Estudo: transgénicos não provocam mais alergias

Um estudo pioneiro realizado em Portugal concluiu que a resposta alérgica do organismo humano é idêntica perante os alimentos modificados geneticamente e os convencionais, e que praticamente todos os portugueses já consumiram substâncias transgénicas.

Realizado por Rita Batista, assistente de investigação do Centro de Segurança Alimentar e Nutrição do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge, em Lisboa, o estudo analisou a reacção alérgica de 134 indivíduos, sobretudo crianças, ao consumo de quatro tipos de milho e uma soja geneticamente modificadas.
Estes cinco alimentos, pormenorizou a investigadora à Lusa, possuem três características geneticamente introduzidas: a resistência a insectos e a dois herbicidas diferentes.

Todos os cinco estão já aprovados pela União Europeia para comercialização nos Estados-membros e, pelo que apurou a investigadora, a maioria da população portuguesa já os consumiu.

«A reacção alérgica surge ao segundo contacto» com um elemento potencialmente alérgico, explicou Rita Batista, uma vez que no primeiro contacto o que acontece é uma sensibilização do organismo a essa substância, que o prepara para reagir caso volte a encontrá-la.

Uma vez que testar a resposta alérgica aos alimentos trangénicos «não tinha lógica» se não tivesse existido já esse contacto prévio, foi necessário proceder primeiro a um inquérito alimentar.

Rita Batista recolheu em vários hipermercados os nomes de muitos dos produtos que contêm milho ou soja e questionou depois 106 pessoas, essencialmente crianças, sobre se já os haviam consumido alguma vez.

Os dados obtidos neste inquérito foram depois cruzados com informação fornecida pelo Instituto de Biologia Experimental e Tecnológica (IBET), que analisa periodicamente a presença de transgénicos nos alimentos comercializados em Portugal.

Segundo a legislação que regula a comercialização de alimentos que contenham, ou sejam constituídos por, organismos geneticamente modificados, não é obrigatória a informação no rótulo do produto desde que estes não ultrapassem uma proporção de 0,9% e seja «acidental ou tecnicamente inevitável» a sua presença.

O cruzamento estatístico da percentagem de transgénicos presente nos alimentos com milho e soja fornecida pelo IBET (e não identificados comercialmente) e das respostas ao inquérito levaram à conclusão de que «quase 100% das pessoas já comeu transgénicos», pelo que «podia avançar com o resto do estudo».

A fase seguinte da investigação – publicada este mês no Journal of Allergy and Clinical Immunology, da Sociedade norte-americana de Alergias, Asma e Imunologia -, foi obter amostras biológicas dos quatro tipos de milho e da soja a analisar, o que não se revelou tarefa fácil.

Igualmente complicado, salientou a investigadora, foi conseguir uma empresa que transformasse esse material biológico em extractos proteicos que pudessem ser utilizados nos ensaios de avaliação do grau alérgico, e obter amostras das proteínas transgénicas puras e dos respectivos anticorpos, para funcionarem como comparadores.

Após quase dois anos de contactos, Rita Batista conseguiu o material necessário para iniciar os testes, os quais foram efectuados com a colaboração do Instituto de Tecnologia Química e Biológica, do IBET, do Hospital de Santa Maria, em Lisboa, e da Clínica Médica e de Diagnóstico Dr. Joaquim Chaves.

Os extractos proteicos foram testados por via cutânea em 77 pessoas, entre crianças com alergia respiratória e alimentar (incluindo a alergia à soja e milho convencionais) e indivíduos com asma e rinite.

Simultaneamente, Rita Batista analisou a resposta, em testes laboratoriais, de 57 pacientes com historial de alergias alimentares aos alimentos convencionais, aos transgénicos e às proteínas transgénicas puras.

Os resultados obtidos, após dois anos de testes, revelaram que a resposta alérgica dos indivíduos testados foi idêntica quer aos alimentos transgénicos, quer aos convencionais.

Ou seja, quem já possuía alergia ao milho ou à soja convencional manteve-a, no mesmo grau, relativamente às substâncias transgénicas, enquanto quem não a possuía, não a desenvolveu.

Estes dados levam o estudo, financiado pela Fundação Calouste Gulbenkian e pelo Ministério da Saúde, a concluir que «as amostras de milho e soja testadas são seguras no seu potencial alergénico».

Consciente da polémica que rodeia os alimentos geneticamente modificados, Rita Batista defendeu a necessidade de se realizarem mais estudos deste tipo, embora ressalve que «não há alimento mais testado do que os transgénicos».

«A biotecnologia tem riscos, assim como muitas outras tecnologias que usamos, mas é útil e não podemos ser extremistas. Os alimentos têm de continuar a ser testados para se provar a sua inocuidade para a saúde, mas também para que existam dados disponíveis para a população», enfatizou.

Fonte: Diário Digital

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