Estirpe resiste a fármaco adoptado por Portugal

Há uma nova estirpe do vírus da gripe aviária H5N1 que é resistente ao Tamiflu, o medicamento que os países pelo mundo inteiro, incluindo Portugal, estão a adquirir como reserva estratégica para fazerem face a uma eventual pandemia de gripe causada por este vírus das aves, se ele vier a infectar também a espécie humana.

Este dado novo levanta a possibilidade de aquele medicamento, que usa o princípio activo oseltamivir, ser insuficiente para combater uma potencial epidemia global causada por este vírus da aves.

Portugal decidiu adquirir 2,5 milhões de doses de Tamiflu para a sua reserva estratégica, sendo o único medicamento existente para combater uma eventual epidemia. Contactado pelo DN, o director-geral da Saúde, Francisco George, referiu que na altura da elaboração do Plano de Contingência para Portugal, a DGS “já sabia que a possibilidade de resistência ao Tamiflu existia em 10% dos casos”. Não revelando se Portugal vai ou não encomendar outro tipo de medicamento, Francisco George disse apenas que, “nestes casos, o que há a fazer é aumentar a dose de Tamiflu e prolongar o tratamento”.

Na Roménia foi, entretanto, detectado ontem um novo foco de gripe aviária no Sudeste do país, em Maliuc, uma aldeia no delta do Danúbio, localizada a cerca de 60 quilómetros de Ceamurlia de Jos, o primeiro local naquele país onde foram detectadas, na semana passada, aves infectadas com o H5N1.

Quanto à nova estirpe do vírus resistente, a sua descoberta é relatada na Nature por uma equipa de investigadores do Japão, que estudou o caso de uma doente do Vietname, infectada em Fevereiro pelo H5N1. O artigo só deveria ser publicado na próxima semana, na edição de 20 de Outubro. No entanto, a revista científica britânica decidiu ontem antecipar a sua publicação, “dada a sua relevância para os debates públicos ” relacionados com uma potencial pandemia de gripe.

A rapariga vietnamita, de 14 anos, infectada pelo H5N1, foi tratada com Tamiflu, cujo princípio activo é o oseltamivir, e acabou por recuperar. Mas o estudo genético sobre o vírus, feito posteriormente por uma equipa liderada pelo investigador japonês Yoshihiro Kawaoka, da Universidade de Tóquio, mostra que ele tinha uma sofrido uma mutação que o tornava resistente ao oseltamivir.

Testes de laboratório em animais, realizados pela mesma equipa, mostraram, no entanto, que o mesmo vírus era sensível a uma outra substância antiviral chamada zanamivir, que é comercializada com o nome de Relenza.

Segundo os investigadores japoneses, os seus dados sugerem “que poderá ser útil ter também em reserva o zanamivir, para além do oseltamivir, no caso de uma pandemia causada pelo H5N1”. A potencial emergência de vírus resistentes aos medicamentos disponíveis é sempre uma preocupação das autoridades sanitárias, pelo que há inúmeros estudos . O que essas investigações mostram é que os vírus com mutações que os tornam resistentes também perdem dinâmica, tornando-se menos transmissíveis e menos patogénicos. Mas esta é apenas uma indicação geral.

Os autores referem ainda no seu artigo na Nature que a mesma doente vietnamita pode ter sido contagiada pelo irmão, e não directamente por aves infectadas. Não há, no entanto, qualquer confirmação desta suspeita, pelo que, sublinham os autores, será necessário estudar casos de suspeitas idênticas para que possam ser avaliadas outras implicações.

A possibilidade de o H5N1 provocar uma nova pandemia de gripe já está a preocupar a Organização Mundial de Saúde (OMS) há algum tempo. Para já, os únicos casos humanos aconteceram na Ásia e foram provocados por contactos directos com aves infectadas. Não há nenhum caso de contágio entre humanos confirmado.

Fonte: DN

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