade.

O responsável garante que pode vir a haver mais casos como aquele, ou então outros, como os que se começam a verificar nos sectores do azeite, das conservas, do leite e de alguns sumos e águas engarrafadas, em que Portugal tem capacidade e poderá vir a ser competitivo, mas sem deixar de reforçar que para isso «é preciso ganhar alguma dimensão, traquejo e muita ousadia».

Sobre a questão da internacionalização, Jorge Henriques tem uma opinião muito pessoal: «se uma empresa é boa em Portugal, onde tem que começar por funcionar bem, não tem que se preocupar com o estar no mercado da exportação, sublinhando que o facto de Portugal ser uma comunidade de países alargada, «a internacionalização está dada por natureza».

Nota que muitas das exportações ainda se destinam ao chamado mercado da saudade, mas esse é um mercado que considera “curto”, e advoga que as marcas têm que alargar o seu mercado aos consumidores locais desses países, além dos emigrantes que lá residem.

Apesar da agro-indústria nacional representar já um volume de negócios anual de 12,5 mil milhões de euros, dos quais seis por cento para exportação, o presidente da FIPA considera que se trata de um sector muito maltratado e esquecido pelos sucessivos governos dos últimos dez anos.

Por outro lado, acrescenta que os portugueses em geral, desde a entrada para a União Europeia (UE), quase que se habituaram a pensar que não era preciso fazer duas coisas: agricultura e indústria.

«A ideia de que iriam viver de qualquer coisa» generalizou-se em Portugal, «uma espécie de bolha que estava por cima de nós, basicamente serviços e turismo», mas isso não é verdade, «e que este sector, atendendo ao espírito de fileira, é extremamente importante para reduzirmos as importações, aumentarmos de alguma forma as exportações» e colocar de parte a concepção «o mercado ibérico era o nosso mercado natural».

Hoje já se percebeu que a diversificação das exportações portuguesas foi um salto muito importante, caso contrário «estaríamos em muito maus lençóis porque a crise em Espanha é galopante», para além da grande desvantagem competitiva face aos espanhóis, devido aos factores de produção serem mais caros em Portugal, a começar pela componente energética, 25 por cento mais dispendiosa.

Felizmente, segundo o presidente da FIPA, já há muitas indústrias a melhorar a eficiência energética e até a apostar em alguma autonomia nesse sentido.

Em relação aos impactos da crise, assegura que ainda não há conhecimento de encerramento de empresas nem quebra de emprego no sector, ao contrário do consumo, que desceu em Portugal e contra o qual algumas fábricas já estão a lutar, através de medidas de reestruturação e a criação de muitas eficiências.

O responsável sublinha que 2008 não foi um bom ano para o sector e os números estão cerca de cinco por cento abaixo de 2007. Em 2009, nos primeiros dois meses do ano, «daquilo que nos vai chegando dos nossos associados, as coisas não estão melhores. Há uma retracção acentuada no consumo e há associados nossos com perdas face ao período homólogo de mais de 17 por cento. Isto em termos de vendas. Sem dúvida que este é já um sinal de que a crise veio para ficar», acrescenta.

O único ponto positivo do sector é que se soube modernizar e, segundo Jorge Henriques, “não ficou para trás. A indústria portuguesa está hoje a par das melhores indústrias europeias do sector alimentar”.

O presidente da FIPA diz que os portugueses têm de regressar em força à agricultura. A terra existe, não há é quem a trabalhe. A indústria agro-alimentar tem cada vez menos matéria-prima disponível em Portugal, vendo-se obrigada a recorrer á importação para poder trabalhar.

Jorge Henriques diz que gostava de ver o cenário mudar e tem uma certeza: «estamos condenados a trabalhar. A trabalhar no campo, a voltar a fazer agricultura, e estou a falar de agricultura rentável. Portugal tem dez por cento dos seus solos produtivos abandonados, e alguns são de classe ‘A’. Quando se sai daqui e se pisa o outro lado da fronteira vê-se tudo cultivado».

Explica que é assim em vários países europeus e não compreende porque razão os portugueses não percebem a importância do sector, e ficam escandalizados quando os empresários espanhóis vêm comprar terras no Alentejo para cultivar, adiantando que concorda com a política de fileiras recentemente apresentada pelo Ministério da Agricultura.

«Mas não podemos viver no país do faz de conta, do anunciar coisas que não se realizam. E a verdade é que ao longo dos últimos anos», se tem «falado muito e feito pouco», afirma.

Defende que os engenheiros agrónomos têm que sair para o campo e desenvolver projectos credíveis e rentáveis. «O Portugal das casinhas tem os dias contados, não tem havido investimento porque têm sido dados sinais contrários, no sentido da não-produção», afirma ainda o mesmo responsável.

Por fim, o presidente da FIPA critica a banca por não apoiar mais o sector agrícola: «é verdade que não tem havido apetência do lado da banca para este sector, mas vai ter que haver porque Portugal não pode continuar só dependente do exterior», lembrando que Portugal importa mais de 60 por cento da matéria-prima necessária à indústria do sector.

Fonte: Expresso e Confagri

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